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Morte em Dezembro - capítulo 01

          No Brasil é como se fosse verão em Novembro, apesar da estação só começar oficialmente em meados de Dezembro. O sol, dependendo da hora, pode causar sérios estragos à pele de quem não está acostumado a ele nessa época do ano. É necessário um bom bronzeador e um ótimo filtro solar.
O homem que caminha descalço pela areia da praia sabia disso, apesar de sua pele ser mais branca que dos habitantes locais. Para todos os efeitos era apenas mais um turista, aproveitando os dias de sol na ensolarada Ilha da Magia como Florianópolis era conhecida.
Ele carrega uma mochila nas costas, displicentemente, como se fosse um colegial, presa por apenas uma das duas alças nos ombros. A primeira vista aparenta um homem de trinta anos, apesar de ter mais de quarenta. Para muitos isso é um incômodo, para ele não.
O homem de óculos escuros e boné na cabeça notara que a segurança do bairro era precária e o número de policiais reduzido. Antes de chegar na cidade imaginara que o local  estaria tomado por agentes Federais.
A praia dos ingleses é uma pequena cidade com cerca de dez mil habitantes, sendo que durante o verão esse número aumenta de cinco a dez vezes. O Bairro fica distante 20 km do centro da cidade de Florianópolis à qual é ligado por uma extensa e movimentada rodovia. Tem esse nome devido a  náufragos ingleses que ali aportaram no século passado e resolveram fazer morada no local, dividindo o espaço com pescadores nativos. Ingleses tem tudo que uma grande cidade necessita, supermercados, farmácias, postos de combustíveis e casas de diversões. Conta também com uma grande rede hoteleira.
O que também não passou despercebido pelo homem é que  no bairro não existia atracadouro para barcos de médio e grande porte, isso significava que teria que mudar uma medida em seu plano, mas isso não alteraria de modo nenhum o resultado final.
A faixa de areia da praia é larga e comprida. entre quinze a trinta metros de largura por uns quatro mil de comprimento. Caminhou até o extremo da faixa de areia e então contemplou as dunas que separavam Ingleses da Praia do Santinho, o seu objetivo.
No local onde estava ficavam as embarcações dos pescadores e algumas casas e casebres que a areia em menos de cinco anos iria cobrir assim como aquelas que agora só tinham os telhados á mostra para demostrar o poder da natureza.
Subiu às dunas e observou o percurso que faria. Era um extensão de quase dois mil metros de pura areia com seus montes ondulados. Ao longe divisou duas pessoas caminhando em meio à areia, provavelmente indo até a praia que também era seu destino.
Lera que havia muitas lendas sobre histórias de bruxas que moraram na ilha catarinense e mais propriamente neste bairro. Mas o que lhe chamara a atenção foi quando descobriu que até pouco tempo atrás o local guardava um interessante acervo de inscrições rupestres que apontavam para uma ocupação humana antiga e primitiva. Tirou o boné e passou as costas da mão direita enxugando o suor que escorria pela testa.
Aproveitou para mudar a mochila de ombro. Colocou o boné novamente e pôs-se a andar, tentando adivinhar qual o caminho seguido pelas pessoas que estavam lá na frente. Levou a mão esquerda á fronte fazendo com que a palma protegesse seus olhos do sol. Olhava adiante tentando encontrar as pegadas na areia. Sua sorte é que não ventava e logo encontrou os dois pares de passos. Daí foi só segui-los.
Em meio a areia havia alguns lugares onde se estendia uma vegetação rasteira e também alguns pássaros barulhentos com seus trinados ameaçadores. Quero-quero, o nome da ave veio á sua memória, lembrando das leituras que fizera sobre o país.
Tivera que se esforçar o máximo, pois os costumes e a língua eram inteiramente novos para ele. Chegara a estar em três cursos de português ao mesmo tempo. Conseguira adquirir um sotaque parecido com os de lingua latina. Argentinos e uruguaios era o que não faltava no local.
Segundo ficara sabendo A praia do Santinho tem este nome devido a uma estilização de uma figura humana, gravada em um bloco isolado de diabásio. Alguns moradores antigos e mesmo alguns índios adoravam a imagem desenhada no bloco de pedra como se essa fosse uma representação divina, daí o nome “Santinho”. Bloco este desaparecido misteriosamente. Algumas pessoas  hoje culpam um padre já falecido, pelo misterioso sumiço da figura.
