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O QUINTO HOMEM- parte 20

          22:10

Passou duas vezes em frente a casa da moça, antes de parar o carro.
Queria se certificar de que  não o seguiam.
Mal desligou o carro, uma jovem de aparentemente 25 anos, 1,70, cabelos escuros curtos, veio correndo ao seu encontro. Usava um vestido branco, que ia até os joelhos. Devia ser crente, pensou Marcelo no minuto em que a analisava. Tinha um corpo bem definido.
--- Nós o esperávamos!!- disse ela abrindo o portão.
---- Nós?! - falou ele tentando puxar  para fora do veículo o desacordado delegado.
Estava de costas para a porta da casa, tentando tirar o corpo, quando ouviu uma voz já conhecida.
---- Oi  companheiro!!
---- Xamã!! - deixou o corpo cair no chão e virou-se rapidamente. - Seu merda!! Filha da puta!!
---- Calma! primeiro vamos tirar esse cara dai, bem rápido, antes que alguém perceba. Depois você pode me xingar a vontade.
---- Pau no cú!! Desgraçado!! Aonde se enfiou? Tava aqui esse tempo todo?!- perguntou enquanto segurava as pernas do delegado.
A moça entrou do outro lado do carro e tentava empurrar. Xamã ajudou Marcelo, puxando pelas pernas. Logo que o corpo ficou todo do lado de fora, Marcelo o segurou em pé e o jogou, com a ajuda de Xamã, por sobre os ombros.
---- Pensei que ia descobrir mais cedo. Você  não é tão bom quanto diz!!
--- Vamos colocar esse peste lá  dentro e depois a gente conversa direito!
--- OK!!



                ..........................


