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O QUINTO HOMEM - parte 21

        As luzes do quarto estavam todas apagadas.
Duas velas acesas na cabeceira da cama, em cima das cadeiras, iluminavam o ambiente.
Viu que  Carla   estava com os braços sobre a coberta, sob suas axilas havia algo que ele não soube identificar.
Marcelo quis levantar seus braços para ver o que era, no que foi impedido por Xamã.
---  Não!  não mexa em nada! Pegue os recortes!
Marcelo, meio atônito, custou a entender.
---- Vamos homem. Os recortes! Mostre a ela.
---  Mas... como??... ela ainda  não está...
--- Coloque os recortes na direção da vista dela e espere o resultado.
Meio desconfiado, a contragosto, Marcelo fez o que Xamã lhe disse.
Abriu a mala, retirou os recortes.
Separou as folhas de texto e as fotos.
Com as cópias das reportagens e com fotos na mão, foi arrumando as folhas e se colocou debruçado sobre a cama. Estendeu uma folha por sobre o rosto de  Carla .
O rosto dela estava impassível. Sua respiração era controlada por máquinas.
Se perguntou se  não era tudo besteira. Ela  não esboçava reação nenhuma.
Olhou para Xamã, este estava quieto em um canto, sentado sobre uma cadeira, falando alguma coisa em voz baixa e acenou para que continuasse.
Marcelo pegou a primeira folha e passou sobre o rosto de  Carla .
-----  Não! Assim  não! Faça de conta que está mostrando para ela e que ela pode ver.  Não precisa esfregar no nariz dela.
---- Que merda! Isso não vai dar certo! È loucura cara!
Marcelo agora mostrou a página para ela.
Nenhuma reação.
Olhou para Xamã e este falou " a próxima".
Mostrou a segunda, e nada, e assim foi a terceira, a quarta...
Estava cansado. O tempo passava rapidamente. Era muita idiotice tudo aquilo.
Como poderia ela mostrar quem era se  não estava vendo!?
Incrédulo, continuou mostrando as páginas, mas logo percebeu que era impossível continuar.  Não ia dar resultado.
----  Não adianta! Já  passei por todas as fotos duas vezes.  Não sei o que você pretendia, mas  não deu certo.
---- Pssi,  não desista cara. Vamos, me dê essas cópias. Descanse um pouco.
Marcelo olhou no relógio; 01:45. Já  fazia quase duas horas que haviam entrado no hospital.
Como a ler seus pensamentos Xamã lhe falou.
----  Não se preocupe com a plantonista. Ela  não nos viu entrar. Ninguém viu.
---- Como  não viu? ela ...
----- Psss... olhe...
Marcelo  não acreditou. O braço direito de  Carla  se moveu e apontou para a folha xerocada, que Xamã mantinha erguida diante dela. O dedo indicador pousou sobre a folha. E logo o braço tombou inerte pelo cansaço que o esforço lhe propiciara.



Casa da Namorada do Xamã. 02:20

----- Pronto Marcelo! Já  tem tudo na mão, porque  não vai até o gabinete do procurador e lhe entrega tudo?
----- Porque estou esperando a resposta do delegado de Itá . Ficou de me mandar algo mais. Entenda que só com as fotos  não tenho prova nenhuma.  Carla   não pode depor e como iríamos dizer a eles que ela o identificou? Através de seus truques? Bancaríamos os idiotas. Eles iriam rir de nossa cara. Precisamos de algo concreto para por essa gente  atrás das grades.  Não sei se você percebeu mas nem tudo aqui se resolve com magia.
---- E você confia nesse delegado? Pergunto porque você viu o que aconteceu com o Alécio?  Não era ele teu grande amigo? Agora taí, amarrado igual salame, senão é capaz de nos matar.
---- O mal dele foi a ganância. Sempre foi um bom homem,  não sei explicar como ele se transformou tanto.
---- O coração do ser humano é inconstante Marcelo, lembre-se disso. Como o delegado vai fazer para te passar as informações, que colheu em Chapecó?
--- pela minha caixa postal. --- Olhou para o Alécio no canto do quarto amordaçado.---  Um número diferente daquele que ele conhecia.




