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O quinto HOmem - parte 23

Fechou a porta e ficou ali do lado de fora, se questionando o que seu marido estava tramando; o sentira muito triste quando chegara de Floripa. Quem era o estranho? Colou seu olho no buraco da fechadura para tentar ver quem era. O encosto da cadeira, só deixava ver seus ombros largos e os cabelos pretos, curtos, com um corte moderno.
Viu  também seu marido tomando algo de um copo. Uísque. Percebera a garrafa em cima da mesa. O estranho homem parecia  não beber  álcool, pois tinha uma jarra de água no chão ao lado da cadeira. Estranhou! Poderia pôr em cima da mesa.
Mas provavelmente Vandokão  não o deixara fazer isso, pois a mesa era de vidro e a vasilha gelada poderia, deixar o liquido na mesa cheia de papeis. O deputado era um homem exigente e muito ríspido quanto a certos pormenores. bebia Uísque a seco.
Ouviu quase sem querer, pois o que queria era ver e  não ouvir.
Ouviu o nome do Senador e  também outros nomes que o homem de costas para a porta falou.
Viu o rosto de seu marido ficar pálido.
Começaram a discutir.
De repente seu marido se levantou e veio em direção a porta. Saiu dali rapidamente temendo ser encontrada espionando. Foi até a TV, fingindo assistir a novela. Somente dez minutos depois eles saíram da sala.
O escritório do Deputado ficava a esquerda da sala de TV e percorria um corredor que dava acesso direto a porta da frente, assim evitava-se encontros indesejáveis, ou inesperados, quando seus eleitores, ou até outros políticos ali iam conversar com ele. Vera ao ouvi-lo se despedir ergueu-se e só pode ver o homem pelas costas, este nem se virou para se despedir. Engraçado, iria pensar ela depois e comentar na cama com o marido. " se vestia bem, com um terno de Tweed, mas usava botas.".
-- É estranho mesmo! Terno e botina! Devia ser algum agricultor.
---- Ela me disse que o sotaque desse homem era diferente! Conhecia a maneira do pessoal do Oeste do Estado falar e  também o sotaque dos "manezinhos" da Capital!  Não perguntou nada ao marido. Nunca perguntava! Isso ele fez questão de esclarecer quando ainda era do sindicato, em uma reunião, quando ela quis dar sua opinião sobre determinado assunto. Em casa, mais tarde, ele a repreendeu duramente, disse que ali o político era ele, se ela quisesse falar alguma coisa que falasse com as mulheres dos outros homens que iam a essas reuniões.
--- Tá  e porque você  não me enviou tudo pela caixa postal que lhe dei?
---- Cheirei carniça, meu jovem. Trinta anos de praia! -- sorriu -  Não é assim que falam aqui?! Foi fácil identificar os "outros" na praça. Todos os quatro.
---- Quatro?
---- Sim, a mulher que conversava com a garota hippie.
---- Putz, essa  não!

----- Hehehe, você tem que se cuidar melhor. Numa dessa pode se estrepar.
----- Puta merda, esses caras tão em todo lugar.
----- Escuta, eu ainda  não acabei. Presta atenção!! Dona Vera, me levou até o escritório dele e constatei que nada mais poderia fazer, pois ao contrário da Sra. Seknin, ela mantinha o local bem arejado e limpo. Naquela noite dei uma volta na cidade, fui rever antigos colegas e dormi perto das onze da noite. Ao amanhecer fui até a residência dos Seknin, e conforme o prometido, fui com a viúva até o túmulo do seu marido, desculpe,  ex marido! Uma enorme tampa de mármore todo estilizado separava de nós o senador e seus restos mortais. Fiz uma prece e deixei ali sobre a lápide do esposo, uma senhora que procurava manter-se firme e tentava prolongar o nome e a honra da família, que já  não mais existia. Caminhei pelo cemitério pensativo, quando dei por mim quase esbarrei em uma mulher que acendia velas. Estava de costas, toda de preto, e quando se virou eu a reconheci. Incrível, os dois inimigos foram enterrados no mesmo local, com poucos metros de distância e uns palmos de terra a separá-lo s. A cumprimentei e procurei voltar até o carro da senhora Seknin, onde um motorista que mais parecia leão de chácara, nos aguardava.
Ao chegar na casa do falecido peguei meu carro e fui até a delegacia geral de Chapecó.







