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O Quinto Homem - parte 07

Em sua mente o medo de que algo de sinistro tivesse acontecido o impeliu a gritar.
           ----  Carla ?!!  Carlaaa!! -- Corre para onde um pequeno grupo forma um outro círculo.
           Seus pés parecem demorar uma eternidade para dar um passo.
           ---- Saiam da frente!! Saí!! --  vai empurrando os que estão ao alcance dos seus braços.
          Ela está imóvel, estirada no chão. Sangue saindo por uma fresta em sua cabeça. Ainda assim sua beleza  não se desfaz.
           ----  Carla ! - fica de joelhos, toma a cabeça dela em seus braços, levanta o cabelo do rosto ensangüentado, onde uma brecha no alto da cabeça expele uma gosma avermelhada e esbranquiçada.
           ----  Carla !  Carlaaaa!  não morra!! Lute! Lute!
           Ela tenta abrir os lábios.
           Seus olhos, semi-abertos, estão calmos agora.
           Ele aconchega-a ao peito. Afaga seu rosto.
           ---- Anhh ...     ahahah... - tenta falar algo.
          ---- O que é? Fale?  --  coloca seu ouvido mais próximo aos lábios dela.
         ..................

     Hospital Municipal de Itá .
22:00 Hs
                   .................

        Chapecó!!!  ---   Foi isso que ele ouviu? Será ?
        Chapecó!!
        Essa palavra ecoa em sua cabeça.
Ressoa a todo momento.
Chapecó! Chapecó!
Sentado, em uma sala fria e mal iluminada, por sobre um banco de mármore, aguarda noticias da jovem.
        Um senhor de idade, perto de uns 60 anos se aproxima, veste uma camisa de flanela e ao seu lado uma enfermeira o conduz pelo braço.
        Marcelo levanta-se.
 ---- Por favor, enfermeira!! -- segura no braço dela. -- Eu estou aqui a pelo menos quarenta minutos, e ninguém me diz nada. O que está havendo? O que ela tem? -- apertou mais o braço da moça. -- Me diga alguma coisa?  não me deixe assim, desse modo, sem saber o que fazer.
 ---- Tire suas mãos de mim!! - respondeu severa ao mesmo tempo que puxava seu braço para escapar do torniquete dos dedos de Marcelo.
A vontade dele era de esmurra-la pela sua frieza e indiferença.
---- Escute moço, eu  não sou médica, só trabalho aqui como auxiliar e auxiliar só ajuda, nunca sabe de nada. Entendeu!!? Procure um médico.
Entra em um quarto com o paciente de camisa de flanela.
           Teve que se controlar, queria esganá-la. Tanta falta de educação.
Marcelo volta a sentar-se.
           Abaixa a cabeça. Apoia os braços nos joelhos, e começa a rodar o chapéu nas mãos.
       
 ---- Sr. Marcelo?! -- uma voz firme o chama, lhe tirando dos pensamentos.
---- Dr..!?? -- levanta-se, sua mão segura o chapéu com força.
---- Infelizmente  não trago boas notícias! A situação da moça é mais crítica do que pensávamos! --  a expressão no rosto do médico confirma suas palavras.
----- O que ela tem? Ela vai escapar? Quais as chances dela? -- estava nervoso e ansioso.
             Suas mãos, nervosas, agitavam o chapéu de um lado para outro.
----- Ela está em estado de coma, catatônica! Pode durar horas, dias ou até quem sabe meses. Depende muito dela. É uma luta muito grande, onde ela vai dançar entre a vida e a morte a cada instante. Digamos que o desejo de viver dever  prevalecer para que ela volte a nós.
        O médico começou a falar em termos técnicos, Marcelo pouco ouvia.
        Em coma!!
        Quiseram lhe acertar e acabaram acertando alguém que  não tinha nada a ver com o caso. Os canalhas que haviam feito isso iriam se arrepender.
        Teria que falar com o delegado. Mas  não agora e nem ali.
        Resolveu sair do Hospital escondido.


                  .................

29 de maio.
Delegacia de policia de Itá
10:20

                ....................

         ----- Chapecó!! Tem certeza? -- perguntou  o delegado -- só isso?
         ----- Chapecó! Nada mais?! Nem uma meia palavra? --  levantou-se e saiu de por trás da mesa. Rodeou- a. Foi até a porta. Trancou-a.
        Marcelo estava atento aos movimentos do delegado. Apesar de mal ter dormido, e o sono, ele já sabia, era o pior inimigo numa hora dessas.
         ---- Só isso! Chapecó!! - disse virando a cadeira para ficar de frente para o delegado. --  não sei o que pode significar, achei que você pudesse me ajudar.
---- Chapecó pode significar muitas coisas, e  também pode significar nada. Você pode ter entendido mal o que ela queria te dizer.  não sei se esta informação vale alguma coisa. -- começou a movimentar-se na sala de um lado para o outro.
        ---- Como  não vale nada?!!! Mas que merda, será  que  não enxerga, é a única pista que nós temos. Quer dizer, nem sei se podemos considerar como pista. Mas.. Pare! Pare com isso, homem! Esse seu jeito de ficar zanzando está me dando nos nervos.
Falou referindo-se a movimentação daquele.
---- É assim que eu consigo pensar melhor. Por isso fechei a porta. Chapecó;... frigorífico! Cidade?!.. Espere ... um operador!! É isso!! Só pode ser!!
        ---- Como?! -- Marcelo  não entendeu nada.
---- O que mais ela disse homem? Lembra-se de mais alguma coisa??!! -- voltou a se sentar - Você terá  de descobrir e lembrar se ela disse mais alguma coisa. Se não, essas são as suas opções: ir até a cidade de Chapecó, o que fazer?  não sei; ou ir até o frigorífico Chapecó na mesma cidade,  também  não tenho idéia do que fazer; e por ultima e talvez a mais certa falar com um operador de retro-escavadeira chamado Chapecó, que trabalha aqui na barragem.
---- Bom, nesse caso eu  também acho que a última opção é a mais indicada. - disse,  colocando o chapéu e levantando-se.
---- E a que está mais perto também.- completou o delegado.-- Um soldado lhe levará  até ele, visto que o seu carro, já era. -- lhe dá um tapa no ombro.
       