Florianópolis. Praça XV. Manhã de 11 de abril.


De manhã , Marcelo foi disfarçado até a Agência central dos correios na praça quinze.
Chegou na praça  às 9:45 e comprou um jornal. Sentou-se perto de um grupo de hippies. Na primeira página o destaque era para o sumiço do Delegado Alécio. Sua calça jeans surrada e sua barba por fazer, lhe davam um ar de desocupado, despreocupado sem fazer nada. Por trás dos óculos buscou identificar alguém nas proximidades. Naquela hora a praça estava quase tomada pelos populares, assim como também tinha muitos turistas argentinos. Um grupo de seis ou sete mulheres rodeavam a grande figueira na tentativa de encontrar casamento na ilha. Uma antiga simpatia, lenda local. Quem desse 13 voltas na arvore conseguia casamento. Alguns dos turistas usavam meias até quase o joelho, era assim que o povo do local sabia quem era Argentino e quem  não era. Pois os Argentinos caminhavam sempre de bermuda e usando meias grandes e tênis. Dificilmente alguém usava sandálias. Mal sabiam eles e o guia  não sabia informar, que ali, aonde agora se erguia praça, morara Francisco Dias Velho, o fundador de Desterro, o antigo nome da Ilha, em uma choupana. Foi a primeira casa da ilha. Na época ficava de frente para o aportamento de barcos e navios. Um local estratégico.
Marcelo desviou os olhos e olhou na direção onde um grupo de três homens lia as linhas dedicados ao busto de Floriano Peixoto, da onde viera o nome da ilha.  No dia da inauguração dessa estátua, poucos ali sentados sabiam disso, que o então Presidente do Brasil,  Gal. João Batista Figueiredo, fora recebido com pedras e teve inicio um tumulto no centro da cidade, indo o presidente se refugiar no, hoje museu, Palácio cruz e Souza, que na época era a sede do governo. Foi o inicio da rebelião chamada "novembrada".
O sorveteiro era o mesmo da semana passada, os taxistas batiam papo animadamente, o engraxate... Claro!!.. O homem que estava sentado no bando dos engraxates, estava de sapatos limpos e no entanto fazia quase vinte minutos que o garoto engraxava os sapatos dele. Viu quando este dirigiu um olhar para onde estava a estátua de Floriano Peixoto, no cento da praça. Um hippie alto, meio magro, de barbicha e sem camisa, com um colar no pescoço lhe devolveu o olhar, virando a cabeça em sentido negativo, e logo olhou para  a porta de entrada dos correios, onde uma senhora comprava cartão telefônico de um falso cego. Este fez um  não com a cabeça. Ninguém repararia neles, estavam bem caracterizados, e em meio ao público.
---- ... pois‚ é eu já saí dessa "nóia" de macrobióticos, camarada! Vai tudo pro mesmo lugar.. e um dia a gente vai morrer mesmo... --- prestou atenção na conversa ao seu lado, onde uma jovem hippie, conversava com outra mulher mais velha, que dizia estar cansada de arrumar companheiro e depois trocá-lo . Dizia que agora era fiel.
Marcelo sorriu.
Algo lhe dizia que ela  não era o que dizia ser. Ou seja uma mulher fiel. Pois sua experiência lhe dizia que sempre existem decepções nos relacionamentos com mulheres como essa que proclamavam a sua fidelidade aos quatro ventos.
A garota hippie olhou para ele de soslaio e sorriu também, quase a querer concordar com seu pensamento.
Marcelo esperou a mais velha, a fiel esposa, se afastar e olhou com mais atenção a jovem que estava a sua frente.
