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Corrosão

        Magda era uma mulher de 50 anos, poucos amigos e contraditória. Num dia sorria para um conhecido e, não raro, dias depois seria capaz de levá-lo pelos cabelos ao cadafalso em plena praça pública. Com esse seu temperamento, conquistava e afastava as pessoas com a mesma rapidez e proporção.
Era impetuosamente solidária em algumas ocasiões, o que lhe conferia alguns créditos de admiração.
Mas essa oscilação de temperamento começou a desvanecer, quando sua melhor amiga encontrou o grande amor e se casou. E esvaiu-se por completo após a promoção de um vizinho a diretor da empresa em que trabalhava.
Magda tornou-se então uma pessoa totalmente amarga. A inveja, o despeito e a revolta começaram a dominar seus pensamentos. Cada vez mais sozinha, já não fazia questão de esconder seus sentimentos.
Passava os dias articulando pragas aos amigos e profetizando a falta de sorte que poderiam encontrar ainda pelo caminho. Afogava as mágoas na bebida, esquecendo-se dessa forma, de viver.
Um dia, ao olhar-se no espelho de aumento do banheiro, notou que a pele do seu rosto estava grosseira e sem viço. Apressou-se a lavar o rosto e untá-lo com uma quantidade insana de creme.  Foi para o quarto e olhou-se no grande espelho vertical. Suspirou aliviada; parecia melhor.
O tempo foi passando, e toda vez que Magda se olhava no espelho de aumento, sua pele estava pior. Começou então a delirar, passando verdadeiras alquimias na pele. Quando novamente se olhava no espelho do quarto, tudo estava normal.
A situação começou a piorar semanas depois, quando acordou e ao se olhar no espelho do banheiro, viu sua pele tão encarquilhada que parecia uma bruxa saída dos contos de fadas. Desesperada começou a esfregar o rosto com uma escova e passava cremes descontroladamente. Abaixou-se para lavar o rosto e quando olhou-se novamente, seu cabelo havia perdido o tom acaju brilhante e agora, estava todo grisalho, com um aspecto de palha. Alucinada, Magda passou as mãos, e grandes chumaços de cabelo começaram a cair, provocando horríveis falhas em sua vasta cabeleira.
Voltou a esfregar o rosto, e sua pele começou a soltar  como se fosse queimadura de sol. Ela puxava por uma ponta e a pele se desprendia inteira.
Pegou o copo que havia deixado na pia e deu três goles na identificável mistura de álcool.
Os olhos vidrados observavam a figura, agora sem cabelo algum e cadavérica, quando atrás de si surgiu a imagem dela mesma, 30 anos mais jovem. Com uma suavidade angelical, a jovem Magda começou a falar:
— Você me destruiu. Com seus sentimentos desmedidos de ganância, egoísmo e inveja, você acabou comigo. Esse espelho tornou-se mágico, e refletia, não a sua imagem física, mas a sua alma. O ódio e o ressentimento são como ácido corroendo o corpo. E você alimentou essa corrosão. Você me destruiu, e sua revolta e falta de amor destruíram você.
A imagem desapareceu.
Nesse instante, Magda sentiu-se sufocar. Uma dor lancinante envolveu seu peito, e ela desabou no chão.
O corpo inerte e só, confirmou que seus monstros interiores haviam vencido.



Rose Elizabeth Mello
Enviado por Rose Elizabeth Mello em 18/11/2005
Reeditado em 20/11/2005
Código do texto: T73204
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Sobre a autora
Rose Elizabeth Mello
Fortaleza - Ceará - Brasil
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Rose Elizabeth Mello