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Roleta-Russa

Quando li a manchete no jornal — “Cafetão morto com 152 facadas” — não pude deixar de pensar em minha participação nisto.

Eu havia acabado de deixar o escritório e mergulhei no chuvisco gelado. Abaixei a aba do chapéu e ergui a gola do casaco para me proteger da garoa, quando fui abordado por uma moça, envolta num sobretudo de couro, tremendo de frio.
— Lembra-se de mim, Vico?
O rosto dela me era familiar.
— Jen? — arrisquei.
Ela riu e se lançou em meus braços.
— Aceita um café? — perguntei, e fomos até uma cafeteria.

— A vida não tem sido fácil, Vico — Jen me contava. Ao contrário da maioria das mulheres que passaram pela minha vida, eu não havia trepado com Jen. Ela era filha dum antigo amigo, morto num assalto. Depois do assassinato dele, a família se desintegrou. A esposa cometeu suicídio, dois anos depois. O filho se envolveu com drogas, atualmente, cumpre pena na Penitenciária de Columbus; e a filha, Jen, afundou-se na prostituição.
— Seu pai foi uma grande perda... — externei, mas não era sobre isto que ela queria falar.
— Você soube do caso da prostituta assassinada? — Jen indagou.
— Ouvi rumores.
Havia aparecido nos jornais. Alguém caçava nas matas circundando a cidade e seus cães farejaram algo. Cavaram perto duma árvore e encontraram um cadáver em decomposição. Estava lá há três semanas. Reconheceram-no como sendo duma prostituta, especularam que poderia ser vingança, ou um tarado qualquer. Nada extraordinário nestes nossos dias insanos.
— Ela era minha amiga, Vico. Eu tenho quase certeza de quem foi o desgraçado que a matou, mas não tenho como confirmar isto. Por favor, eu lhe peço que me ajude — Jen tirou do bolso um maço de dinheiro e o deslizou por sobre o tampo da mesa.
Beberiquei o café e apanhei o dinheiro. Até pensei em rejeitar a grana, prestar uma homenagem ao finado pai da moça, mas eu não podia me dar este luxo.
— Realmente, a vida não anda nada fácil, Jen.

O suspeito da moça era um russo chamado Grigor Ivanovich, alcunhado “O Roleta”. O apelido devia-se ao estranho hábito que ele tinha de flertar com a morte. A grande diversão de Grigor era brincar de roleta-russa. Cultivava este hábito há anos e escapou de explodir os miolos uma dezena de vezes. Na última ocasião, tão conhecedor desta arte, ao ouvir a combustão da pólvora, ele conseguiu desviar a arma em fração de segundos e sobreviveu com uma cicatriz que lhe cortava a cabeça dum lado ao outro das têmporas. “Eu tinha certeza que, naquela noite, eu deveria ter morrido. Como escapei, acho que não morro mais”, Roleta propagava entre os amigos.
Roleta era uma figura conhecida. Bastou eu chegar na Cidade Baixa para encontrá-lo, flanando pelas esquinas, dando esporros nas putas, gerenciando seu negócio, recolhendo a grana dos programas.
De todas as maneiras possíveis para proceder a investigação, refleti que uma abordagem direta seria mais eficaz, assustaria o cafetão e não me faria perder muito tempo, pois o dinheiro pago por Jen não era dos mais vultuosos.
— Você é O Roleta? — perguntei logo, tentando intimidá-lo.
— Sou eu. E você, o que quer? — Grigor retrucou na mesma moeda.
— Tenho um particular contigo, sobre uma das suas meninas.
Ele devia estar acostumado a receber clientes insatisfeitos com as putas, que queriam o dinheiro de volta, ou porque foram roubados. Grigor me puxou para um beco.
— Vai falando — ele me encarava.
— Chegou aos meus ouvidos que você matou uma das garotas que trabalhavam pra você — fui claro.
Roleta arregalou os olhos, como se um grande segredo houvesse sido desvelado. Ele pôs as mãos no bolso.
— E eu tiver feito isto? O que você tem a ver?
Provavelmente, Roleta deveria estar armado, por isto, a primeira atitude seria privá-lo do brinquedo. Desferi um soco em Grigor, quebrando-o o nariz, avancei e imobilizei o braço dele, aproveitando para esfregar a cara do bastardo na parede do beco. Sem força no braço, ele deixou cair o revólver.
— Pode contar tudo — sussurrei no ouvido do cafetão.
Mas o canalha não era nenhum bundão. Ele começou a se debater, acertou uma cabeçada na minha boca e, muito mais jovem e forte do que eu, se libertou. Com o jogo invertido, ele me esmurrou, pisoteou-me e cuspiu na minha cara, encurralando-me cada vez mais no beco.
Juro que tive medo daquele homem, nariz ensangüentado e ódio no olhar. Roleta sacou uma faca, vinha em minha direção. Eu, no chão, me arrastava para trás, para fugir daquele assassino.
— Você deve ser muito imbecil mesmo, para vir no meu território, tirar satisfação do que faço ou deixo de fazer. Aqui, seu viado, sou eu quem manda! Aquela vagabunda morreu porque era uma puta desgraçada. Me roubava, mentia pra mim, fazia tudo pra me sacanear. Tudo tem limite. Uma hora, meu saco encheu e dei fim nela. Qual o problema? Estas putas não servem pra nada mesmo!
Pelo menos, eu já tinha uma confissão do Roleta. Puxei a arma da cintura e apontei pra ele. Foi então que vi alguns vultos atrás do Roleta.
— Vico, levante-se e vá embora. Já sabemos o que queríamos saber — era a voz da Jen.
Ergui-me e vi uma vintena de prostitutas, canivetes, punhais e navalhas nas mãos. Agora o assunto era entre Roleta e elas; agora, ele descobriria pra quê as putas serviam.
Ouvi gritos de horror e dor ao sair do beco.

Na manhã seguinte, a tal manchete no jornal.

Esbarrei-me em Jen alguns meses depois, pelas mesmas ruas da Cidade Baixa. Agora, quem desfilava pelas esquinas metendo medo nas putas era a própria Jen, ela havia assumido o comando.
— Agora entendi tudo, menina — comentei, sem conseguir conter o riso — Você me usou para poder assumir o lugar do Roleta.
— Tudo que sobe, desce, Vico. As garotas estavam insatisfeitas, só precisavam dum estímulo. Não tinham coragem. Precisavam dum homem como você para servir de estopim.
— E você está tratando as meninas melhor? — questionei.
— Nem melhor, nem pior. Eu as trato do que jeito que elas merecem — Jen respondeu, como se houvesse nascido cafetina.
— Mas se cuide para que você não tenha o mesmo fim do Roleta, toda furada.
— É como dizem, Vico, o mundo roda, mas sempre volta para o mesmo lugar.

(Extraído do livro "O Covil dos Inocentes" - www.covildosinocentes.blogspot.com)
Henry Alfred Bugalho
Enviado por Henry Alfred Bugalho em 27/08/2007
Reeditado em 10/01/2009
Código do texto: T626626
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Henry Alfred Bugalho
Estados Unidos, 36 anos
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Henry Alfred Bugalho