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Vida de Sol

       A vida de Lucélia era regida pelas variações do tempo. Começou quando nasceu. Segundo sua mãe, de repente a cidade começou a ficar escura pelas grossas nuvens de chuva. Quem estava na rua, procurou um lugar para se esconder. Mal caíram os primeiros pingos d’água, a mãe de Lucélia começou a sentir fortes contrações, que culminaram numa ida abaixo de temporal e granizo para a maternidade. Enquanto o mundo caía lá fora, Lucélia nasceu depois de um parto difícil. Tão difícil que sua mãe decidiu nunca mais parir ninguém. E assim foi dali para frente. Seu primeiro dia de escola foi de um sol maravilhoso, com um céu azul fantástico. O dia do primeiro beijo também. Em compensação, o dia em que a tia Maricota morreu, o céu estava tão nublado e cinzento, que oprimiu mais ainda o coração da Lucélia.
       Quando a data do casamento dela estava chegando, Lucélia procurou a mãe, apavorada. Dependendo como se apresentaria o dia, ela já poderia saber o que seu casamento lhe reservaria. Conhecendo o genro, a mãe de Lucélia já previa que um temporal maior que aquele, há 25 anos atrás, quando a filha nascera, se abateria sobre a cidade. Ela só esperava que não causasse tanta destruição.
E o dia chegou. Lucélia se levantou, ansiosa. Nem dormira direito. Abriu a veneziana do seu quarto e se deparou com um dia bem bonito, até ensolarado. Foi correndo acordar a mãe, gritando:
- Mãe!!! Acho que vou ser muito feliz! Tem sol!
O pai resmungou e tornou a dormir. Desconfiada, D. Margarida levantou e foi conferir. Realmente, o dia prometia. Até os passarinhos cantavam, despreocupadamente. O que D. Margarida não quis falar foi que viu algumas nuvenzinhas – que poderiam ser inocentes, por que não? – se avizinhando no horizonte. Lucélia, aquela altura, com o coração leve, saltitava pela casa, as tias em volta, encantadas com a felicidade da sobrinha. O casamento seria às cinco horas da tarde.
Porém, no decorrer do dia, o tempo foi virando. O sol que iluminava o quarto, enquanto a vizinha lhe maquiava, deu lugar às nuvens escuras, preocupando D. Margarida. Lucélia quis chorar, mas foi advertida que borraria a maquiagem. E se o barro sujasse seu imaculado vestido branco? Será que o padre mandara consertar a goteira da igreja? Logo ela que se esmerara na quermesse para arrecadar dinheiro para arrumar o telhado e não fazer fiasco justo no grande dia da sua vida. A chuva chegou. Lucélia choramingou. D. Margarida olhava para sua filha, toda de branco, e imaginava que a vida da coitada seria um inferno ao lado daquele cretino. Pobrezinha.
Inútil dizer que a chegada de Lucélia foi abaixo de um temporal sem precedentes. Por muita sorte, era tal a quantidade de guarda-chuvas, que Lucélia e seu vestido que ela puxou para cima, chegaram intactos na nave da igreja. E o interessante foi que assim que ela pôs os pés lá dentro, a chuva cessou.
Lucélia respirou aliviada. Sinal de que as coisas não estavam tão ruins. O noivo a esperava no altar. Lucélia começou sua lenta caminhada até lá, com o pai ao lado, que não disfarçava seu descontentamento. Quando raios de sol começaram a entrar pelos vitrais da igreja, Lucélia nem acreditou. Sinais de felicidade emitidos do céu eram enviados para ela. Uma pomba branca voou de lado a lado da igreja. Foi neste momento que ela descobriu a razão do sol ter entrado em sua vida. Um rapaz moreno, alto e de olhos negros, chamou-lhe a atenção. Ele estava ao lado de uma parenta que morava longe, talvez fosse seu primo distante. O sol, por coincidência, iluminava o lugar em que ele estava. O coração de Lucélia bateu mais forte. Ela esqueceu o noivo. Fôra hipnotizada por aqueles belos olhos negros e brilhantes. O pai percebeu e deu-lhe um puxão no braço, lembrando Lucélia do seu futuro marido que a esperava no altar. Chuva e sol. Apesar de tudo, ela caminhou firme, em direção a ele. Seu coração ficou para trás. Mas Lucélia não se entristeceu. Seu destino fôra traçado pela variação do clima. Casaria-se naquela tarde em uma cerimônia tão pomposa como a cidade jamais vira. Pena que não duraria muito tempo. No momento em trocou alianças com seu esposo, raios e trovões cruzaram a cidade. Lucélia nem se importou. Dias ensolarados a esperavam mais adiante.
Patrícia da Fonseca
Enviado por Patrícia da Fonseca em 24/12/2005
Reeditado em 07/01/2006
Código do texto: T90087
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Sobre a autora
Patrícia da Fonseca
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil, 46 anos
572 textos (37857 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 04/12/16 16:40)
Patrícia da Fonseca