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A dor dói, companheiro.

         Nem sei se sentia dor, nem sei se estava enxergando alguma coisa, mas entendi uma ordem abrupta que me mandou entrar numa saleta fétida e úmida. O sol se apresentava tão tímido que me causava uma melancolia, lembrei-me do fim de tarde na faculdade, lembrei-me dos colegas que me cortejavam, mas sentiam medo de se apresentar como pretendentes, talvez fosse o meu jeitão de revolucionária. Enfim, o que me tocava violentamente agora era uma mão rude que me empurrava com uma violência sem medida.
        - Entra, comunista desgraçada! Essa foi a alcunha que me coube por querer ser contra esse regime famigerado.
        Minha roupa foi rasgada com uma força que me assombrou, e assim começou um dos momentos mais tristes da minha vida, e mais humilhantes também, uma tortura física e psicológica sem fundamento, uma exibição gratuita entre dois militares de uma estatura não considerável, mas que se revestiam de uma autoridade que não cabia neles.
        Colocaram duas latas, daquelas de salchica, no chão e mandaram que eu colocasse um pé em cada uma e ficasse de pé sobre elas, e assim fiz; nua, humilhada e invadida. A dor era suportável, até que as latinhas entortavam e começavam  a perfurar meus pés. Quando eu caía, eles me bofeteavam e mandavam que eu subisse novamente, e isso se repetiu por um longo tempo, até que eu desmaiasse de cansada. Mas não adiantava desmaiar, logo entrava uma pessoa, não sei se médico ou enfermeiro, e me reanimava, daí as torturas continuavam.
        Quando eu pensava que tudo havia terminado e que eu voltaria pra minha cela, num corredor comprido e abarrotado de outras tantas celas imundas e desprovidas da luz do sol, eles me amarravam de cabeça para baixo e me eletrocutavam, com fios presos em minhas pernas, braços e seios, tudo muito humilhante. Mas uma motivação ainda havia de me manter viva: um feixe de luz do sol adentrava à sala e me dizia que valia à pena viver, era por isso que eu resistia, porque eu via o sol, eu via que outros dias viriam e eu poderia vencer os opressores insanos e onipontentes que me penetrevam e arrebentavam todos os meus sentimentos de cidadã.
        Quando voltei à cela asquerosa só consegui chorar, pensando na minha impotência diante dos fatos e pensei em desistir da luta, mas talvez fosse isso que os algozes quisessem, que nós negássemos nossas idéias, e então me controlei um pouco, dormi.
        Para evitar que minhas idéias se embaralhassem e eu enlouquecesse, aproveitava os curtos momentos em que o sol iluminava a minha cela e ficava em pé lendo Cem anos de solidão, só asism eu mantinha viva as minhas aspirações, só assim, mergulhando num universo tão poetizado, é que eu evitava que minha razão escoasse pelos esgotos e os ratos gordos a devorassem com celeridade. As minhas aulas imaginárias, onde eu organizava uma sala e fazia o papel de professora, sendo por isso que,  muitas vezes, eu levava boas surras dos sensores do vil regime que comandava o meu Brasil. E assim eu segui, com medo de já ter enlouquecido e não ter percebido, até que um dia recebi a ordem para sair da prisão.
        Assim que saí do claustro que me foi imposto, estranhei tudo, o sol era bem maior do que eu estava acostumada a ver, as pessoas andavam num ritmo bem distinto do meu, as esquinas cuidadas por soldados mal-encarados, e assim se deu, o mundo seguia doido, seguia ferido pela ditadura burra que me machucou profundamente.
        Meses depois chegou uma carta cujo remetente me causou arrepios: FORÇAS ARMADAS DO BRASIL. Estremeci, mas segui abrindo o envelope e, tamanha a surpresa, quando li uma retratação expicando que o que tinha acontecido comigo não passara de um engano, mas que não se desculpariam, uma vez que o acontecido serviria de exemplo, e que exemplo. Independente disso tudo, guardo comigo a consciência de ser uma revolucionária, e me orgulho disso.
        Hoje me sinto incapaz de sair à rua e não temer quando vejo um militar, não diria que sinto nojo, isso eu senti quando me encontrava nua no chão imundo da cela, comungando com ratos e fezes um espaço desumano, degradante, na verdade o que sinto é uma raiva por ver que o poder levou esses miseráveis humanos a pensar que poderiam, por intermédio da violência impensada, controlar uma situação que excluía a maioria dos brasileiros das decisões da nação. Não me arrependo de ser quem sou, só me arrependo de não ter conseguido ser um pedaço da vitória do povo contra o opressor. Vivo, e isso me mostra o quanto eu posso ser forte.
Marcelo Viana
Enviado por Marcelo Viana em 21/09/2007
Código do texto: T662803
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Sobre o autor
Marcelo Viana
Fortaleza - Ceará - Brasil, 34 anos
13 textos (613 leituras)
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Marcelo Viana