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O Menino Partiu para Colher


                                                                                           

Numa aldeia de certo País, numa era qualquer, um menino resolveu sair pelo Mundo. As pessoas se perguntavam por que ele foi-se embora e nunca mais deu notícias, nem apareceu. Então, um dia, séculos depois, apareceu no País do Menino, um manuscrito contando sua aventura. Esta estória é um fragmento daquele manuscrito que foi escrito à mão e caneta-de-pena e não por computador, como se faz agora.

“Fui-me embora quando vi que as pessoas não se gostavam e só queriam fazer das outras uma coisa que não existia naquelas outras. Então perguntei à muita gente o que elas mais gostavam e sempre respondiam que gostavam disso e daquilo e de mim, que era muito “bonitinho”. Eu não gostava disso, nem acreditava nas respostas que ouvia, pois tinha muita falsidade. O que e por que existe falsidade? Eu perguntava e ouvia mais mentiras e conversa fiada, escondendo a verdade que não desconfiava qual era. Será que todo mundo é assim? Fui pesquisar.
- Moço... o senhor tá indo pra onde?
- Pra esse mundão danado de bonito, longe daqui. Quer ir junto?
- Quero!

E fui. Subi em sua carroça  e sentei ao lado dele. Atrás de nós havia uma mochila e um cabo longo e liso, com uma foice pontuda numa ponta.
- O que é isso ai, atrás?
- Uma ceifadeira. Num conhece? Eu sou o Ceifador.
- Não senhor. Pra que serve?
- Ceifadeira serve pra fazer colheitas boas e más...
- ... e dores! – completei – O senhor só colhe dores, não colhe alegrias? Elas são melhores.
- Por isto não são colhidas. A felicidade é muito curta, não precisa ser colhida. As dores são ruins e causa muita tristeza, por isto só ceifo elas. Mas não há jeito não! As pessoas gostam de fazer o mau umas às outras e deixam que eu faça a colheita. Dizem até que sou mal por não entenderem o bem qu’eu faço quando ceifo as dores delas. Aí elas, que fizeram o mal, choram e se entristecem. Depois se esquecem e continuam fazendo o mesmo mal. Não aprendem nunca ou não querem se entender. E você, o que vai fazer pelo Mundo?
- Pesquisar pra poder entender o que posso fazer pelas pessoas serem elas mesmas, sem mentiras e falsidades.
- Escute só: isso é difícil... muito difícil mesmo! Eu estou há muito tempo neste mundo e vi que a melhor resposta era ceifar as dores à minha maneira: tirando as dores e as tristezas. O segredo de fazer bem feito é não querer aparecer e fazer bem feito o que tem que ser feito.

Era já tardinha e a noite vinha crescendo sua escuridão, quando chegamos a uma aldeia. Ele disse que ia arranjar um lugar pra gente pernoitar. Fiquei na carroça. Ele adentrou num bar de muita confusão, parecia que havia uma briga lá dentro. Levou a foice: ele ia ceifar...
- Daqui vou ter muito trabalho hoje, você vai ver. Foi pra isso que paramos aqui.
Quando ele foi chegando à porta do bar foi se dissolvendo e desapareceu antes de chegar nela. Dei de ombros, pois ele devia saber ao que ia fazer e como faria lá dentro. Esperei.

Quando ele voltou:
- Ceifou alguma dor ou tristeza?
- Duas. Deixei três outras pra gente ver mais tarde. Vou ensinar a você todos os segredos de um bom ceifador...
- Pra mim? Pru mode quê? - como dizia meu pai.
- Quando você me encontrou na estrada eu já’stava te esperando. Agora você é meu aprendiz. Vai aprender todas as maneiras de fazer uma boa colheita e seguir em frente, pois o mundo é grande e em toda parte tem gente que não sabe viver bem, deixando o mal ficar dentro dela.
- Por que elas fazem isso?
- Por não gostarem de si mesma e terem pensamentos e atitudes contra si própria, pensando atingir as outras pessoas, fazem o mal ficar com elas e vão causando dores, tristezas e maldades. Um dia eu tenho que ceifar tudo isso e ainda vai sobrar pra mim a culpa delas deixarem de viver. Só faço meu serviço. Bem feito, claro!
- Mas só tem o senhor ceifando?
- Não. As pessoas já criam exércitos, capangas e até escolas de ceifadores.
- Tem escolas pra ceifadores?
- E muitas: todas ensinam a se defenderem (chamam de auto-defesa), mas na verdade, ensinam a atacarem-se uma às outras. Criam grupos de ação individual rápida e de planos de extermínio coletivo, chamados de exércitos.
- E como começa, na pessoa, a idéia de se defenderem das outras?
- Por elas não confiarem nelas próprias, não se respeitando e não acreditando que devem se unir para alegria de todos. Algumas se aproveitam e inventam maneiras de enganarem as outras com a falsa idéia de união, agregadas em sindicatos, igrejinhas, partidos e governos.
- E o que são isso?
- Apenas a chama da discórdia humana. O ser humano não sabe ser gregário, não sabe se unir sem respeitar o próximo que pensa diferente; então, procura tirar vantagens da pureza dos outros que não pensam como eles; daqueles que percebem uma outra maneira de ver as coisas.
- E como se diz, desses que conhecem o outro lado das coisas?
- Criativos, artistas, inventores, gênios, “loucos” e “desmiolados”. Na verdade são os mais puros e humanos seres; que temos até tristeza em ceifá-los.

Parei de perguntar. Fiquei pensando naquilo tudo; matutei em eu próprio ser seu aprendiz e cheguei à conclusão: é meu destino ser um ceifador, como ele?
- Quero ainda saber por que o senhor quer tanto me ensinar!
- É longo o caminho do justiceiro, é longo o caminho do bom guerreiro, é longo o caminho do samurai. E é preciso aprender que um dia chega seu dia e alguém deve ser ensinado para substituí-lo. Eu já o estava esperando, como disse antes. Vamos ter outra grande guerra na Europa e tenho muito o quê fazer por lá; vou precisar de mais aprendizes...
- Por quanto tempo?
- Quem sabe? Temos a eternidade pela frente, que o ser humano é imperfeito e somos apenas um instante na vida deles. Vamos ceifar...dores e tristezas, geradas por eles, por toda  nossa existência.”

Não era preciso mais nada para saber que aquele menino estava em toda parte, inclusive na aldeia onde nasceu e, partindo um dia, deixara tanta interrogação.



                                                                              YvanioKunha
                                                                                 Calmas/AL
                                                                   10:57’ de 16.06.2005
YvanioDaKunha
Enviado por YvanioDaKunha em 30/11/2007
Código do texto: T759863

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Sobre o autor
YvanioDaKunha
Maceió - Alagoas - Brasil, 80 anos
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YvanioDaKunha