Ouviu o barulho das ondas quebrando na praia. Logo seus olhos divisaram um lugar de beleza impar e com localização privilegiada. Uma faixa larga de areia e com quase a mesma extensão da praia dos Ingleses, no entanto aqui as construções eram totalmente inexistentes, a não ser na extremidade oposta de onde se encontrava, á sua esquerda. Era para lá que ele deveria ir. Aonde estava situado o complexo turístico do Resort Costão do Santinho.
Antes de se dirigir até  extremidade oposta da praia, olhou ao redor. Não havia ninguém por perto. Com cuidado subiu as pedras que estavam a sua direita. Uns vinte metros adiante e oculto nas rochas das vistas curiosas de turistas que porventura aparecessem, abriu a mochila. Dentro desta estavam várias peças meticulosamente arrumadas.
Uma chapa de metal retangular medindo 30 cm de largura por 40cm de comprimento, com suporte feito de canos flexíveis e dobráveis foi fixada no chão com a ajuda de dois pequeno pinos que martelara sobre a rocha. Acima das pernas flexíveis em forma de um "V" havia um pequeno bojo com um buraco não maior que 10 cm de circunferência e ajustável com presilhas para melhor fixá-lo. Em seguida um tubo de aço, com quase um metro, retrátil, para caber em qualquer mochila com pouco mais de quarenta centímetros, foi acoplado dentro deste bojo, e apertado com duas presilhas em cima do suporte. Tinha uma visão de toda a praia. Excluindo o suporte de aço, que conseguiu junto a um ferramenteiro no subúrbio da cidade,  todas as peças eram feitas de fibra de carbono 23 o que facilitou a sua passagem nos aeroportos por onde circulou. Girando, fez a luneta especial dar um foque sobre a construção no outro extremo. No entanto não tinha angulo suficiente. Havia alguma vegetação entre ele e a construção. Deveria procurar um local mais alto onde teria um angulo de  visão maior e melhor. Ajustou  a luneta em busca de possíveis agentes preparados para algo como aquilo que ele estava fazendo. Não visualizou nenhuma pessoa em atitude que pudesse parecer de vigília. Apertou um botão na base da máquina e esta rodou sobre seu eixo para a esquerda e depois mais uma vez para baixo. Ele então começou a filmar. O construtor da máquina fora um holandês que por várias vezes tivera seu nome associado ao I.R.A mas que infelizmente a policia Internacional nunca conseguiu provas concretas disso. Era um engenheiro mecânico que a muito fabricava sob encomenda. Encomendas especiais como a que recebera por correio junto com um cheque de 100 mil dólares, prometendo outra quantia igual para quando a obra ficasse pronta. O cheque era de uma conta sob nome falso, que fora aberta especificamente para aquele serviço. Quando a encomenda ficou pronta o corpo do artesão foi encontrado em uma baía de Amsterdã uma semana após acontecer um terrível incêndio no banco onde a conta fora aberta, queimando todos os documentos possíveis para uma futura identificação do cliente.
Acendeu o cigarro que trazia no bolso da bermuda. Pegou o filtro solar e aplicou mais um pouco sobre os ombros e o rosto.

Alguns minutos depois  o homem desmontou e guardou o equipamento na mochila, apagou o cigarro e se dirigiu para a outra extremidade. Conforme caminhava tirava algumas fotos e anotava em um bloco de papel para posterior identificação das mesmas. Caminhando pela praia descobriu um local que poderia ser usado como posto de observação. Ficava no lado sul do complexo turístico e do lado oposto onde se encontrava agora. Era um morro onde havia  alguma vegetação   cobrindo-o parcialmente.
