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A Barata

Esta noite tive um sonho muito esquisito. Estou arrepiado até agora. Vou contar como foi e talvez vocês entendam a razão de meu arrepiamento.

Após ter degustado uma lauta feijoada na casa de um amigo, um sono irresistível se abateu sobre mim.  Deitei e logo senti  que algo estranho acontecia.
 
Abri os olhos e me vi transformado numa barata. Um sonho Kafkaniano, diriam alguns. ― (Para muita gente, o inseto do qual fala Kafka no livro “A Metamorfose” seria uma barata.  Discordo. Não entendo porque os analisadores pensam dessa forma. Até música já se fez, falando da barata de Kafka.
Acontece que nada havia de barata na história lucubrada pelo grande escritor checo. Mas isso, é história para outra história, no momento quero falar de minha inusitada experiência.)

Recém-transformado senti enorme dificuldade em me locomover. As baratas possuem dispositivos de orientação diferentes dos nossos. Elas se guiam por mecanismos que eu, barata noviça,  não dominava. Porém, pouco a pouco fui me inteirando dos mistérios baratíferos. Esses insetos são cegos, não conseguem vislumbrar um palmo adiante do nariz,  observam tudo por meio das anteninhas, verdadeiras centrais de radar. Para uma barata experiente deve ser fácil pôr o radar em atividade, porém para mim...tava complicado!

Outra dificuldade: movimentar-me com aquele montão de pernas. Lembro-me de certa vez que bebi além do limite e me senti como se estivesse com quatro pernas. Agora, no entanto, o problema era mais complicado: como coordenar o movimento de seis patas?  Enquanto tentava vencer o desafio, assustei-me ante um grito estarrecedor que ribombou em meu centro auditivo:

 “Ai, uma barata!”

Por um instante fiquei atônito, sem entender o que se passava. Mas, percebi que a coisa era comigo. Procurei  explicar à moça assustada (era uma figura feminina, obviamente) que tudo não passava de um engano, ela estava presenciando o resultado de uma feijoada mal digerida.

Minha nobre intenção foi interrompida por uma voz masculina ameaçadora: “Deixe comigo querida, vou trucidar esse inseto repelente”.

Senti-me ofendido,  retruquei que inseto repelente era a vovozinha, entretanto nenhum som saiu de minha boca, porque as baratas não falam (que bichinho mais incompleto!).

pensei em defender-me. Armei minha postura predileta de caratê. Normalmente o gesto já é suficiente para assustar muito malandro metido a besta. Mas o pisão que explodiu ao meu lado mostrou que  a parada seria dura.
 
Igual a qualquer barata, comecei a correr qual uma barata tonta. Em meio ao  desespero, meus mecanismos passaram  a funcionar: as antenas, as perninhas, o medo...

Corri loucamente até ser encurralado num canto. Meus sensores anteníferos detectaram o olhar mortífero do carrasco.  Fechei os olhos, digo, as antenas, a esperar pelo derradeiro golpe.

Em lugar da pancada esmagativa, o barulho zangado do despertador trouxe-me de volta à realidade!

Meio zonzo,  levantei e fui beber água.

Enquanto  me dirigia à cozinha,  uma enorme baratona passou correndo diante de mim.

Odeio esses insetos asquerosos! Então, armei uma pisadela assassina,  a fim de esmagá-la por toda a eternidade.

Subitamente freei minha fúria e deixei a pobrezinha seguir em paz...

Quem sabe se eu a matasse não estaria pisando no sonho de outra pessoa?

Preferi não arriscar!
montalvão
Enviado por montalvão em 02/12/2005
Código do texto: T79823
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Sobre o autor
montalvão
Silva Jardim - Rio de Janeiro - Brasil
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