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LÁ VAI POMBA!


No Centro de Fortaleza, existia, se ainda existe não sei, um bar muito freqüentado por gente importante da cidade. Fim de tarde, depois do expediente para o local, acorrem  advogados, juízes, promotores, políticos, militares, empresário, enfim pessoas das mais diversas profissões para tomar uma, bater um papo e se distrair dos aborrecimentos e do estresse do dia-a-dia.

O ambiente é pobre. Um boteco mesmo. Mas como a freqüência é boa, o movimento é muito grande. A procura por mesa, cadeira, local para se encostar fica difícil devido ao grande  número de freqüentadores.

Mesmo com toda a seleção da freqüência, no ambiente existe uma lei do dono do bar nunca desrespeitada. Não importa quem esteja lá dentro, bebendo, deu determinada  hora o dono fecha. Pede licença, e diz que vai fechar e acabou. Recebe a conta e os freqüentadores se retiram na maior, sem problemas, pois sabem que não adianta questionar: o dono neste aspecto é intransigente. Portanto, que freqüenta o local já conhece a regra e respeitam. Deu a hora, pronto. Vou fechar e todo mundo se manda.

Afora os demais empregados do bar, tinha um de total confiança do proprietário. Um sujeito, meio abobalhado, semi-analfabeto, além de muito trabalhador, honesto até dizer chega. Mesmo sendo analfabeto era a segunda pessoa do homem. Morava acho que no próprio bar. Considerado da família.

Certa noite, o proprietário teve que sair mais cedo, antes de encerrar o expediente, e deixou a responsabilidade de fechar o bar com o tal empregado. Deu as ordens e a maior recomendação foi quanto ao fechamento do local; não importava que estivesse lá, para não abrir precedentes, era para fechar na mesma hora de sempre. Depois de tudo explicado direitinho, foi-se despreocupado.

O coitado fica de prontidão, trabalhando e de olho no relógio para não deixar passar o horário marcado. Quando a hora chega, o único freguês no bar um sargento da Polícia Militar, totalmente embriagado, que dormia, o sono solto, escorado em cima de uma mesa. O empregado tenta por diversas vezes acordá-lo, mas não consegue. Vendo que o sargento ia passar mesmo a noite ali capotado, fechou o bar com o ele dormindo lá  dentro e foi embora.

Cumprira a risca as determinações do patrão. Tinha fechado o bar no horário certo. Entretanto, antes de sair teve uma idéia não muito brilhante. Tirou o revólver do sargento e colocou na cintura.

De arma no cós das calças, passou a perambular por vários bares do Centro da cidade. Altas horas, meio embriagado, foi abordado pela polícia, na Praça da Estação, local freqüentado por meretrizes, homossexuais, bandidos, enfim gente perigosa que vive na noite, que descobriu em seu poder a arma e um molho de chave.
Indagado pelos policiais sobre a arma e as chaves, disse onde trabalhava, informou também o nome do proprietário, bastante conhecidos, bar e proprietário, pela polícia, que as chaves eram do bar, pois o proprietário saíra mais cedo e que ele ficara encarregado de fechar. Quanto à arma, era do sargento fulano de tal, que estava bêbado, dormindo dentro do bar. Como ele não tinha conseguido acordá-lo e para evitar um possível problema, deixara o sargento lá e trouxera a arma, que ia devolver no dia seguinte.

Mesmo assim, contando a história em detalhes, os policiais resolveram levá-lo para a delegacia, e deixa a decisão por conta do delegado de plantão.

Na delegacia, o sujeito repetiu a história, mas o delegado preferiu prender o coitado e averiguar a veracidade dos fatos no dia seguinte.
 
O coitado foi jogado na cadeia, onde se encontravam diversos presos: uns quarenta sujeitos, segundo ele. Ainda segundo ele, quando entrou, logo de cara um bandido já ficou de olho no pobre, querendo comer o coitado. Pra se defender, foi logo dizendo: “olha, eu não sou veado.” O sujeito que o encarava disse: “Aqui não tem isso não,  a gente vai te comer de qualquer jeito.”

Apavorado, o pobre diabo propôs um acordo. Eu faço o seguinte: “topo chupar e tocar punheta em todos aqui dentro, mas ninguém come o meu rabo.”  O negócio foi aceito de bom grado pelos presos; fechado na hora.

Os sujeitos partiram pra cima do coitado, já disputando os primeiros lugares. Ele, para se resguardar, encostou o cu na parede e começou a atender os primeiros fregueses. Enquanto chupava um, para não perder tempo e melhor se proteja, já tocava punheta em dois.  Mas, de vez em quando um preso gritava lá no fundo:

 - “Se prepara, que LÁ VAI POMBA.”

O miserável encolhia-se mais ainda, na proteção do rabo que encostava na parede o máximo possível, e continuava seu serviço.

Deu conta dos presos todos.  Terminado o serviço, exausto, ficou à espera do dia amanhecer para ser solto e não ter que passar por outro vexame daqueles.

No dia seguinte foi solto, depois de averiguada a veracidade da história, o pobre foi solto, e até hoje conta a história como vantajosa, pois tendo chupado e tocado punheta nos caras, evitara que comessem seu rabo. Disse ainda que nunca tinha visto tanta gala junta. Saiu de lá todo melado, mas ainda zerado, como se diz por estas bandas.

Por conta disso, até hoje é conhecido como LÁ VAI POMBA.
Henrique César
Enviado por Henrique César em 01/10/2007
Código do texto: T676523

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Sobre o autor
Henrique César
Fortaleza - Ceará - Brasil, 65 anos
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Henrique César