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O QUINTO HOMEM - parte 22

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Senadinho. 11:30 terça feira - 07 de abril.
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O senadinho era o ponto de encontro em Florianópolis para os aposentados, ou simplesmente aqueles que já  não mais se preocupam com nada, a  não ser o jogo de dominó, xadrez ou mesmo de damas. Em Curitiba existia a Boca Maldita, em Florianópolis, o Senadinho.
O local já fora palco no passado de muitos discursos, e de encontros políticos que dificilmente se efetuariam dentro das frias salas da assembléia estadual, além de presenciar o inicio do ato de desagravo do povo catarinense ao Gal. Figueiredo, Então presidente do Brasil.
----- Aqui está!
O Dr. Jusce colocou na mesa duas fitas.
---- O que é isso?
---- Escute; Fui até a casa do senador Seknin, me identifiquei como um escritor, dizendo que pretendia escrever uma biografia sobre ele. No inicio a esposa dele ficou meio relutante, disse que ainda doía falar sobre ele. Isso que foi a quase dois anos que ele foi assassinado...
---- Assassinato? então? .. Tem certeza? como chegou a essa conclusão? Então eu estava certo.
---- Calma, meu jovem, calma! Bom, pra começo eu peguei o resultado do exame de balística sobre o carro lá  de Itá. O Gol do Mello, o carro que parecia com o seu.
Marcelo já tinha esquecido disso.
---- Veja! leia o laudo.
---- Vou ler depois. Acho melhor ouvir da sua boca. Assim poderei  também ouvir suas observações e impressões.
---- Qual é detetive, agora duvida de mim  também? Só porque o seu amigo sumiu? ... sumiu ou ....
Jusce compreendeu o que acontecera ao ver o olhar firme de Marcelo
"Seu filha da mãe!"
---- Maluco! você está doido!  Não percebe o que fez?
---- Pssi, por favor! Vamos ter que sair daqui se continuar a gritar dessa maneira. Eu tive meus motivos para fazê-lo, e posso garantir que ele ainda está vivo. Agora vamos ao que interessa.
Estavam do lado de fora do bar onde mesas de metal dispostas paralelas ficavam formando um corredor para os transeuntes que por ali passavam. Rua Felipe Schimidt, a mais movimentada no relevante a pedestres. Era um calçadão, onde era proibido o tráfego de veículos.
----- Era um projetil de uso essencialmente militar. Fragmentável. Usado em estandes especial de treino militar. Tipo emcamisado. Muito raro! Parecido com o traçante fumígeno, que contém e comporta no enchimento compostos de fósforo branco ou amarelo. Quando há  o disparo, o composto se liquefaz e, centrifugamente, é expelido por um pequeno buraco feito na lateral da capa de fora. Em contato com o ar, o composto de fósforo se oxida e deixa um espiral de fumaça, que permite ao atirador acompanhar sua trajetória.  São rarissimos em armas civis! Os projeteis militares de uso especifico, como você sabe, são identificados por códigos de cores aplicados a eles sob a forma de banda, na ponta ou no corpo do projetil e as vezes ainda em cima da espoleta. Esse era vermelho, na banda e na espoleta. Fragmentável.
----- Tá ! legal essa dissertação, mas e dai?
----- "Wildcats", já ouviu isso antes? - Marcelo fez um  não com a cabeça enquanto sorvia um gole de cerveja.
----- São cartuchos de uso especial, em geral desenvolvidos pelo próprio atirador, são cartuchos de alta precisão, de tiro tenso.
----- Como assim? O cara mesmo faz o cartucho?
----- Normalmente é feito assim: Parte-se de estojos existentes no mercado e o uso de ferramentas especiais de recarga, as chamadas "Dies", reduz-se o diâmetro da  área onde será  colocado o projétil, transformando o estojo em "garrafinha" e  ás vezes corta-se para reduzi-lo. O que se consegue é um estojo com grande armazenamento de pólvora, que com um projétil de pequeno diâmetro, e pouco peso, forma em um cartucho de grande precisão e velocidade.
------ Puta que o pariu DR.! Fale logo e deixe essa historia de lado! Qual o calibre?
------ Pelos estudos revelou-se um projétil de calibre .25 colocado em um estojo de .30-06. O ruim de tudo isso é que  a menos que um "wildcat" tenha sido adotado por alguma fábrica de munição, seus estojos estão sempre com as inscrições de base do cartucho que lhe deu origem. Isso poderia levar a um erro de identificação, e que só foi corrigido depois de ser feito uma identificação completa. Por isso demorou.
------ Cacete!! Então foi coisa de profissional?