Era morena clara, 1,75, cabelos negros, um pouco ondulados, caindo nas costas. Usava uma mini blusa de crochê, que permitia exibir uma barriga lisa, e a pele branca do contorno dos seios; vestia uma pequena bermuda, de jeans, amarrada na cintura com uma fita,  não usava cinto, sendo que no momento o zíper estava aberto, por onde Marcelo pode vislumbrar a cor rosa da peça intima.
---- .... pois é maluco, agora eu vou arrumar meu "pano" e pegar uma praia. O sol tá  demais hoje. Nada como a gente ficar longe de tudo e de todos. Ir numa praia isolada...
Ouviu ela comentar com o rapaz da barraca ao lado.
Ela tinha seus objetos por sobre um pano negro, de camurça, estendido no chão da praça. Muitos ali faziam isso, visto que  não tinham uma banca, como outros, e  também porque era melhor na hora de ir embora. Isso foi o que Marcelo constatou quando ela começou a guardar tudo na mochila.
----- Conhece a lagoinha? - perguntou Marcelo no momento em que ela disse que gostava de praias isoladas.
-----  Não! Sei que é perto de onde eu moro, mas  não a conheço. - disse ela sorrindo, um pouco surpresa por Marcelo lhe dirigir a palavra.
É que nas grandes cidades é difícil alguém que  não faz parte do grupo lhes dirigir a palavra quando  não for para comprar ou para desprezá-los. Marcelo achava que ele mesmo muitas vezes agira assim, e agora se arrependia.
---- E aonde você mora? - mesmo conversando ele  não perdia de vista o movimentos dos "outros".
--- Na Lagoa do Peri, conhece lá ?
Marcelo conhecia sim. Fora lá  algumas vezes.
Era uma extensa  área de  água doce preservada, menos de quinhentos metros a separavam do mar. Alguns diziam que era a 2ª maior do Brasil lagoa, perdendo apenas para a Lagoa dos Patos no Rio Grande do Sul. O que Marcelo sabia é que era um ótimo lugar para passar o final de semana. Havia um bosque com várias churrasqueiras e ainda uma pequena lanchonete e para quem gostava, havia  também uma trilha que passava por quedas d'agua. Nos domingos era difícil encontrar um lugar livre para se acomodar nas mesinhas debaixo das arvores para tomar uma cerveja, enquanto as crianças brincavam nas águas rasas da lagoa, ou então pescavam carazinhos.
---- Conheço! Muito legal o lugar. Pois a Lagoinha do Leste é quase igual, com a diferença que o mar está ao lado da lagoa.
---- É que tem que caminhar pra cacete! Desculpe-me, estou aqui falando e o Sr. deve estar querendo ler seu jornal! - disse ela ajeitando as coisas dentro da mochila.
Marcelo estendeu o braço esquerdo e pegou uma pulseira que estava sobre o pano.
---- Ora que é isso?! - disse ele quando uma sombra se projetou sobre ele.
----- E ai  camarada, tudo em cima ? -- Marcelo olhou ao lado de onde viera a voz.
O delegado Jusce lhe sorriu piscando o olho esquerdo.
Soltou a pulseira e a moça  olhou desconfiada para o estranho que parecia conhecer o jovem que conversava com ela.
---- Como? Eu pensei...
---- Pssi... me siga até o senadinho. - lhe disse o delegado quando se levantou e seu rosto quase colou no de Marcelo.
Marcelo esperou Jusce se levantar, olhou para a garota que já colocara a mochila nas costas. Achou fascinante como ela conseguira colocar tudo aquilo que estava em cima do pano dentro da mochila.
Ela acenou e Marcelo lhe desejou boa sorte.
Dobrou o jornal debaixo do braço e saiu em direção ao senadinho.

Ivair Antonio Gomes
Enviado por Ivair Antonio Gomes em 03/04/2006
Código do texto: T133140

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Sobre o autor
Ivair Antonio Gomes
Palhoça - Santa Catarina - Brasil, 47 anos
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