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Eu, minha morte e a galinha

AVISO:
 Peço gentilmente às pessoas que se indispõem com tabus sociais e religiosos, não leiam o texto. Àqueles que lerem, peço que critiquem se desejarem, mas utilizem o racional para tal e não a emoção descabida presente na ignorância sobre o assunto. Obrigado.



Ontem enquanto caminhava pela rua, eu morri.
Mas tudo bem, não se preocupe, já estava farto dessa vida tão monótona e estúpida.
Caminhava observando as pessoas, os automóveis e alguns animais comuns das cidades – pombas e cães em sua maioria – indo e vindo, na sua eterna dança diária na monotonia pulsante das cidades populosas. Senti forte aperto no peito. Parei e percebi que algo errado estava acontecendo comigo. Se vou morrer agora - pensei - defronte tão inútil multidão, terá que ser bela morte, para ser lembrada posteriormente.
Encostei num poste de luz, a dor no peito aumentava na proporção da certeza de morte. Fiz a cena: cambaleei até o centro da calçada, coloquei a mão direita sobre o peito e o braço que me restava abri dramaticamente, enquanto arqueava o corpo para trás e olhava para o céu.
Um senhor passava e me segurou pelo braço, perguntando se me sentia bem e precisava de ajuda. Afastei disfarçadamente o intruso e o encarei com severidade, meus olhos com os mesmos dizeres que vemos pendurados nas portas dos hotéis: "não me perturbe". Poxa, não atrapalhe minha triunfal despedida.
Olhei para cima novamente e tombei, caindo de costas no chão. Só lembro de ouvir vozes e o corre-corre de gente preocupada hipocritamente com a vida alheia e que no fundo apenas buscam, como urubus sociais que são, acompanhar a dor e a desgraça de outrem. Grasnem, amiguinhos, grasnem.
Acordei ao lado do meu corpo, que jazia repousado sobre um leito de hospital, pulando em espasmos engraçados quando o médico encostava as chapas de metal nele. Sorri como não sorria há tempos. Era cômico ver o próprio corpo pulando em convulsões espasmódicas. Não entendo como as pessoas vestidas de branco naquela sala conseguiam segurar o riso e manter expressões tão realistas de preocupação. Além de médicos deveriam ser atores, decerto! Quase acreditei que estavam realmente se importando com o jocoso semi-cadáver na mesa, com os olhos esbugalhados e a língua pendendo da boca.
Pararam de brincar com meu corpo e o cobriram. Acredito que foi aí que morri realmente. Alguém fez algumas anotações num formulário e todos saíram da sala. Decidi dar uma volta, já que a brincadeira havia terminado por ali.
Engraçado que todos os livros ou filmes que vi durante minha vida com temática sobre o pós morte eu pensava o quão estúpido era tudo aquilo. Mas agora podia comprovar que era mais ou menos aquilo que a sétima arte e as escritas alienadas descreviam e me sentia mais estúpido ainda!
Tentei assombrar alguém para me divertir, mas ninguém se interessou. Eram indiferentes, não me viam nem sentiam. Estava enfadonho demais. Que chatice morrer e não poder se divertir. Nunca fui religioso, mas visto estar tão solitário, chamei por deus, qualquer um deles. Aceitaria até mesmo o deus Marduque e seu dragão Mushussu, pertencente à religião dos Sumérios, qualquer coisa.
Sempre me diziam que um dia eu chamaria por deus e isso que fiz; Deus aparecendo eu teria com quem conversar ou talvez jogar uma partida de pôquer, pelo menos.
Para minha surpresa apareceu, após chamá-lo mais de nove vezes. Na realidade o que apareceu não foi a idéia pré-concebida que criaram - e forçaram outros a acreditar - de um deus barbudo com vestes claras, mas sim uma galinha, cacarejando pelo corredor do hospital. Olhei aquilo um pouco chateado. Cocei os olhos e me aproximei:
- Chamei deus e me apareceu uma galinha. Se pedir bacon aparecerá o que, heim ? – revoltado, dei meia volta para procurar o que fazer em outra ala do prédio, ignorando o animal.
- Você chamou deus e aqui estou eu. – disse a galinácea, enquanto botava um ovo.
- Você é deus ? O deus cristão ou algum outro?
- Claro que sou o deus cristão, o único que existe.
- Poderia ter aparecido numa forma mais... normal, digamos.
- Mas eu sou assim. Isso é o meu normal.
- Você é uma galinha! – eu estava atônito enquanto mais um ovo saiu da sua cloaca.
- É ? Talvez, quem sabe.
- É ou não é, porra ?
- Tenho forma de galinha, mas sou deus.
- Pensei que você era mais...mais...sabe...bem mais...
- Desembucha, defunto ! - A galinha-deus era impaciente.
- Mais parecido com um humano.
- Ah ! Mas isso aconteceu porque é aquela velha história: alguém conta uma história para uma pessoa, esse conta para outro e quando percebemos a coisa muda totalmente e sai do controle. Sempre fui galinha, mas de boca em boca me tornei humano e milagreiro boníssimo que anda pelos bons caminhos. Coisas de vocês, humanos.
Caímos numa gargalhada que pensei não ter fim. Quando me recompus,  retomei o diálogo:
- Incrivel. Como nós humanos somos poderosos!
- Sim, vocês possuem um poder enorme, mas preferem se dirigir à mim, colocar as responsabilidades em minhas asas.
- Que absurdo, Galinha! - A galinha estava ciscando o piso frio do hospital, talvez uma mania.
- Então eu morri. O que faço agora ?
- Não tenho a mínima idéia. Quer um ovo ?
- Caipira ?
- Uhum.
- Dois, por favor.


 
Fabricio Oliveira
Enviado por Fabricio Oliveira em 17/09/2007
Reeditado em 19/12/2014
Código do texto: T656997
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Fabricio Oliveira
Botucatu - São Paulo - Brasil, 30 anos
56 textos (2915 leituras)
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Fabricio Oliveira