----- Exatamente, meu amigo!  Não é qualquer um que detém esse conhecimento. A pessoa que possui tal técnica provavelmente já deve ter um currículo bem extenso. Exercito, Força Tarefa, ou até alguém da Policia Federal, o que acho difícil devido ao treinamento apático que possuem, ou então...
----- ou então alguém de fora...um "morto"!

Morto era o jargão para os especialista, recrutados no exterior, com conhecimento terrorista. O antigo S.N.I os trazia para o Brasil, durante o regime militar para treinar as forças armadas na repreensão a ataques terroristas. Esse órgão "fabricava" suas mortes, e lhes dava uma nova identidade e com isso nova vida.
---- Se pelo menos pudéssemos consultar as fichas da Policia Federal. Mas agora com esse rolo do desaparecimento do Dr. Alécio a vigilância deve estar dobrada. Com certeza, se for um "morto", temos muitas hipóteses. Pode ser, ou um Israelense, vindo do Mossad, ou um Irlandês dissidente do I.R.A. e pessoalmente  não acho que essa pessoa passe dos 60 anos.  Mas isso tudo são conjecturas. É besteira. Qualquer um poderia pagar para receber treinamento. Até mesmo na Bolívia ou no México. O que é que você acha?
----- Eu estava pensando aqui comigo. - olhou ao redor de si, um grupo de estudantes tomando cerveja, com as pastas em cima da mesa. No banco de concreto, de forma redonda, só uns velhos idosos, jogando dominó. Um pensamento lhe passou pela cabeça. Poderia ser um deles um assassino? Suas rugas, seus tremores de mão,  as vozes fracas, frágeis corpos, escondiam um assassino frio e sanguinário?
----- Que foi?
----- Olha Dr. não pode ser alguém tão velho, pois eu vi esse homem face a face, apesar de ele usar uma máscara, e me parecia bem demais para ter sessenta anos. E quanto a sua origem, isso é mais difícil. Mas aqui é bem mais fácil se colocarem os de língua latina. Agora me diz, o que conseguiu em Chapecó? Até agora só me deu uma pequena aula de balística e mais nada que fosse importante nesse caso. Sabemos que tem um cara que é perito em armas e o que mais?
----- Tá  certo, é que eu achei interessante contar primeiro essa parte referente ao acidente lá  em Itá . Bom fui até Chapecó preocupado com o rumo que as coisas estavam tomando por aqui. Viajei no dia seguinte à tua ligação. Então como te disse fingi ser um escritor! Não precisei de disfarces ridículos iguais a esses seus! - sorriu - Como eu falei antes fui primeiro a casa do Senador Seknin.
Meio relutante a viúva permitiu que eu gravasse nossa conversa. Eu disse que era mais fácil e que a conversa poderia fluir mais fácil, sem ter pausas para escrever. Ela como toda boa esposa, orgulhosamente descreveu toda a trajetória política do marido. Sabia que ele fora exilado do país em 68? Foi pro Paraguai. Lá  conheceu o Dr. Leonel Brizola, o ex governador do Rio Grande do Sul, e  também o Dr. Sérgio Vasconcelos.
--- O Serginho?
---- Ele mesmo. Na época ele era apenas um estudante que fora pego distribuindo panfletos. Bem, em 79, com a anistia geral concedida pelo Presidente Figueiredo, Seknin voltou para o Brasil. Foi morar inicialmente em Porto Alegre, onde Brizola usando seu conhecimento o fez ingressar na política.  Não participou de nenhuma eleição naquele estado, apenas ajudou a fundar o partido, batendo de cara com o General de Brigada o comandante Francisco Gomes. Após fundar e ajudar o partido a vencer o PDS(antiga Arena) e o PMDB ( antigo MDB) em algumas das mais importantes cidades do estado Gaúcho, ele resolveu, e o partido decidiu que era melhor, devido ao seu desentendimento com o comandante Gomes, morar em Santa Catarina. Casado a dois anos com uma descendente de Italianos, seguiu com essa, para onde a família do sogro estava se estabelecendo.
Nessa época, primeira metade dos anos oitenta, Chapecó já despontava como grande centro no Oeste do Estado Catarina. Sua mudança fora uma jogada política. O PDT  ainda  não era forte o suficiente no estado, que na época contava com 127 municípios. Na última eleição o PDT conseguira somente quatro prefeituras.
Em pouco tempo, com o auxilio de Brizola, Seknin se tornou uma eminente figura pública e política da região. Foi eleito Prefeito duas vezes, deputado federal e agora senador.
Era a maior liderança da região oeste do estado.