Sob  sol forte ele sacou a garrafa de água mineral que carregava em um bolso lateral da mochila. Apesar de que muitos diziam estar localizada na China a mais pura fonte de água do mundo, imaginou que talvez as engarrafadoras usassem alguma substância química. Ás águas européias e asiáticas tem um gosto peculiar e notava não terem o mesmo gosto da sul-americana. Lembrara-se de Ter lido na " Science & Fiction", um tablóide americano que circula no Wiscousin, que devido aos testes nucleares feitos no pacífico e em outras regiões a água potável desses locais ou adjacências poderia estar contaminada. Segundo especialistas, os lençóis freáticos desses locais se localizavam em regiões onde haveria perigo de contaminação.
Não teve dificuldades para ler as placas que diziam ser aquela a praia mais limpa do Brasil, no entanto observou que ainda assim, em alguns pontos da praia havia água que escorria de canais em direção ao mar e também o lixo se acumulava em algum desses locais.
Pessoas passaram perto dele. Argentinos Fugiu à vontade de trocar algumas palavras, na tentativa de entabular conversa e conhecer um mais sobre o interior do Resort. Teria tempo para isso mais tarde.
Ao ver os Portenhos lembrou da última vez que estivera ao norte da Argentina, na provincia chamada Gran Chaco, na divisa com o  Paraguai,  arrumando as coisas para um exportador argentino com problemas com um desembargador. Foi um serviço rápido e fácil.  Em uma semana tudo estava resolvido. Como o homem gostava de pescaria não estranharam encontrar o corpo do desembargador, ou o que sobrou dele,  em um rio cheio de piranhas. Seu nome jamais foi ligado ao caso.
Na área em que trabalhava quanto menos se sabia sobre a pessoa melhor este era, pois o silêncio e a completa falta de suspeitas eram a marca da qualidade profissional.
Chegou finalmente em frente ao majestoso complexo hoteleiro que se erguia como se fosse uma espécie de fortaleza medieval cercada por um muro com quase dois metros de altura.  Contemplou  os arredores.
Ele observou atentamente o local, procurando não despertar suspeitas. Sentou por um instante na areia e ficou a olhar o mar. Na verdade estava a contar os passos que dera desde o momento em que saíra das Dunas. Sua mente esquadrinhava os arredores e fazia mentalmente um mapa, delineando os contornos e entornos do local.
Um restaurante em frente ao mar, ainda dentro do Resort,  e ao lado deste estava a entrada para o hotel. Não havia seguranças no portão. Talvez fosse muito cedo para isso. Faltavam ainda trinta dias para o encontro. Logo em frente ao restaurante alguns hóspedes descansavam estirados em suas cadeiras de praia sob a sombra de um guarda-sol. Seria muito fácil adentrar no recinto naquele momento, mas no dia do evento haveria ali uma centena de seguranças e agentes.

Caminhou  em direção ás pedras no costado direito do mar e que não ficavam distantes mais que trinta metros do Hotel. O Costado de pedras ia dar em um morro que circundava o local. Escolheu este como  seu posto de observação. O morro se erguia ao lado esquerdo do complexo, completamente colado a este. Percorrendo o costão havia uma nova construção sendo erguida. Era o local onde seria inaugurado o Hotel Internacional. Parecia algo grandioso. Contou cerca de 120 apartamentos em um prédio de apenas três pavimentos. A Obra já estava em sua fase final.  Alguns operários estavam trabalhando e olharam em sua direção com curiosidade. Ficou um pouco preocupado, mas logo percebeu que eles dirigiam o olhar para algumas garotas que estavam deitadas sobre as pedras, se expondo ao sol e aos olhares dos curiosos.
Seguiu uma pequena trilha aberta por pescadores que contornava o morro até certo ponto, então olhando ao redor para certificar-se de estar sozinho, galgou para dentro da pequena mata na tentativa de obter um ponto isolado e que melhor lhe aprouvesse.
Em alguns lugares a vegetação era alta o suficiente para encobrir um homem e havia lugares onde arbustos  cortavam a pele. Em pouco tempo verteram alguns arranhões em suas pernas, coisa ignorada pelo homem de boné e óculos escuros. Resolveu  memorizar o caminho pois talvez teria que voltar ali.
