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O incêndio na refinaria

A coluna de fumo engrossava a cada momento. Era para os lados do mar. O alarme continuou a berrar e todos procedimentos de evacuação e segurança estavam activados.
Operários e técnicos saíam dos seus postos de trabalho convencidos que era mais um exercício, mas ao depararem com a coluna de fumo apressavam nitidamente o passo.
De repente o chão tremeu e de seguida ouviu-se o forte estrondo de uma explosão. Mais  explosões se seguiram. Talvez quatro ou cinco, as labaredas eram agora enormes e o fumo multiplicou-se, devia ser visível a quilómetros de distância.
O corpo de bombeiros privativo da refinaria já atacava as chamas com a espuma transportada nos depósitos dos camiões pronto-socorro e deviam estar a chegar os reforços das corporações de Leça e de Matosinhos. O incêndio metia medo e a ETAR estava tomada pelas chamas.
No edifício principal, na ala destinada aos serviços de segurança, vários técnicos observavam atentamente as imagens provenientes das câmaras de vigilância, enquanto outros se desdobravam em telefonemas e consultas aos monitores dos computadores.
Depois de dar as instruções que julgou necessárias o inspector Neto, chefe dos serviços de segurança da refinaria, vestiu o blusão e saiu levando consigo um dos rádios.

Conduziu o Fiesta verde fluorescente do serviço de segurança ao longo da avenida norte em direcção ao mar e pensou no que aconteceria se, por azar, o incêndio fosse nos depósitos de gasolina que ficavam no lado oposto. Ao aproximar-se começou a sentir o cheiro acre da combustão dos resíduos acumulados na ETAR.
“ É sempre a mesma merda, os gajos não ligam nenhuma, agora eu que me tenho de desenrascar” pensou o inspector Neto, que já há várias semanas tinha feito um relatório, dando conta do perigo que representava toda aquela lama empapada em hidrocarbonetos, que enchia a estação de tratamento de águas residuais.
Através do rádio chamaram-no da central a perguntar se seria preciso acudirem os bombeiros privativos do aeroporto. Na dúvida, disse que sim, parou o automóvel, pendurou ao pescoço a máscara antigás, pegou no rádio e encaminhou-se para onde estava o chefe da equipa de bombeiros.
O chefe Reis berrava para apontarem uma das mangueiras que jorrava espuma, para um dos cantos onde as labaredas estavam mais assanhadas e ameaçavam atingir a bacia seguinte.
Mesmo àquela distância o calor era intenso, trespassava rapidamente o grosso blusão que trazia vestido. Os seus homens estavam equipados com fatos térmicos, próprios para estas emergências, mas tinha a certeza que suavam copiosamente.
Duas horas depois, com o fogo circunscrito, praticamente extinto, dirigiu-se aos comandantes das outras corporações que tinham vindo ajudar no combate. Dos jornalistas que se encarregasse o tipo das relações públicas, um palhaço engravatado que a esta hora estava a contar histórias de fadas às televisões. “ O ambiente é a nossa prioridade, está tudo acautelado”, “arderam somente uns detritos, infelizmente fez muito fumo”, “não, não, não oferece qualquer perigo, não é tóxico”.

Durante a tarde e a noite foram executados os trabalhos de rescaldo e logo na manhã do dia seguinte o inspector Neto e o Chefe Reis foram vasculhar nos escombros, alguns deles ainda fumegantes. O cheiro era intenso e provocava vómitos, apesar da brisa marítima que levava para sul a pestilência.
- Ó chefe afinal onde é que isto começou?
- Quando cá cheguei isto já ardia tudo, foi um pouco antes das explosões.
- Não pode ser. As explosões deram-se ao serem atingidas as lamas do tanque quatro e cinco, não pode ter começado aí.
- Nisso tem razão, inspector. Só pode ter começado no tanque de recepção… ou no decantador primário.
- Vamos lá ver. Por aí não, vamos à volta, quero ver do lado da vedação.
No descampado entre a ETAR e a vedação que separava a refinaria da Avenida marginal de Leça nada encontraram de relevante para o esclarecimento do incêndio. Entraram na sala dos quadros eléctricos mas apenas verificaram que os disjuntores estavam todos disparados, sem qualquer sinal de curto-circuito.
Junto do tanque de recepção procuraram em vão alguma pista esclarecedora. Estava tudo queimado mas a carga térmica ali não devia ter sido muito grande, havia partes metálicas que estavam intactas, apenas a tinta tinha desaparecido.
- Chefe, venha cá ver isto…
- O quê? Carago, que é isto preto?
- Isso queria eu saber. Sei lá, desaparece na erva…
- Ó inspector Neto, isso é cinza, vamos ver para onde vai.
- Vai em direcção à vedação, está a ver, segue por aqui fora e passa a rede.
O chefe Reis tirou o boné, passou a mão pela careca e resmungou:
- Só faltava mais esta merda…
- Pois, pois, já vi que entendeu. Isto foi sabotagem, algum safado ateou fogo lá da avenida. Esta cinza deve ser de uma espécie de rastilho que estava aqui estendido e que depois da ignição foi puxada através da rede, para não deixar vestígios.
- Filhos da mãe, bem pensado, daqui até à vedação ainda são uns cinquenta metros…
- Ó chefe, quem fez este trabalhinho é cá de dentro, só alguém com acesso a esta zona podia estender e disfarçar entre a erva o cordão de rastilho e a fonte de detonação, talvez uma garrafa de gasolina ou algo semelhante. Chefe Reis, vou isolar de imediato esta zona e só com minha autorização é que alguém passa as barreiras.
- E não informa a polícia do que descobrimos?
- Para já não. Informar a polícia é pôr a notícia nos telejornais em menos de uma hora. Tenho outra ideia e quero tirar isso a limpo, já.

Ao chegar ao seu gabinete chamou os seguranças de serviço na hora em que deflagrou o incêndio e concluiu que não tinham visto nada de estranho.
“Raio de lorpas, andam sempre a dormir” e atravessou o corredor em direcção à central de vigilância. Controlavam mais de oitenta câmaras de alta definição, muitas delas com sensores de infravermelhos que detectavam todas as fontes de calor anormais ou inesperadas.
Esperou dez minutos até o Freitas, um dos técnicos da secção acertar com as imagens da câmara que pretendia, à hora da deflagração.
A câmara montada numa torre que também alojava vários holofotes de iluminação, mostrava a vedação ao longo da avenida Coronel Hélder Ribeiro, junto ao mar. Viram aproximar-se um automóvel, que parou na berma, saiu o condutor que se encostou à vedação, parecia urinar. De repente agitou-se e começou a puxar algo freneticamente. Do lado da ETAR saia uma pequena labareda e o fumo elevava-se. Quando voltou a fixar a atenção na vedação, verificou que o automóvel se afastava rapidamente
- Chame-me os seguranças que costumam estar de serviço no parque de estacionamento. Algum deles deve conhecer aquele carro.
- Mas porque é que hão-de conhecer o…
- Porque é de alguém cá de dentro. Chame lá os seguranças e interrogue-os, que eu estou à espera no meu gabinete.

Minutos depois tocou o telefone e o Freitas revelou, todo excitado, que o automóvel pertencia a um engenheiro a quem a administração não tinha renovado o contrato, que tinha terminado dois dias antes.
Brito Ribeiro
Enviado por Brito Ribeiro em 03/12/2007
Código do texto: T763028
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Sobre o autor
Brito Ribeiro
Portugal, 60 anos
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