Ninguém contestava seu poder de comunicação e diálogo. Brizola admirava sua capacidade de lidar com o povo mais humilde. Dispensava seguranças e andava com a família pelas ruas da cidade como se fosse um cidadão comum. Um homem simples que poderia mudar o destino de muitos com apenas uma palavra.
É claro que como todo político tinha seus rivais. Mas nenhum deles negava seu valor e o quanto era importante para o desenvolvimento da região. Era muito popular em Brasília, onde circulava livremente nos gabinetes dos ministros e até no planalto.
Ultimamente, seis meses atrás, antes de morrer, estava lidando com a obra da Usina hidrelétrica de Itá, junto aos que iriam ser desalojados pela Eletrosul. Achava que a Eletrosul,  não poderia repor o que eles iriam perder. Além do lado da terra produtiva e do lugar, havia ainda a questão financeira. Sabia das dificuldades da estatal. Estava envolvido nessa luta.  Não que  não acreditasse na necessidade da usina, e sabia que era muito necessário,  não só pela população, e por um possível blecaute, mas por proporcionar estima política quando estivesse pronta. Mas sabia que haveria um rombo no orçamento se o projeto original  não fosse corrigido.
E assim envolvido de tal maneira, passava dias em Brasília e quando vinha para casa ainda restavam as reuniões com os líderes locais e regionais.
Nos últimos meses seu nome começava a ser cotado para concorrer pelo partido ao governo do Estado. Seus amigos, e outros tantos do partido, apostavam na sua vitória.
----- Nossa mãe! Nunca pensei que fosse coisa tão grande.
---- E tem mais. Na última vez que  fez uma reunião com o Partido ele concordou em concorrer ao pleito. Todos estavam radiantes. A noticia foi publicada nos jornais e na TV. O próprio Brizola disse que iria dar seu total apoio, inclusive participar de comícios. Seus inimigos vieram logo com ataques a sua formação ideológica, vamos dizer assim. Coisa que sua gente tratou de resolver.
Faltava um mês para fazer o registro oficial de sua candidatura quando houve uma reunião informal em seu escritório, numa quarta feira, à  noite. Sua esposa estranhou lhe procurarem na residência. Suas reuniões eram sempre no comitê do partido ou na assembléia legislativa. Ela fez uma descrição do homem que visitara seu marido naquela noite. Trazia uma maleta e pouco depois, enquanto aguardava o senador, pedira  água. Ela mesma o serviu colocando um copo de  água a sua frente, sobre a escrivaninha do marido. Ele sorriu e pediu uma jarra. Disse que estava com muita sede e que não bebia nada além de água. Estranhou mas achou melhor  não comentar nada. Nem à policia contara essa particularidade. Na manhã seguinte o Senador  não levantou para tomar café. Era um homem acostumado a acordar cedo. Disseram que fora enfarto do Miocárdio. Então não via importância para falar da visita noturna. Morte natural. Pedi a ela para ver o escritório do marido. Meio relutante, sei lá , ela concordou. Deve ter achado estranho um escritor pedir para revistar o escritório do marido, mas  não disse nada. Na escrivaninha via-se uma foto do senador junto ao Presidente da Republica. Os móveis estavam empoeirados. Ela me disse que  não mexera em nada desde aquela noite. Proibira a empregada de entrar no local. Passei o dedo sobre uma almofada. Ficou um risco onde o dedo fizera seu caminho. Uma cadeira na frente da escrivaninha revelava que ela dizia a verdade.  não mexera em nada. Naquela cadeira provavelmente estivera sentado o homem que trocou as últimas palavras com o Senador. O que ele havia dito? Quem era ele? A esposa que dizia conhecer todos os políticos da região disse que ele  não lhe era conhecido. Apontei para o copo em cima da estante e ela me disse que  não mexera em nada ali dentro. Nada. Ainda sentia-se o amor, ou seria apenas agradecimento, que essa mulher lhe devotava. E ali, aquela sala, era como se fosse o santuário dessa adoração.
Disse que o copo era o mesmo que dera ao jovem para beber  água. A jarra  também estava ali, ainda com um pouco de  água em seu interior. Água de dois anos atrás. Se eu tivesse sorte...
Conversei ainda mais um pouco com ela na sala. Me convidou para ir até o cemitério na Euclides Prade, próximo ao Hospital Regional, onde estava o corpo do Senador. Disse a ela que ainda estaria ocupado naquela tarde mas que na manhã seguinte a acompanharia com muito prazer.
Antes de sair fiz a ela um pedido que relutou a atender.
