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Doces, Balas, Pastel & Sexo

     Saí de casa na quinta pra noite e no sábado a noite já estava de volta, e eu em casa: devo estar envelhecendo mesmo. Exausto.
     Entrei silenciosamente, quase paranóico. Fui direto para o quarto e senti aquele alívio que nasce da sensação de segurança, pensei: “ ... por que porra eu me sinto mais seguro quando chego aqui? Que subjetivismo imbecil, meio emocional e muito incerto, e por mim incompreendido! Quantos outros traços comportamentais como esse tenho e desconheço as raízes? Que vacilo...vacilão!” , e dei um tapinha no rosto seguido de um sorriso irônico motivado pela pena de bater em mim mesmo: “Vacilão!”
     Os arrepios estavam mais fortes e freqüentes, e não era por efeito psicoativo, era fraqueza mesmo. “Já já essa porra desse pastel vai começar a se quebrar, logo vai estar no meu sangue, engrossando geral!”, e assim me aliviei de novo.
     Suspiro seguido de dinâmica: ao fim dele fui logo fechando as persianas com cuidado, para que não entrasse luz ao amanhecer, aquela mizerável. Pensei nessa possibilidade e nesse momento minha testa pareceu a pele daqueles cães horríveis cheios de pele sobrando, sabem? Não, não dá pra chamar de franzida simplesmente. Uma bosta de testa maracujá, híbrida, contraída.
     Tudo estava cintilante e as cores intensas, o vermelho então... Já fazia mais de dois dias que estavam assim, enchi o saco, queria escuridão e sono:”rápido e sem açúcar, por gentileza...”.
     Deitei-me.
     Com o acelerador de partículas encostado no travesseiro ambicionava ingenuamente dormir, vieram então as lembranças do que deveria fazer ao acordar, e tudo era tão bobo... Exceto aquele que julgo divertido, o hábito de olhar-me atentamente todos os dias para amanhã lembrar-me o que fui ontem, para assim colecionar a mim mesmo e, por vezes, sentir saudades destes seres que em mim habitaram: “dos de fora sinto saudades do que poderia ter sido. Destes da companhia sinto falta do que sentia ao ter-lhes por perto. Dos lugares...ah dos lugares sinto grande saudade das sensações que me produziam estar lá... E qualquer coisa além disso é auto-hipocrisia e manto”.
     Sempre era assaltado por saudosismos ligados às múltiplas possibilidades do “que poderia ter sido”, e o acelerador agora trabalhava como ilha-de-edição, cortando e ajustando ações para um melhor passado: várias criações! várias adaptações! e uma certa convicção do ato de iludir-me com isso, com esta um acréscimo de saudades. Só não sabia bem de que exatamente.
     Me imaginei, num passado sob medida,  falando a coisa certa para Luana e passei alguns minutos viajando nas possibilidades nascidas dessa interferência atemporal. Só não consegui gozar, nem tinha saco pra isso também.
     Voltei. E ao chegar aquela dor no estômago, de novo. Talvez tenha voltado pelo chamado insistente dela e não que a tenha percebido por ter voltado: “...manias de posicionamento das ações e de interpretação do encadeamento, que perda de tempo... vai dormir porra!” .
     Dor do caralho. Posição fetal, já tinha a manha: posição fetal. Aliviou bastante. Mas não podia me mexer que vinham as pontadas, canivetes rasgando tudo e quase aparecendo/perfurando a barriga. Na plena verdade cheguei a ver a ponta metafísica dele. Lembrei que um todinho seria indicado nesse momento e senti primeiro uma dupla impossibilidade: não tinha todinho nem se tivesse conseguiria me levantar para ir pegar. Era melhor abstrair, lógico, mas com essa lembrança veio a saudade de bônus insistente: dos tempos em que tinha todinho na geladeira, dos tempos em que tinha a quem recorrer em casos de dor, saudades da minha casa de criança, não aquela física que está lá a acumular lodo nas paredes, mas daquela outra eternamente verdejante e segura: “...eterna enquanto houver mente capaz de lembrar-se dela pelo menos, porque no ritmo que vai...”.
     À principio culpei o pastel pela dor, era pastel estilo x-tudo, sabem? pesado demais e gostoso, o era quando comi pelo menos, agora nauseante, uma cicatriz. E por mais comum que seja lembrar do sabor em momentos assim, em que a porcaria comida fica subindo-lhe pela garganta insistindo em lembrar onde está e por responsabilidade de quem,  jamais conseguiria: aquele sabor amargo que começou por tomar-me o esôfago dias atrás parecia mais forte que nunca, parecia fazer parte orgânica comigo, parecia Eu sem as outras poesias. Nisso que dá ser sintético, ser-sintético.
     Então me dei conta dos prováveis, óbvios, cíclicos e reais motivos daquela dor: umas cinquenta horas sem dormir, cigarros sem parar, álcool, psicoativo, álcool, música, exercícios, falatório, música, exercícios, álcool, psicoativo, falatório, música, sexo, psicoativo, falatório, sexo, música, álcool, exercícios, tentativa de sexo, falatório e... pastel! sim! por fim ele, inocente porém complementar: "que dor da porraaa!"
     Suspiro e agora com dinâmica psíquica: “Só dos que amei de fato sinto saudades externas a mim... Ou sinto saudades de amar-lhes por fim? (rimou, bregão!) As saudades são egoístas, sóóóó...”.
     Tive vontade de ver Forest Gump e chorar, como já havia feito em situações semelhantes, mas há tempos que havia roubado esse filme para o fim e nem tinha idéia de onde ele tava: “... e mesmo que soubesse, não consigo nem me virar aqui! Situação deveras limitante! E não era de ‘expansão’ o propósito? E agora? Tá expandido? Mané! Vacilão!” e depois de alguns segundos e muita conversa o pensamento libertador por fim: “...calma aí: muitas coisas boas aconteceram, a noite foi longamente estimulante, heróica e construtiva, tem essa de vacilão nesse caso não, valeu, e muito!”
      Estampei um semisorriso e adormeci pensando que havia esquecido de algum detalhe importante, só não sabia se era da noite passada ou de toda sombra de vida que me permeou, sem grandes recíprocas: “...que dor do caralho...”.
     .......................................................................................
     Acordei com uma dor leve e uma sensação de febre que passou. Olhei o travesseiro e tinha um bilhete escrito com lápis de olho (como são criativas!), dizendo que eu nem havia olhado para ela durante a noite e que não sabia porque eu a tinha convidado para dormir comigo, ela poderia ter dormido mais confortavelmente em casa. Disse também que eu era louco, vê se pode: “ Que novidade heim!”, e com essa incrível constatação de uma tão sublime sensibilidade de minha colega, tive o primeiro sorriso largo e franco dessa última parte da empreitada. Por fim escreveu que queria dizer mais coisas mas que o travesseiro estava todo babado e que não conseguiu escrever por isso. “Vacilona! Não babo, devem ter sido lágrimas mesmo... E podem até ter sido suas!”
      Sabia que não eram dela, mas agora já não estava disposto a encarar-me a frio, tinha que ir trabalhar e o dia estava lindo! “Depois ligo e me refaço nesse contexto...”  Só queria saber de chegar na rodoviária logo: “Todinho, todinho, todinho!”.
Henrique DiRocha
Enviado por Henrique DiRocha em 14/11/2007
Reeditado em 14/11/2007
Código do texto: T736763

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Sobre o autor
Henrique DiRocha
Brasília - Distrito Federal - Brasil, 37 anos
11 textos (3184 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 20/08/17 01:31)
Henrique DiRocha