        ---- E então? - perguntou Xamã já esperando a enxurrada de perguntas que o outro lhe prometera.
---- E então?? E então!! É só isso que tem para me dizer, depois de tudo? Que merda cara. Eu tô fodido! Tão me caçando na cidade e talvez até no estado como se fosse um criminoso, e você só me diz isso?
---- Olha Marcelo, eu vou resumir mais ou menos assim. Eu conhecia o velho e...
---- Claro que conhecia, senão  não teria me ligado! Mas eu ainda  não sei até onde ia essa tua ligação com ele!
---- É simples, eu era um dos sete. Éramos um grupo de estudo, conforme você deve ter percebido ao entrar no porão da casa do velho!  Não!  não era grupo de macumba, feitiçaria, nada disso. Quer dizer mais ou menos! Estudávamos para conhecer. E você sabe, para saber evitar é preciso saber fazer! Quem quer desmontar um motor, tem que saber montá-lo .
---- Então praticavam feitiços? Até você? Puta merda!! -- Marcelo ouvia atento ao barulho no quarto onde tinham deixado amarrado o delegado.
----- Olha Xamã, eu vou dar uma saidinha, assim vocês conversam mais a vontade, tá ?! - disse a garota que soube só depois, chamava-se Sônia.
---- continue! - pediu Marcelo assim que a moça saiu.
---- Estudávamos de tudo um pouco.  Não se preocupe, não era magia negra. Era esoterismo. Estudávamos o uso das plantas, ingestão, fermentação e  também o uso das línguas arcaicas, como Aramaico, Inca, Asteca, Latin, Hebraico, Grego. E as vezes íamos pelo lado da Alquimia. Era um grupo seleto de pessoas, em número de sete, oito com o velho, a quem chamávamos de Mestre. Nas reuniões todos usavam capuzes e vestes negras, assim as identidades sempre seriam protegidas. Só o velho sabia o nome de todos os participantes. Mas isso fazia parte e nós contávamos com a discrição do velho Mestre.
--- Como só o velho? e quando vocês chegavam  não se encontravam na casa, ou na entrada da casa?
----  Não. O velho recebia um a um e a cada membro que chegava ele mandava descer ao porão.
---- E na hora de ir embora?
---- O mesmo processo, saia um a cada vinte minutos.
---- Então quer dizer que você nunca viu o rosto de nenhum deles?  Não sabe quem eles eram?
---- isso mesmo.
---- E quanto tempo faz que você fazia parte desse grupo?
---- uns três anos.
---- Tá! Continue!
---- Todos, nas reuniões, tinham um número para os identificar. O meu era o n.º 3.
---- E quem eram os outros?
----  Não sei, já lhe disse que a gente  não se conhecia. Um nunca viu a face do outro.
---- Isso quer dizer que o livro do velho...
---- Exatamente. Eu suspeito que era a relação do pessoal que fazia parte do grupo. Alguém rasgou e levou a página que continha os nomes.
---- Quem?
----  Eu  também  não sei. Na noite antes da morte do Mestre, nós conversamos longamente. Eu fui o último a sair da casa. Ele se mostrou preocupado.
---- Preocupado? Preocupado com o quê?
---- Ele recebeu uma carta de um conhecido dele de Chapecó, que disse que haviam ocorrido duas mortes meio suspeitas.  Não para a policia, mas suspeitas para os iniciados. Para a policia era enfarte. O problema é que eram dois políticos de respeito na região oeste do estado. Nomes fortes para ocupar cargos importantes.
---- Sei, então tiraram eles do caminho.
---- É, só que ninguém desconfiou. Isso é, ninguém fora o velho que fizera a autopsia, ou melhor, que ajudara a fazer. Coronárias rompidas.
---- Enfarte!
---- Isso, só que diferente! Pois romperam-se todas as coronárias, de uma só vez, e isso só uma planta pode causar. Uma planta rara aqui nas américas.
---- Já  sei, e  não encontraram vestígios dessa planta?
----- Oficialmente  não, pois deram o laudo como enfarte, no entanto o amigo do Mestre, colheu amostras de resíduos na bexiga da vítima e constatou, nos dois corpos, mesmo tendo um intervalo entre as mortes de quase 20 dias. Os dois haviam ingerido um chá  contendo grosikas.
--- como?
---- Grosikas, uma planta que é desconhecida aqui, mas muito usada na África, como emplastro, para retirar ferroadas de escorpiões. Seu uso já era conhecido no antigo Egito. Veneno mortal se ingerido junto com álcool. A pessoa expande suas contrações intravenosas e o sangue engrossa de tal maneira que provoca quase que instantaneamente o bloqueio e posterior rompimento das coronárias.
---- Credo, é sério isso?
---- Claro que é!!  Nós estudamos essa planta.
---- Então...
---- Exatamente o que o Mestre pensou. Algum de nós havia feito aquilo. Alguém que tinha acesso a esses políticos.
---- Qual o nome desses políticos?
---- O senador da república Seknin e o deputado federal Wandok, o vandocão como era conhecido. O senador fora o prefeito de Chapecó por duas vezes.
---- Puta que pariu! mas porquê?
----  Não sei.
---- Olha eu fui até Itá  a teu pedido, mas  não vejo nada que possa relacionar com isso tudo. Só posso chutar que tem algo a ver com a usina hidrelétrica.
---- Eu pedi para você ir até Itá  para falar com a  Carla  porque imaginei que ela poderia ter um retrato do Ângelo e assim nós poderíamos tentar identificá-lo.
---- E como você sabia que ele esteve em Itá  e conheceu  Carla?
---- O mestre achou, dentro de um casaco que o quinto homem lhe entregou em uma das reuniões em um dia de chuva, uma nota fiscal do Hotel de Itá . E viu no verso o endereço e o nome da  Carla .
---- Ora, eu nem pude falar direito com a  Carla, falando nisso...
----  Não se preocupe! Tem gente minha dentro do hospital cuidando dela.
---- Gente tua? Que diacho é isso?
---- Conhecidos! De confiança!
---- Sabe que tentaram acabar com ela lá  dentro?
---- Sei. Depois disso coloquei um conhecido meu lá  dentro, para tomar conta dela.
----- Mas voltando ao assunto. Eu acho que tudo se resolve quando acharmos o quinto homem!.
---- Pois é! E esse merda do Alécio? O que fazemos com ele?
---- Deixa aí. Acho que  não tem nada de importante para nos dizer que possa ajudar.
---- Mas  não podemos manter ele aqui por muito tempo. Talvez devêssemos soltar ele.
----  Não!! Se o soltarmos entramos pelo cano! Devemos deixá-lo ai mesmo, quietinho.
---- Pois é, e eu pensei que fosse um grande amigo.
---- E o livro? você o tem?
---- Tenho, porquê?
---- Porque de repente tem mais alguma coisa ali! Eu poderia tentar ler. O mestre vivia me elogiando como um dos melhores, coisa e tal.
---- Tá , tudo bem. Ele está em local seguro. Mas ainda  não explicou porquê se escondeu esse tempo todo?
---- O quinto homem. Ele poderia saber quem eu era. E  não gostaria de acabar como o mestre, ou como a Giovana. Coitada! Não tinha nada a ver com a história.
---- Pois então, a primeira coisa é encontrar esse tal de Ângelo. Eu tinha feito um pedido para esse cara - apontou para o delegado no chão - mas ele me enrolou direitinho. Agora temos que encontrar outra pessoa para nos ajudar.
---- Só temos uma pessoa que pode identificar o Ângelo.
Marcelo concordou.


Hospital Celso Ramos  00:15. madrugada de 07 de abril.



