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O Presente de Desejo

    Em suas mãos, um lindo embrulho enlaçado numa fita cor de vinho ou de sangue. Dionísio? Não, era um presente dele, mesmo. O que é? Posso ver? Não, não pude. Conversaríamos primeiro.

    Conversar com Desejo era algo que há muito eu não fazia, pelo menos não com palavras. Há muito eu não lhe contava o que eu fazia ou pensava, não lhe narrava os resultados de minhas loucuras ou da diversão que tinha em sofrer. Há muito ele não ouvia de mim que seus presentes me salvavam da demência desse mundo trator, da embriaguez da sobriedade a mim impelida e da realeza insípida que riscavam em meu nome.

    Quer beber algo? Não quis. Alimentou-se no caminho até cá de todos os pequenos quereres mundanos. O cio dos gatos, a fome dos homens, sua ira infundada, o cansaço de alguém e a curva hormonal de uma mulher. Desejo assim os sabia porque em sua essência está não só a atração carnal, mas todas as vontades primitivas, de comer, de dormir, de caminhar. Também as minhas estão.

    Trouxera-me um presente insólito, avisava-me, que só poderia abrir em sua ausência. Desejo, eu quero estar só, cabeça vazia, o coração batendo num ritmo natural.
   
    - Natural é desejar, ele me disse.
 
    Mas como pode ser natural eu querer que esteja aqui quem não está? É também natural eu desejar noites inteiras em álcool e saliva e suor, uns dizeres ao pé do ouvido, um atrito despreocupado e desmedido, despido de fé ou moral? Se os presentes que recebo estão todos truncados, obtusos, escondidos em palavras cheias de preto e de branco, numa ausência devastadora e uma candura sem inocência?

    Interrompeu-me o afã com a absurda doçura de seu olhar. Não é possível desviar-se do olhar de Desejo, nem se suscita fazê-lo. Fixar-se a ele é uma impoderabilidade, como respirar, como saciar-se, como desejar.

    - Natural é desejar, ele repetiu.

    Permaneci calada. Não seria necessário contar-lhe dos anseios sufocados que agora irrompiam em meu cotidiano, das esperas silenciosas que se faziam murmúrio e se desejavam gritantes, nem de minha ira latente, inconformada, prestes a sangrar.

    Não lhe contei de meu medo itinerante, bandido passeando em minhas esquinas, espreitando-me, ameaçando-me. Não lhe contei do que me consome ou renova, se o que me tortura é sempre o meu desejo.

    O presente é insólito pra alguém tão assim, tão pagã. Algo lento para alguém tão ansioso, doloroso para sua frígida sensibilidade. Mas e os cabelos negros? E os loiros? Os olhos verdes e os vilmente castanhos? E a tortura de minha inconstância?

    Desejo arrependeu-se de meus últimos presentes. Passeei por entre todos, lentamente, degustei-os. Cansei-me, então, como se a natureza de meu desejar não fosse frívola, como se não fosse fugaz, como se fosse frugaz.

    Desejo incomodava-se com minhas renúncias, com meu anseio incansável e sempre tão esperançoso. Enervava-se com meu riso. O desejo não é para o sofrimento, eu lhe dizia, o desejo é para o que vier, ele respondia. E é pelo seu desejo que vim.
 

Fernanda Gadêlha
Enviado por Fernanda Gadêlha em 16/09/2007
Reeditado em 16/11/2008
Código do texto: T655119

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Sobre a autora
Fernanda Gadêlha
Salvador - Bahia - Brasil, 31 anos
20 textos (663 leituras)
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Fernanda Gadêlha