Almocei na casa de minha irmã, no bairro Seminário, na  Av. Nereu Ramos. Minha mana me falou algo sobre o senador, que provavelmente esposa nenhuma diria. Disse que apesar de ser gente boa o que os outros exploravam nele era a sua pederastia. Só então eu compreendi porque  não vira nenhuma foto de criança na casa do senador.
Depois do almoço passei na 3ª DP., no centro de Chapecó. Conversei com uns conhecidos. Me disseram que o senador " não cheira nem fede", ou seja, tanto faz, era igual aos outros. Perguntei qual era o seu maior adversário na região. Surpresa!
---- Quem? Porra, conta logo, sabe que  não posso ficar muito tempo aqui. A cera do bigode pode descolar com  esse calor infernal.
Devia estar fazendo uns 38º e eles estavam fora do abrigo das sombras.
----- Ora! Que ‚ isso?! Calma garoto. Agora vem a melhor parte.
----- Tá , Então continua.
----- O deputado federal Wandok, do PT. Esse era o maior rival do senador na região. Mas eu me perguntava: Que interesse teria o "Vandokão" com a morte do Senador? Afinal ele ia se lançar ao governo! Não conseguia juntar as peças. Liguei da Delegacia para o escritório do PMDB. Pedi o endereço da viúva do deputado.
Ás três da tarde eu cheguei lá .
Era uma senhora elegante. Bem arrumada. Estava usando um vestido azul, sobre um par de sandálias com quase um metro de salto alto. A mulher sabia se arrumar. Outra vez me apresentei como escritor.
Não mencionei o fato de ter ido até a viúva do senador.
O deputado era um líder dos operários da Construção Civil. Começara a trabalhar no sindicato da categoria quando o Senador tivera o primeiro mandato como prefeito da cidade. Nessa época Wandok era apenas um estudante universitário cursando economia e erguendo a bandeira da C.U.T. ( Central Única dos Trabalhadores). Quando irromperam as greves estudantis logo se destacou pela sua personalidade forte e conseguiu ser eleito vereador. Virou presidente da Câmara e ao mesmo tempo se formou  também em Administração. Casou-se com Vera Splendensen no mesmo ano em que era nomeado Administrador Municipal, ou seja, secretário da Administração,  que foi logo após o segundo mandato de prefeito do senador, e ali constatou várias irregularidades administrativas da gestão anterior. Desvio de verbas, obras públicas sem licitação, etc.. o normal em se tratando de políticos. Quis denunciar os atos mas o presidente do  seu partido achou melhor aguardar um momento mais propício.
Dois anos depois, Vandokão descobriu que o Presidente Regional do Partido fora "chamado" para um cargo no gabinete do Governador Brizola no Rio.
Guardara todas as provas e agora que o Senador iria se lançar ao cargo de Governador teria de usá-las e  não hesitaria. Só que sozinho  não conseguiria nada. Precisava de apoio, e apoio dos grandes.
E assim começou a ter reuniões quase todas as semanas. às vezes em Brasília, outras vezes em Florianópolis. Tinha comprado recentemente um apartamento na capital do Estado, para essas reuniões.
Ficou consternado com a morte do Senador.  Não odiava o homem, apenas achava que  não era um bom administrador. Compareceu ao funeral do senador, de longe, de dentro do carro, sem ninguém perceber. Mais tarde contando à esposa, choraria no ombro dela.
No dia seguinte a morte do Senador, viajou para Brasília. Voltou no sábado e na Segunda-feira seguinte  foi até Florianópolis.
Quando voltou, na quinta feira de manhã, parecia bem mais velho, abatido. Seu ar de cansaço preocupou a esposa. Chegou e se trancou no quarto. A Dona Vera saiu logo após o almoço e  não estranhou ele  não ter descido, pois com tantas viagens já se acostumara a almoçar e jantar sozinha.
Voltou em casa ás 20:30. Depois de tomar um banho desceu até a sala. Antes passou no quarto e não viu o Deputado, imaginou que havia saído.
Na sala ligou o aparelho de som e ao  não encontrar um CD resolveu ir procurar no escritório do marido.
Ao abrir a porta viu seu esposo sentado na escrivaninha, conversando com alguém que estava de costas para ela.
Viu o olhar de repreensão que o marido lhe atirou, como a pedir que saísse. Pediu desculpas, tentou explicar que procurava um CD, enquanto isso, disse ela, o homem de costas  não se mexeu. Sentiu uma tensão  no ar. Parecia ter cortado uma conversa muito importante.
Ivair Antonio Gomes
Enviado por Ivair Antonio Gomes em 05/04/2006
Código do texto: T134134

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Sobre o autor
Ivair Antonio Gomes
Palhoça - Santa Catarina - Brasil, 47 anos
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Ivair Antonio Gomes