Marcelo desceu da pequena escada que dava acesso a porta da delegacia.
            Dois degraus, feitos com quatro t buas; duas horizontais e duas verticais.
A lama estava no terreno todo. Poças aqui e ali.
           No pátio havia ainda uns três carros. Um jipe velho: Um corcel, e um outro gol, branco, parecido com o seu,  não fosse pela placa.
           Deu um volta, rodeou este último, examinando-o.
           Agachou-se perto do pneu traseiro.
           O carro esta todo demolido, afinal havia caído de um precipício, mas ainda assim notou um pequeno furo no lado interno do pneu esquerdo traseiro.
           ---- Dr...?! --  gritou, chamando pelo delegado.
            Este conversava com um policial na porta da delegacia.
        ---- Sim!!  --  respondeu, indo em sua direção.

Marcelo já se levantara.

       ---- Este carro, Dr.! -- disse olhando para o delegado e apontando, sério para o veiculo. -- É igual ao meu,  não fosse pela placa, certo?  - falou esperando a confirmação de cabeça do delegado.
----- Sim, ‚ igual.  Não sei o ano, mas e daí?  - indagou curioso.

----- Daí, que eu acho que aqui tem coisa. Veja; num dia de chuva, a lama de uma grande viagem poderá  encobrir a placa ou a visão pode ser prejudicada pela chuva, certo?! --  continuou sem ouvir ou ver a expressão no rosto do delegado Juscelino --  Dr. eu vi este carro passar por mim, logo na entrada da cidade, no dia em que cheguei aqui. Pensei ter ouvido um trovão logo depois. O que disse ser a causa do acidente?  -  virou-se para o delegado.
----- Derrapou e furou um pneu! isso se deduz ao ver o estado do pneu traseiro direito. Depois bateu no barranco e então caiu no desfiladeiro. Foi um acidente horrível. - explicou o delegado sem saber aonde queria chegar o jovem a sua frente.
----- Sinto muito senhor, mas  não foi acidente!! - notou o ar de desconfiado que o delegado lhe estendeu. -- Calma eu explico. Primeiro veja a placa os dois primeiros digitos são iguais aos do meu carro, 02 e os outros números estavam encobertos pelos lama. Em dia de chuva fina ‚ costume ter trovoada, ou relâmpago? Porque eu escutei algo assim no dia em que cheguei. Na hora nem dei muita atenção, mas agora, ligando os fatos... Dr. acho melhor o Sr. mandar averiguar o local mais detalhadamente, acho que poder  encontrar indícios de pólvora ou chumbo no pneu, no esquerdo, se me permite dizer. E veja nas redondezas, nos barrancos e matagais por perto, para ver se  não encontra cápsulas deflagradas.-- Marcelo começava a ver mais claro agora.
---- De onde tirou essas idéias? Até onde pensa que isso tem algo a ver com você? O que é que você esconde?  não, porque esta cidade sempre foi tranquila e calma, de repente aparece você, e em dois dias tenho uma morte , que agora virou misteriosa, um atentado, uma moça em coma!! O que você realmente procura relacionar com a sua visita e o caso que está metido? Porra, Até agora você  não me disse nada, e eu posso arrumar alguma coisa para que você descanse um pouco suas pernas em uma cela, portanto eu gostaria que você me dissesse logo de uma vez, que merda de caso é esse!! - explodiu  --  Meu Deus!! --  o delegado parecia começar a se incomodar com os rumos que as coisas tomavam.
---- Calma Jusce!! - falou Marcelo ao ver o efeito das suas observações.
---- Calma uma ova! - Que merda!! Que calma eu posso ter com as coisas acontecendo tão rapidamente e eu sem saber o que fazer, ou o porquê disso tudo. -- agora já se acalmando  --  Rapaz, as confusões parecem te seguir por onde quer que você ande. Até agora a sorte te ajudou mas um dia ela nos abandona, então... tome cuidado. --  parecia um conselho  -- Acho que você está mexendo numa caixa de marimbondos ,e esses são dos grandes. Com muito veneno.
--- Tudo bem, obrigado pelas palavras animadoras. O que posso lhe dizer é que  também  não sei no que estou mexendo. Estou no escuro, caçando alguma coisa que nem sei o que é. Agora, por favor, isso é sério Dr., peça uma nova perícia neste carro, sim? ---         Olhou para o rosto cansado do delegado -- Isto é muito sério Dr., uma pequena falha pode por tudo a perder, e nós precisamos de qualquer pista, qualquer coisa que possa nos ajudar nessa encrenca toda.
----- Sim, eu sei, que é sério, talvez mais do que possamos imaginar, porém a vistoria do local e do carro poderá  demorar uma semana até conseguir que o pessoal venha para cá. Deixa que eu me viro com isso, você tem mais com que se preocupar. Parece que conseguiu uns amigos que jogam pesado! Alguém que te quer longe da cidade.
----- Mas não vou embora ainda.  Não enquanto  não achar um pedaço do fio da meada. Ainda  não, apesar disso incomodar muita gente.

Ivair Antonio Gomes
Enviado por Ivair Antonio Gomes em 21/01/2006
Reeditado em 21/01/2006
Código do texto: T101752

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Sobre o autor
Ivair Antonio Gomes
Palhoça - Santa Catarina - Brasil, 47 anos
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