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O JOGO DA CONSCIÊNCIA

               O JOGO DA CONSCIÊNCIA

     

     O único caminho seria o lugar onde estivesse o comerciante A. Procurar o seu segredo, seu esconderijo. Sim! o comerciante B. poderia vencê-lo. Havia, ainda, uma esperança perante o absurdo em que se encontrava? Os faróis vigiavam todos os cantos. Mas o comerciante B. foi se guiando. Haveria de encontrar o seu parceiro traidor. Foi se arrastando, devagar, até alcançar uma porta na qual havia muitos guardas. Fingiu-se de empregado. Os guardas estavam bêbados. Entrou na sala. Lá estava o comerciante A., dormindo.
     O comerciante B. gritou:
     _ Assassino! Eu o matarei...
     _ Quem grita... quem me acorda?!
     _ Você me traiu, miserável!
     _ Você, novamente! Conforme-se. Você foi, também, só um comerciante. Só que eu cresci. O meu monopólio é imenso, conforme-se.
     _ Você me roubou! Roubou meu próprio destino!
     No calor da discussão, o comerciante B. empurrou o outro sobre o espelho. O espelho partiu-se, vindo a se estilhaçar. Sob o poder dos estilhaços do espelho, o comerciante B. começou a lançar reflexos sobre o comerciante A. Os gritos tornaram-se bastante estridentes.
     _ Você está me cegando!
     _ Sinta a dor de sua consciência.
     _ Pare com estes espelhos. Estou sem saída... Guardas!

     O comerciante B. apoderou-se de outros cacos do espelho e, assim, torturava o comerciante A.
     Nisto, os guardas invadiram o local. A luta foi breve. Logo, o comerciante B. já era prisioneiro. Seu corpo foi espancado e torturado.
     Então, o comerciante A. ordenou a sua prisão imediata.
     Levaram o comerciante B. para um sótão.
     No sótão, os guardas amarraram-no em uma corrente.
     Agora, o sol havia desaparecido. Ninguém mais estava ao alcance da vista do comerciante B. A porta da masmorra foi fechada. Somente uma luz acendeu-se... e surgiu, à frente do comerciante B., o comerciante A.
     _ Olá! Você quis me destruir, então?
     _ Você me traiu. Trouxe-me para cá. A porta não mais se abriu.
     _ Você não compreende... Você não existe além daquela porta. Você nasceu agora. Você se formou comerciante. Você se vendeu desde o início de sua vida.
     _ Quem é você para me dizer isto? Não o conheço. Nem o seu rosto, nem o seu nome.
     _ Não importa o meu nome. Eu sou o que existe em todo lugar, o que disfarça. Eu sou a inconsciência, poderia, assim, dizer.
     _ E minha liberdade?
     _ Eu comercializo a normalidade. Você crê como as pessoas são normais, porém estão presas. Você é um louco, um insensato.
     _ Não... Eu vejo a falsidade do seu mundo. O seu poder é tão invisível, tão penetrante...
     Então o comerciante A. abriu uma janela dentro da masmorra.
     _ Veja quantos prisioneiros. A minha força se alimenta disto também. Não são muitos, é claro. O número de inconscientes é maior, é claro. Mas homens conscientes são como uma centelha. Da minha parte, eu não sei o que é consciência. Cresci acumulando o poder.
     _ Consciência... devemos ter a noção de aprendizado, a noção de liberdade. Isto é consciência. O ar que me faz ver e me indignar.
      O comerciante A. fechou a janela.
     _ Você tentou me espelhar. Mas eu não posso me espelhar. Porque um dia eu traí a minha consciência qual você, que é um B. na hierarquia. Mas você foi condenado. Você não é mais comerciante. Será libertado no mundo do desamparo.
     _ E seu eu tentar explodir o seu poder!
     _ Aí... esta frase o condena à morte. Você não é mais comerciante, você mudou de classe social. Nem solto poderá estar. Mas terá você coragem de agir sem liberdade?
     O comerciante B. passou a suar frio. Tremia de fome. Passou a mendigar umas migalhas de pão para o comerciante A.
     _ Ora, veja... você está mendigando para mim, traidor! Você
 é um traidor.
     _ Você me roubou, dê-me de comer.
     Matarei você aos poucos. A nossa família exige que você se renda. Você se anulou, não trabalhou conforme os nossos desígnios. Você é um poderoso que recusou o poder que nós lhe conferimos. Nós, os comerciantes de homens. Os comerciantes do interior dos homens.
     _ Me solte!
     _  Não solto você no meu mundo. É só o meu mundo que existe.
     _ Revolucionaremos o seu mundo.
     _ Lamento, você já pertence ao outro lado. Você já é um prisioneiro. Eu era a sua própria conciliação com o meu estado de coisas.
     _ Você não tem coragem de chegar no meu ponto, comerciante A.?
     _ Não! pois vou matá-lo.
     O comerciante A. sacou o revólver e disparou quatro tiros. Ouviu-se, ainda, um fraco gemido agonizante do comerciante B.
     De repente, o comerciante A. sentiu toda a crueza possível que poderia sentir. Respirou fundo, e saiu para fora...
     O comerciante ficou estendido no chão, todo ensangüentado. O sol parecia não surgir. Rostos pareciam se exilar de todo aquele mundo.
A chuva caía fina e fria. Ninguém chorava por aquela noite, mas uma tristeza infinita e duradoura compensava qualquer lágrima. A alegria parecia estar naquele corpo e a tristeza a se arrastar seca pelo mundo. Os prisioneiros tentaram abrir a janela para olhar o companheiro morto. Um comerciante de almas que não mais quis ser comerciante de almas. Que não mais quis ser cru, mas ser suave e sentir novamente a amplidão da vida que desprende.
     Que drama tão insolúvel! repleto de expectativas, aqueles prisioneiros sentiam naquele momento. Eles poderiam avaliar aquilo, porque não eram indiferentes. E até os indiferentes sentem, porque são as partes mais importantes... Mas os prisioneiros lutavam. E sabiam o porquê daquela morte. Eles sentiam a ameaça sobre suas cabeças. Viviam e compartilhavam todo o drama da criação e do jogo da consciência. Alerta estavam no tempo aquelas vozes subterrâneas.
     Qual seria o instante em que o jogo se definiria por intermédio da angústia da liberdade?

                        FIM

 
FERNANDO MEDEIROS
 verão de 2005

     
         
FERNANDO MEDEIROS
Enviado por FERNANDO MEDEIROS em 27/12/2005
Código do texto: T91028

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Sobre o autor
FERNANDO MEDEIROS
Campinas - São Paulo - Brasil, 53 anos
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