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O Chefe era um Desgraçado parte 02 de 02

         Dois dias se passaram sem eu ver a figura do homem mais impopular da empresa.
No terceiro dia, pela manhã ele me chama até o escritório. Pensei que era o dia da minha dispensa da firma.
Que nada, O Desgraçado, queria era minha ajuda. Cara de pau, sem vergonha! Mas enfim, relacionamento profissional.... Essa merda toda.
A firma iria começar um novo sistema de serviço e eu era um dos únicos que conhecia o sistema. Outros conheciam também, mas não estavam disponíveis. No caso, sobrou para mim.
Mas tudo bem. Pelo menos eu iria ficar uns tempos longe do rosto daquele ser inenarrável. Um misto de alegria e satisfação me encheu o peito. O Desgraçado estava precisando de mim.
Durante uns três a quatro meses instalei o sistema e instrui o pessoal como lidar com ele. Foram tempos de calmaria. A zanga, o stress que me acometia anteriormente parecia ser coisa do passado.
Mas tudo que é bom, uma hora acaba. E então...
Como o serviço extrapolava o horário, ou seja avançávamos para as horas extras, não nos era permitido assinar no ponto além da hora da saída. Ou seja não podíamos marcar as horas extras que fazíamos. Isso criou uma grande confusão com o pessoal, e claro eu tomei o partido deles. A empresa, disse que iria nos pagar em folga. No entanto, o pessoal começou a chiar por que raramente podiam tirar folga nos dias que eram de seu agrado. Quer dizer, a firma não pagava hora extra, e ao mesmo tempo não queria que os funcionários tirassem as folgas nos dias que previamente haviam estipulado. Além disso havia o problema da refeição. Como o serviço ás vezes avançava o horário para o descanso, trabalhávamos sem descanso para então fazermos o lanche, no entanto o lanche só era servido após todo o serviço ser executado. ás vezes mais de sete horas sem intervalos e sem refeição alguma. Sequer um lanche. Água, só água, pois também era proibido levar lanche, ou bolacha, qualquer coisa comestível para a sala de serviço.
Chamei O Desgraçado e então pedi a ele para falar com o pessoal explicando o “problema”, que ele alegava para as folgas e para o lanche dos funcionários.
---- Olha, se você não consegue tomar conta do pessoal, é incapacidade sua. Então é melhor eu chamar outra pessoa! Se quer ganhar bem tem que tomar atitudes que condiz com seu salário
Miserável, filha da puta. Que se danasse o meu salário. Mas ele sabia que eu precisava do emprego por causa da saúde da minha mãe.
---- Não é isso! Eu já falei com o pessoal! Eles estão prontos para pararem!
---- Já falou que se isso acontecer estão todos na rua? Inclusive você?!- falou bufando.
---- Já! Não adiantou! Mas... porra... por que o lanche,eles não podem fazer antes de acabar o serviço? Nem que fiquem um pouco mais tarde. Ah, por falar nisso, o Sandro está reclamando, e eu conferi, está faltando vinte horas noturnas para ele, no contracheque do mês passado.
O bufão senta-se, como se ficar em pé, fosse um sacrifício. Senta-se na ante sala, da onde se pode ver o pessoal trabalhando.
---- Eles estão reclamando á toa. Esse Sandro... Ele não é aquele que pediu o vale transporte para um bairro e dois meses depois mudou de casa?
---- é ele sim!
---- Vamos arrumar as coisa dele! Está arrumando problema demais.
---- Mas ... perái... o cara mudou por que precisava sair da outra casa. O aluguel estava alto demais...
Ele olhou para mim e eu desviei o olhar. O Desgraçado parecia me diminuir toda vez que estava em minha frente.
---- Já te disse! Os problemas deles são deles.. a gente não pode resolver a vida de todo mundo.
Calei, contrariado. Era como bater contra um muro de cimento.
O ser na minha frente, travestido de ser humano, não possuía um mínimo de sentimento.
---- E quanto ao problema?
---- Se vira! É para isso que é pago! Não vou falar com ninguém não! Na verdade, vou falar só para você. Já estou tomando as providências, aos poucos vou trocar todo mundo. Estão reclamando de barriga cheia. Qualquer coisinha querem fazer baderna.
--- Mas... trocar? Agora que eles estão pegando a coisa. Levei quase noventa dias para ensiná-los.
Ele levantou-se.
A soberba e orgulho em carne e osso.
Me apontou aquele dedo grosso e de unhas bem aparadas.
---- Eu vou indo, e não me chame mais para resolver essas encrenquinhas. Porra, afinal eu tenho que fazer tudo?!