------  Carla ! Acorde  Carla ! Por Favor! Eu .. nós .. precisamos da sua ajuda. Por favor!! -  Marcelo falava segurando firme na mão esquerda da moça. A mão estava fria. Sua cor era pálida, uma palidez cadavérica.
Mantida sob controle de aparelhos, sua pulsação era normal, porem seu rosto... parecia que envelhecera dez anos. Seus olhos estavam fechados, no fundo de uma cavidade  não normal.
Marcelo lhe afagou os cabelos negros.
Seus cabelos ainda eram macios, finos e brilhantes.
Rezou por ela, debruçado sobre sua cama, com as mãos no ventre dela.
Não acreditava em milagres, mas queria acreditar. Queria acreditar para que um milagre pudesse acontecer.
Lembrou dela quando a vira no escritório lá  em Itá ; lembrou-se do momento em que levantara seus olhos na mesa de jantar e encontrara os olhos dela. Foi algo inesquecível, alguma coisa naquele momento o tocara por dentro, o fizera rever toda sua vida de aventureiro.
Sabia que  Carla  era a única que podia identificar Ângelo. Trouxera os recortes e xerox das fotos que Giovana tirara na Biblioteca antes de ser assassinada.
Fora com Xamã até o Hospital.
A atendente no balcão do plantão quisera impedi-los de entrar, mas Xamã falou algo, em voz ou língua, que Marcelo  não compreendeu e de repente ela sorriu e lhes passou a chave. Se tornou amistosa de um momento para outro. Mais um dos truques de Xamã que ele  não conhecia.
Quem era afinal seu sócio? só agora percebera que sabia muito pouco sobre ele, quase nada, exceto que era vendedor de consórcio e que viera do Oeste.
Do oeste? Mas.. merda, era tanta confusão que  não sabia em quem  confiar.
---- Vamos logo cara!  não podemos ficar aqui a noite toda! -- lhe disse Xamã entreabrindo a porta do quarto.
--- Ela  não está bem! Nem sequer sabe que eu estou aqui,  não há  nada que ela possa fazer nesse estado! - falou Marcelo pondo-se de pé.
---- Espere-me lá  fora, Marcelo! - viu no rosto de Marcelo o olhar de espanto. - Por favor! você já tentou, agora é minha vez! Quem sabe eu tenho mais fé que você?!
- O que vai fazer? Vai lançar algum encanto? Qual é cara, isso  não  existe! ela  não vai poder nos ajudar, eu já te disse.
---- Saia, por favor!  Não vê que estamos perdendo tempo com essa discussão idiota? Me dê dez minutos, se  não conseguir, então iremos embora.
----- Que maluquice, meu.. Isso é ridículo.. os médicos falaram...
----- Você  não tentou? Porque  não me deixa tentar? Vamos cara! Só dez minutos.
---- Por Deus cara, eu...

Xamã foi empurrando ele em direção a porta.
Antes de encostar a porta viu quando Xamã retirou algo de um dos bolsos do casaco.
Fechou a porta
Um aperto, uma angústia lhe martelava o peito. Era como se tivesse tomado café‚ quente e queimado a língua. Algo ardia dentro de si.
Juntou as mãos, fechou os olhos e rezou mais uma vez.
Estranho, ele que passara quase vinte anos sem rezar, de repente, em menos de uma hora se via rezando profundamente, duas vezes seguidas.
Não que nunca rezara.
Quando criança fora batizado, crismado, e chegou a ser coroinha de uma pequena paróquia onde moravam seus pais. Estes sim eram católicos. Seu pai era o chefe de cerimônias da igreja e sua mãe fazia a limpeza da mesma e ainda limpava e arrumava o salão paroquial para as festas, assim como arrumava a casa do padre.
Todas as noites, as seis da tarde, rezavam juntos a Ave Maria e na mesa sempre faziam uma oração de agradecimento.
O tempo foi passando.
Certo dia veio outro padre para a cidade.
Um padre de pouca idade com  idéias novas.  Não completara 35 anos. Despediu seu pai e sua mãe.
Ficaram sem ter aonde ir de um dia para o outro pois o padre tinha que alojar a outra família que trouxera consigo. Seu pai e sua mãe foram trabalhar em um sitio como caseiros e ele ficou na cidade morando com sua madrinha, para poder continuar a estudar.
Logo descobriu que a mulher que morava onde outrora morara com seus pais, era amante desse padre e isso lhe trouxe uma revolta tão grande que nunca mais rezara.
Nem no dia da morte de sua mãe.
Agora no entanto não soube precisar quanto tempo ficou ali, encostado na porta, rezando.
Saiu do estado de oração quando a voz de Xamã, lhe pediu para entrar.
Ao entrar no quarto teve um susto.
Ivair Antonio Gomes
Enviado por Ivair Antonio Gomes em 25/03/2006
Código do texto: T128446

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Ivair Antonio Gomes
Palhoça - Santa Catarina - Brasil, 47 anos
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Ivair Antonio Gomes