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Pântano do Sul. 11:33




Enquanto isso do outro lado da cidade Xamã encontrava-se com o padre Henrique.
---- Sou o sócio do Marcelo. Parece que o senhor tem mais alguma coisa para dizer.
---- Sim, é verdade! Quando ele esteve aqui nós conversamos rapidamente. Logo após ele sair eu liguei para falar com o homem que havia mandado o Detetive até aqui. Fazia quase seis anos que  não conversávamos. É incrível como o cimento da cidade se torna um muro para as nossas amizades! Morávamos na mesma cidade e fazia mais de cinco anos que  não nos víamos! E tínhamos tanto em comum! Eu senti saudade do nosso tempo de claustro.
----- A saudade faz parte da carga que o tempo traz e essa mesma saudade torna essa carga pesada!!
----- É verdade. Bonito isso. Você é poeta? - Xamã fez que  não pois  não queria se aprofundar no lado sentimental.
---- Apenas estava filosofando! Continue sim!? Então o Sr. ligou para o Dr. Hausmann? E do que falaram? Ele parecia preocupado com alguma coisa?
----- Os primeiros minutos foram de saudosismo. Mas assim que eu toquei no assunto do livro ele se tornou mais curioso. Me perguntou se eu havia conseguido ler tudo; se havia decifrado os escritos! Ele queria ver o livro novamente! Ficou decepcionado, pude notar, mesmo pelo telefone, quando lhe disse que  não o tinha comigo.
----- Decepcionado pelo senhor  não ter lido todo o livro, ou por  não ter o livro?
-----  Não sei! - não insistiu mais
----- Só isso?!  não conversaram mais nada?
----- Combinamos de nos encontrar no final de semana seguinte. Tínhamos muito para conversar.
----- Então não falou mais com ele depois disso?
----- Infelizmente  não. Fiquei muito triste e nem no enterro dele eu fui. A Governanta me ligou dizendo que ele havia falecido. Ela me pareceu assustada. Disse algo sobre ele ter sido assassinado.
------ O que especificamente ela disse?
------ Eu  não sei!  Não lembro direito. Eu fiquei muito nervoso quando ela me deu a noticia, e ela  também estava nervosa.
---- Tente lembrar homem, por Deus, tente.
---- humm... deixe-me pensar - o homem pensou por alguns instantes - ...Ela me disse que havia saído de casa de manhã para ir até uma mercearia comprar o leite e uns pães para o café. Quando voltou disse que parecia que o velho já tinha batido as botas. Tentou reanimá-lo  e  não conseguiu. Ligou rapidamente para um serviço de Pronto Socorro. Logo a ambulância chegou e o levaram para o hospital Regional de São José. Era o mais próximo. Ela foi junto, ficou lá  até o médico lhe dar a noticia que nada mais podia ser feito. Voltou então para casa,  para arrumar as coisas. Arrumou o quarto onde ele estava. Em seguida ligou para os parentes e os amigos dele mais próximos, e ai lembrou de mim..
----- Puxa! E você disse que ela  não havia dito nada.
----  Eu  não gosto de falar dos outros, ainda mais sobre algo que  não me diz respeito. Como padre nós aprendemos a ouvir, perdoar e esquecer.
----- Até agora tá  conseguindo lembrar. Tem mais alguma coisa?
----- Acho que sim... é o principal. O motivo porque ela acha que ele foi assassinado.
----- E que motivo foi esse? O que a fez pensar nisso? Porque ela lhe procurou?
Ivair Antonio Gomes
Enviado por Ivair Antonio Gomes em 06/04/2006
Código do texto: T134544

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Sobre o autor
Ivair Antonio Gomes
Palhoça - Santa Catarina - Brasil, 47 anos
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Ivair Antonio Gomes