Duas semanas depois o pessoal entrou de greve.
Era segunda feira á tarde, quando ele chegou e veio até mim.
Eu o esperava. Ele trouxe uma outra pessoa. Um homem gordo, baixote, com bigode de Belchior.
O homem de bigode de Belchior ficou ali, sem fazer nada, só ouvindo as explicações que eu dava para O Desgraçado.
Depois de muitas promessas, que nunca seriam cumpridas, os funcionários voltaram ao trabalho.
O Desgraçado foi embora e o homem de bigode de Belchior ficou conosco.
Aos poucos eu ensinei a ele os serviços. A hora certa de cada tarefa. E as rotinas pertinentes a cada sistema.
Um mês depois fui mandado embora. Antes ainda ele chegou a tentar ajeitar as coisas. Disse que iria me transferir para outra cidade, que meu salário seria maior, coisa e tal. Mas eu recusei. Estava cansado de toda aquela coisa, que aos poucos parecia estar se impregnando em mim. Em minha alma. Me torturando. Me mudando aos poucos. Mas saí fora.
Na hora eu disse aos funcionários, que para mim eram amigos, que já sabia que iria ocorrer. Que estava preparado. Pura merda! A gente nunca está preparado para ser mandado embora de uma empresa. Trabalhei lá dentro, vendo muitas vezes o sol nascer e o sol se por. Uma vez chequei mesmo a ficar lá dentro quase 48 horas seguidas. Não, a gente nunca entende. Nos dedicamos, nos esfolamos e um Desgraçado qualquer fica com todas as honras e te bota um pé na bunda, te jogando para a rua. Isso não é certo. Não é justo!

Assim que saí, peguei minhas coisas e fui acampar. Fiquei acampado durante uns vinte dias. Sozinho. Ruminando minhas pragas, minhas idéias homicidas.
Foi lá que encontrei a melhor idéia. Elas surgiam aos borbotões. Podia fazê-lo de tal forma, assim ou assado. Conhecia os costumes do Desgraçado. Seus horários, sua casa, seus filhos. Eu sabia muito sobre ele. Quase tudo, quase.
Quando voltei do acampamento fui viajar até o Mato Grosso.
Fiquei na casa de uns parentes, que moravam próximo a uma aldeia indígena.
Aprendi alguns truques com eles.
Depois de uns seis meses voltei.
Já tinha tudo preparado. Do dinheiro da rescisão, sobrara somente o necessário. Deixara antes de viajar um bom tanto para os meus familiares pagarem o aluguel.
Fui uma tarde até a antiga empresa.
A desculpa era ver se encontrava fulano.
A menina da recepção, que me conhecia, ficou feliz com a minha presença. No entanto me disse que o fulano que eu procurava já tinha saído da empresa. Como se eu não soubesse.
Na saída observei novamente as fiações elétricas e o posicionamento das janelas, além de todo a construção em volta do prédio.
Em casa fiz um mapa detalhado, com os pormenores que minha memória conseguia reproduzir.

A noticia do jornal saiu assim:
“Morto empreendedor que tencionava formar uma grande cooperativa de mão-de-obra tercerizada. Policia técnica comprovou em análise que faltou freio e esse foi o fator responsável para o empresário perder o controle do veículo na pista molhada e capotar três vezes antes de explodir junto a um muro de contenção. O corpo de Bombeiros foi chamado e conseguiu retirar o corpo homem de entre as chamas e ferragens ainda com vida. No entanto o mesmo não suportou e deu entrada no hospital já sem vida.”

Ah, o que um canivete não pode fazer...
Era noite, eu sabia que O Desgraçado não sairia antes das dez da noite, pois era dia de pagamento. O unha de fome ficaria ali até ter tudo somado, e ter dispensado mais um ou dois empregados, por achar que eles estavam ocasionando gastos além do necessário.
Uma quadra antes eu entrei pelos bueiros.
Sabia onde ele estacionava. Sempre o mesmo local, logo a frente do portão, de onde sua janela tinha uma boa vista.
Só que era bem em cima de uma tampa de bueiro.
O meu medo é que um dos pneus ficasse parado em cima da tampa. Mas que nada! Tudo saiu ás maravilhas. Ninguém viu nada. Foi só cortar o cano do freio. Não o cortei todo, pois poderia despertar suspeita se fizessem vistoria no veiculo.

A merda é que eu não sabia de uma coisa.
O Desgraçado estava com câncer e tinha somente mais dois meses de vida.
Isso eu fiquei sabendo quando os policiais, depois de quase um ano me pegaram.
Bebi e falei demais.

A chuva continua caindo por detrás da janela, entre as grades.


Ivair Antonio Gomes
Enviado por Ivair Antonio Gomes em 19/02/2006
Código do texto: T113922

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Sobre o autor
Ivair Antonio Gomes
Palhoça - Santa Catarina - Brasil, 47 anos
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