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O COMEÇO DA VIDA

 O COMEÇO

Felipe estava feliz naquela manhã de outono, teria uma oportunidade que a tanto esperava, mas tinha que contar muito com a sorte. A vida para ele começaria naquele dia.

Ele seria o resultado da fecundação, seria o escolhido para levar adiante uma fagulha de vida, mas dependia muito da dona do útero.

Mirtes se prostituía numa esquina da rua Voluntários da Pátria, ela era muito bonita, tinha um corpo bem torneado, quadril largo, coxas grossas, cintura fina e usava uma saia curtíssima que atraía olhares famintos por sexo, de todos que passavam por ali. Fazia quase 10 programas por dia e nem todos usavam camisinha. Ela cheirava muita cocaína e fumava maconha também, e às vezes passava algum sem preservativo, e no fim do dia, já não sentia mais nada, já se deitava com as pernas abertas, e deixava que a penetrassem, gozassem, pagassem e fossem embora. Eram homens de todas idades, de todos os cheiros,de todas as cores, de todos os calibres, uns gemiam, fungavam, beijavam, outros faziam em silêncio. Tinha um que ela achava especial, não era bonito, não era atlético, não era loiro, não tinha olhos claros, mas a tratava de um modo especial, tocava seu corpo com tanto carinho, que ela se arrepiava toda, só de pensar nele. Uma vez por semana, todas as sextas, no meio da tarde, ele aparecia, dava duas voltas na quadra, olhava as concorrentes, mas sempre ficava com Mirtes. Naquele dia, ela resolveu fazer diferente, subiu a escadaria com ele, levou-o até o quarto e pediu um tempinho para se preparar, foi até o chuveiro no fim do corredor e tomou um banho no capricho e foi para o quarto. Pediu que ele não usasse o preservativo e  disse que teria todo o tempo para ele. Foi um programa fora dos padrões, teve começo, meio e fim, tudo como mando o figurino. Chegou ao orgasmo, coisa que ela não conseguia fazia tempo, não quis cobrar, mas ele fez questão de pagar dobrado, o serviço tinha sido de primeira. Desceram a escadaria, ela estava radiante e tinha resolvido tirar o resto da tarde de folga.Voltou para seu quarto, acendeu um baseado, tirou a roupa e se deitou olhando a fumaça subindo até o teto, neste momento aconteceu à fecundação de seu  óvulo, estava no seu período fértil. Felipe estava a caminho, a porta tinha sido aberta e finalmente ele já era um projeto.

Mirtes continuou a se virar na Voluntários e nem se deu por conta que sua mestruação tinha cessado, tudo igual, cheirava, fumava, trepava, pagava o cafetão, e se estivesse grávida, tirava, como tantas vezes já havia feito. Só uma coisa havia mudado, havia dois meses que “ele” não aparecia mais, e as sextas começaram a ficar enfadonhas.

A barriga já estava aparecendo e ela resolveu ir até uma clínica, para tirar aquele corpo estranho que estava dentro de seu útero, ela não sabia quem era o pai e nem queria saber. Procurou uma amiga para acompanhá-la até o local, mas quando chegaram, foram avisadas que havia sido fechada pela polícia. Voltaram para o trabalho.

Nestes dois meses e meio, Felipe já estava se formando, ainda era um feto indefeso, mas cheio de esperança,não sabia de nada do que se passava fora do útero, a não ser os cutucões que recebia diariamente, em função da atividade da mãe, mas perfeitamente adaptáveis.

O tempo foi passando e Mirtes tinha que achar outra Clínica de aborto. Pegou um novo endereço e foi sozinha. Mas ao tentar atravessar a Av Farrapos, não viu um ônibus no corredor, e foi atropelada, indo parar no Pronto Socorro, ficando entre a vida e a morte. Após os primeiros socorros ela entrou em coma. Nesse período Mirtes delirava, pensando em sua infância pobre no interior, de quando era estuprada pelo  pai com a conivência silênciosa da mãe, da chegada na capital, e daquele cliente das sextas, seria ele o pai, achava difícil, pois dizem que os espermas ficam até uma semana dentro da vagina, vai ver era de outro. Agora como ia fazer, tinha que voltar, tinha que achar a Clínica para tirar logo aquela coisa  que estava  dentro dela e voltar para a batalha.

Os médicos verificaram a gravidez, e o feto não tinha sido atingido. Ela não tinha nenhum documento, nada que pudesse ser reconhecida. Tinha na bolsa, uma quantia em dinheiro para o aborto, um batom, um crucifixo, umas miudezas, e nada mais. Mirtes foi mantida com vida durante 5 meses até o nascimento do bebê, e logo depois morreu. Foi enterrada como indigente, no cemitério da Santa Casa, pois durante todo esse tempo, ninguém apareceu procurando por ela.
O nenê nasceu prematuro e foi encaminhado para um hospital com UTI neonatal, até ficar mais forte e ser colocado em adoção. Era um menino lindo, com pele morena, olhos castanhos, cheio de vida e sorridente.

É,  Felipe conseguiu, apesar de todos os contratempos, passar mais esta etapa, agora começaria outra, mas esta seria mais fácil, no entendimento dele, porque já tinha algumas armas a serem exploradas, como a empatia, o sorriso e aqueles olhinhos vivos e brilhantes. Só tinha um porém, ele era portador do vírus HIV. Mas ele raciocinava,se já escapei de ser sugado aos pedaços, do útero da mamãe, o que era vencer este vírus e continuou a sorrir e a balançar os bracinhos e as perninhas.
 
                                                                                       
Pedro Guilherme Holz.



pedro guilherme holz
Enviado por pedro guilherme holz em 10/09/2007
Reeditado em 11/09/2007
Código do texto: T646436

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Sobre o autor
pedro guilherme holz
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil, 62 anos
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pedro guilherme holz