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A PENSÃO DO PONTO.



Corria o ano de 1951. Naquele tempo ainda não existia a Polícia Militar, que surgiu  com o advento da chamada revolução ou como querem outros, golpe de 1964. As forças  policias fardadas da época eram a Força Pública (uma espécie de PM) e a Guarda Civil que era constituída por um pessoal de elite e destinada à segurança de  locais públicos, tais como cinemas, teatros, etc. Quanto à Força Pública , sua função era de policiamento ostensivo e de repressão.

Valdério, soldado da gloriosa Força Pública do Estado de S.Paulo, servia num destacamento do interior, na cidade de Taquaritinga, vizinha de Araraquara. Paraibano grandalhão e não muito dado a conversas.

A rua principal da cidade contava com duas pensões, uma ao lado da outra, separadas apenas por uma rua lateral:  A Pensão do Ponto e a Bem-Te-Vi. Maria do Socorro , loirinha bonita, chegada a pouco  da roça, estava empregada na Bem-Te-Ví, quando Valdério a conheceu na praça, num dia de domingo. Algum tempo depois começaram a namorar. Inicialmente, ela deslumbrada e ele totalmente apaixonado.
 
Meu pai,  filho de portugueses, era o proprietário da Pensão do Ponto, onde a família morava e trabalhava. Já a Bem-te-ví não me recordo a quem pertencia.
         
A atividade numa pensão que servia - a exemplo dos hotéis - café da manhã  e duas refeições diárias começava muito cedo, praticamente de madrugada. Embora contasse com alguns empregados, os donos metiam literalmente “a  mão na massa” , ajudando-se  mutuamente.
 
Logo que se abriu o bar, sábado bem cedo, começou o afluxo de pessoas que se dirigiam para o trabalho e paravam ali, rapidamente para tomar uma média, acompanhada de pão com manteiga. Um ou outro pedia uma pinga, mas àquela hora do dia não era muito comum e Valdério  já tinha tomado duas.

Conforme nos relatou o copa, o policial naquele dia estava bem agitado, pois fora transferido e pretendia levar consigo a Maria do Socorro que, ao que parece, não pensava em se mudar. A coisa já vinha se arrastando a algum tempo, só que a decisão não poderia mais ser adiada. Não havia outro jeito, tinha que convence-la de qualquer maneira.

Após mais uma pinga, Valdério deixou o bar e atravessou a rua em direção à Bem-Te-Vi, decidido a resolver a questão de uma vez por todas. Enquanto na nossa pensão, na cozinha, a atividade continuava, já com o preparo do almoço.

Do outro da rua, a Socorro discutia com Valdério... De repente a tragédia... Foram três tiros. O primeiro atingiu o coração da moça, matando-a quase que instantaneamente, deixando-a prostrada numa poça de sangue à beira da calçada. Dos outros dois , um passou de raspão e atravessando a rua foi alojar-se na parede da nossa cozinha, ao lado da geladeira, após ter passado centímetros acima da testa do meu pai. Já o  terceiro projétil atingiu em cheio a cabeça do policial, que estatelou-se no chão ao lado do corpo da sua amada.
         
Garoto,  lembro-me  de ter divisado  – pela veneziana da cozinha - os corpos na calçada e o caminhão que chegou para recolhe-los, jogando-os na carroceria, sem qualquer cerimônia.

Recordo-me também da multidão que acorreu ao local, mais interessada em saber detalhes do acontecido com a segunda bala, do que praticamente com o desfecho do caso. Não obstante, passado alguns dias, ninguém mais comentava o acontecido... E a vida seguiu em frente, mas a bala, esta continuou encravada na parede da cozinha, como  testemunha presencial da tragédia.


EMILIO CARLOS ALVES
Enviado por EMILIO CARLOS ALVES em 26/10/2005
Código do texto: T63735
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Sobre o autor
EMILIO CARLOS ALVES
Santos - São Paulo - Brasil, 69 anos
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EMILIO CARLOS ALVES