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O Vampiro e o Poeta

— Estou aqui. O que você quer?

— Ah, Príncipe da Escuridão! Arauto das Trevas! Tu vieste finalmente! Meu coração já não suportava tamanha angústia...

— Tá, tá, pára com isso. Você sabe que eu não gosto de puxa-saco.

— Tua humildade é tão pura quanto tua pele é alva, quase transparente à luz da lua indiferente...

— Cara, já te disseram que você é um saco? Não sei por que ainda te dou atenção. Sou ocupado, sabia? Não preciso fazer isso.

— Não tomarei mais teu valioso tempo, ó sombrio e relutante amigo. Quem sou eu frente a tua malevolência? Um mero mortal, um ser insignificante, ávido apenas pela tua companhia, e pela esperança de um dia poder caminhar à tua sombra...

— Eu vou embora...

— Fica, criatura fugaz e impaciente. Fica, e torna minha existência um pouco menos insuportável. É noite alta, se tinhas que te alimentar, já devias tê-lo feito, posto que à esta hora a caça já deve ter rareado nas ruas cruéis de nossa cidade.

— Pelo contrário. É nesta hora que a caça fica mais fácil. Claro que sempre é aquele resto de feira. Só bebum e chapado fica na rua a uma hora destas. Mas você tem razão, já me alimentei. E é por isso que ainda não pulei a janela por onde entrei, tal qual uma sombra... Pomba, esse negócio pega! Vai, meu, desembucha, o que você quer?

— O de sempre, meu hematófago companheiro. Quero tuas histórias.

— Cara, para que você quer isso? É sempre pá-pum, atacar, morder, beber, esconder o corpo, e sumir. Sem emoção, sem segredo, só um jantar na rua.

— Tu menosprezas a condição que almejo, tornando a caçada uma mera frivolidade, quando nela estão imbuídos sentimentos e simbolismos que vão além da compreensão mortal...

— É que nem um sanduíche mal passado, só isso! Não tem nenhum significado implícito. Eu tenho fome, e como. A única diferença é o tipo do alimento, nada mais. Cacete, por que você tem que dramatizar tudo?

— Eu enxergo através de tua carapaça de indiferença, mas isso pouco importa. Hoje tu irás ter o prazer de ler meus poemas, que escrevi após ouvir tuas incontáveis e emocionantes histórias.

— Ah, não, eu não tenho a mesma paciência que esses pirados pra quem você escreve. Ainda está publicando seus poemas naquela lista?

— Por suposto! Veja essa crítica que recebi ainda agora: "Achei lindo! Me arrepiou, me fez desabar em lágrimas"...

— Louco atrai louco. Você realmente vive disso? Deixa eu ver. Humm, tá a mesma porcaria de sempre. Eu já te disse, esse negócio não é tua praia. Volta pro teu trabalho, cara. Vender seguros é a tua vocação. Deixa a poesia para os poetas.

— Como posso, se tu insistes em me visitar todas as noites? Tua bocarra sangrenta tece críticas ácidas direto a meu peito exposto, e diz que o chamei, mas a verdade é que tu surges em minha janela sem ser convidado. Não consigo evitar, tua presença me inspira mais do que posso suportar, e meus dedos imediatamente urgem para o teclado, onde preciso despejar todos os versos que zumbem em minha mente tais quais um enxame de abelhas ensandecidas ao avistarem o melado...

— Só tem um jeito de eu parar de aparecer aqui, cara, e não depende de mim.

— Pois me diga, ó criatura sapiente, cuja sabedoria só poderia existir forjada por uma vida eterna e centenária.

— Olha o pleonasmo. É fácil. Só desaparecerei completamente quando você, seu imbecil, deixar de me imaginar, pois essa tua mente limítrofe só consegue criar essa porcaria de inspiração que eu sou. E, enquanto você não desencanar de mim, seus poemas continuarão a ser estas porcarias impublicáveis por qualquer editor com um pouco mais de dois neurônio utilizáveis.

— Eu tento, mas não consigo. Já procurei imaginar lobisomens, fantasmas, súcubos, medusas e grifos, mas só você me inspira verdadeiramente, só você cataliza meus pensamentos e os transforma em palavras, as palavras em versos, os versos em estrofes, e daí saem sonetos, tercetos, e etecéteras e tais. E logo de você, que não consigo deixar de imaginar com essa cara de amante latino e com esse linguajar mais chulo que de um cafetão de sarjeta.

— Pois é. Acho que essa nem Freud explica. Vou sair fritando, que esse papo metafísico já deu pra bola. Fui.

— Volte aqui, Criança das Trevas, Nêmesis da Noite, Predador Insaciável!

— Sai do meu pé, chulé! E cuida dessas metáforas, que estão um terror, com perdão do trocadilho.

— Voltas amanhã?

— Se você me chamar.

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Alexandre Heredia é co-editor do NecroZine (http://www.necrozine.blogspot.com/), e mantém os sites Psicopata Enrustido (http://www.psicopataenrustido.blogspot.com/) e Antelóquios (http://www.anteloquios.blogspot.com).
Alexandre Heredia
Enviado por Alexandre Heredia em 05/04/2005
Código do texto: T9874
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Sobre o autor
Alexandre Heredia
São Paulo - São Paulo - Brasil, 42 anos
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Alexandre Heredia