Depois de quase duas horas caminhando por entre a mata chegou próximo ao topo do morro e avistou uma pequena clareira onde havia uma pedra saliente, sobreposta como uma mesa, onde poderia melhor posicionar-se, estirado ao chão. Ajeitou a luneta e o suporte desta. Após certificar-se que as pernas metálicas do suporte estavam bem fixas ele tentou obter a melhor vista. Com uma faca cortou alguns galhos e ramos que estavam á sua frente prejudicando a visão. Cortou o estritamente necessário, pois tinha que tomar cuidado para não ser visto lá de baixo e também não poderia deixar vestígios de que alguém estivera ali.
Centrou o foco e obteve um Angulo que considerou perfeito. Começou a filmar novamente. O complexo turístico era formado por quatro grandes conjuntos arquitetônicos. O Village, o Centro Internacional de Eventos, a Clínica de Spa e o Hotel Internacional, ainda em construção. O Village era voltado para o turismo familiar, com a privacidade e segurança de um moderno condomínio fechado. Eram quatorze vilas sendo que dessas a última unidade ainda estava por terminar, perfazendo um total de 217 confortáveis unidades habitacionais. O Hotel Internacional era o mais próximo do morro onde estava. Ali estavam os operários, que o viram de passagem. Observou suas piscinas e os decks em direção ao mar. Se concentrou em um bloco de construção mais no interior do complexo, O Centro Internacional de Eventos. Que era  onde deveria conseguir analisar a maior quantidade possível de pequenos detalhes. O Centro de Eventos ocupava uma área, calculou, de uns cinco a seis mil metros quadrados, onde divisou amplas salas de exposições, restaurantes e lojas além de um enorme pátio para estacionamento. Enquanto a máquina filmava automaticamente os arredores começou a tirar outra seqüência de fotos.
Prestou atenção no uniforme dos empregados. Com um zoom da potente e poderosa luneta, que era encaixada sobre a camêra ele identificou os mínimos detalhes do figurino de um homem que estava servindo um cliente á sombra de um guarda-sol. A potência de alcance era tamanha que ele poderia dizer facilmente a cor do esmalte da unha na mão de uma senhora no balcão do restaurante. Novamente a luneta começou a filmar. O homem de Amsterdã fizera um bom trabalho.
Memorizou a seqüência de fotos como já fizera anteriormente. Prestou atenção especial em pontos que poderiam estar posicionados os seguranças no dia do evento. Tentava assim ver se eles poderiam enxergá-lo onde estaria.
O local era perfeito. Pelo que sabia jamais chefes de estados se reuniam em locais abertos. No entanto eles teriam que sair das salas uma hora ou outra, e essa seria a oportunidade que ele teria. Única que fosse essa oportunidade, ele não a desperdiçaria.
Seria necessário uma planta do local. Mais tarde se preocuparia em como obtê-la. Antes deveria ficar por dentro do esquema de segurança.  A policia local já divulgara alguma coisa superficial, mas ele gostaria de saber se a P.F. ou a Interpol tinham alguma ajuda externa. Com certeza a ABIN também teria alguns agentes no local. Mas agentes nunca representaram dificuldades para ele identificar. Todos gostam estar bem alinhados, com  roupas bem arrumadas e até mesmo os camuflados são facilmente identificáveis, pois o linguajar e os modos, por mais que tentem disfarçar, sempre são superficiais e fáceis de perceber para uma pessoa mais atenta.

Ele se antecipara trinta dias ao encontro, e com surpresa constatara que não havia agente algum no local, prevendo a antecipação de algum grupo radical no perímetro. Depois de quase uma hora observando, filmando e anotando resolveu descer. Havia diversas pedras soltas pelo caminho além dos galhos com espinhos pontiagudos. Com cuidado rigoroso e muito equilíbrio desceu pelas pedras. Só o que faltava era ser descoberto por causa de um tornozelo torcido ou um tombo.
Estava  chegando a areia da praia quando repentinamente um rapaz surgiu de por entre uns arbustos.
--- Ei? Tem trilha lá para cima?....- disse um rapaz sem camisa saindo do mato e vendo o caminho por onde o homem de óculos escuros e boné surgira.

Ivair Antonio Gomes
Enviado por Ivair Antonio Gomes em 21/03/2006
Código do texto: T126143

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Ivair Antonio Gomes
Palhoça - Santa Catarina - Brasil, 47 anos
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Ivair Antonio Gomes