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MORTE NO BURACO TRÊS

Contrariando os seus hábitos, Wanderley tinha acordado cedo naquela manhã chuvosa e fria. Tomava café no Departamento de Polícia com seu parceiro de ronda, quando recebeu um chamado. No Jardim Ceci, Planalto Paulista, num clube de golfe da cidade, um assassinato acontecera. Wanderley tinha rosto fino, moreno, cabelos raspados, forte e estrábico. Era um homem sem "rabo preso". - Não tenho nada a temer. - Era o que sempre dizia a seus subalternos, entre eles, seu companheiro de ronda, Um mulato de um metro e noventa e cinco de altura, braços de halterofilista, óculos escuros, peitoral descomunal, mãos enormes e com uma cara de mal. Quanto aos métodos de investigação criminal, algumas coisas coincidiam outras diferiam com a vida real.
Wanderley desceu da viatura policial, caminhou devagar sobre a grama e deteve-se diante do corpo inerte. Ao primeiro golpe de vista lhe pareceu que a vítima era um homem de uns cinqüenta anos, certamente gozados em boa saúde. Seus olhos entreabertos e vidrados eram azuis, e os cabelos, brancos. Pareceu-lhe também que os traços vigorosos daquele rosto agora paralisado pela morte sugeriam em vida, apesar da cabeleira branca, uma obstinada permanência da juventude. Também lhe pareceu evidente o aspecto distinto do finado. Seu relógio de ouro e seu terno e sapatos italianos não deixavam dúvidas quanto a uma situação folgada, o que já se deduzia pelo local onde o corpo foi encontrado. E isso era im-portante. Os pobres de hoje não exageram quando afirmam que não têm onde cair mortos. E aquele corpo descansava em paz estendido sobre a relva. No dia seguinte, com a mesma frivolidade e com o mesmo luxo com que sempre vivera, seria enterrado em meio a um luto elegante.
- Quem é esse sujeito aí? - Perguntou Wanderley notando a presença de um rapaz aleijado de pele escura.
- Moço, eu... – O rapaz tentava balbuciar alguma coisa. Sua roupa era puída pelo tempo. Usava uma camiseta do Flamengo e uma bermuda rasgada. Nos pés um chinelo de dedo. Suas mãos debilitadas tentavam se agitar.
- Cuide desse negro, parceiro. - Ordenou ao armário.
- Vamos embora! Sem dizer um pio! - Dizia ao pobre rapaz, enfiando-os no banco de trás sumindo com ele.
O policial agora passeava pelo local. Observava sem muito entusiasmo as pistas deixadas no local do crime. Wanderley inclinou-se sobre o corpo inanimado e aproximou-se mais dele, de cócoras. Com a ponta dos dedos moveu ligeiramente o torso tombado sobre a relva, fazendo com que a cabeça mostrasse melhor o lado ferido. Cuidadosamente, abriu com os dedos uma fenda na revolta cabeleira encanecida. Ali estava, profunda, impressionante, a fonte de tanto sangue vertido sobre o peito, os ombros e as costas.
- Foi rápido... Fizeram-lhe uma ferida muito feia. – Disse apenas, e olhou o relógio.
Quando Wanderley se pôs novamente de pé, afastou-se alguns passos para facilitar o trabalho dos peritos. Um deles aproximou-se para lhe mostrar um objeto que brilhava.
- Foi com isto, policial. E parece que o pau se partiu com o golpe... – E o perito lhe indicava o extremo metálico de um taco de golfe. A ponta estava firmemente presa a um pedaço de madeira que fora violentamente quebrado alguns centímetros acima da junção. – Encontramos aqui bem perto do corpo da vítima, escondido sobre a relva. Como esperávamos, não há pegadas de qualquer espécie.
- Quer dizer que com o golpe de um taco de golfe... Encontraram a outra parte?
- Encontramos. Está ali. Encontramos depois de atravessar aquele riachinho, no caminho que deve ter tomado até uma das casas...
- E encontraram impressões?
- Nada.
- Mas era a empunhadura, não era?
- Veja, Wanderley, encontramos esta peça quase que enterrada totalmente na água e na lama, entre as pedras e as plantas do pequeno riacho. Não existe a mínima possibilidade...
- Compreendo... Mas de qualquer maneira guarde-a bem. Certamente alguma coisa iremos encontrar em tudo isso... E a mulher? Onde está a mulher?
- A mulher, claro... Recebeu um forte choque. Foi a primeira a ver o cadáver... Levaram-na para uma clínica particular... Sob custódia, é claro.
- Mas não a interrogaram?
- Sim, policial. Ligeiramente. Mas sem muito resultado, porque suas primeiras declarações foram bastante incoerentes. Dissemos a ela que teríamos que incomodá-la novamente, apesar da sua dor.
Wanderley fez uma careta ao escutar as últimas palavras.
- Apesar de sua dor, hein? Se todas as dores fossem como as dessa mulher não existiriam sofrimentos sobre a face da terra. Conheço muito bem esse tipo de gente. Agora muito pranto, muito luto e desmaios. Mas veremos mais tarde, quando os advogados começarem a tratar da herança. O pranto por fora e a contabilidade por dentro.
- Uma viúva alegre?
- Sim. São sempre assim as viúvas ricas. O marido morre e não tarda muito aparece outro...
- E o negro?
- Seu parceiro o levou. Era o carregador dos tacos. Caddy na gíria do golfe. Trata-se de um pobre coitado e está muito assustado. Não creio que tenha sido ele...
- Jamais acredite em nada, policial... E muito menos acredite num negro. – Disse Wanderley. – Para se livrarem da polícia, eles são sempre assim, teatrais. Compreendeu bem o que estou dizendo?
- Estou. É isso mesmo.
- E o outro?
- O amante?
- É.
- O pai já começou logo a se movimentar.
- Já calculava, policial. – Disse Wanderley. – Na certa não pensou dois segundos em ir à procura de um bom advogado. Deve ter ido procurar todos os seus amigos influentes, todos seus contatos, sem perder um minuto... Mas nós também não vamos perder o nosso tempo. Vamos...
Antes de ir embora, Wanderley sorrindo foi até o declive que conduzia ao riacho e dali olhou para a parte residencial do lugar. As casas eram mansões imponentes, verdadeiros castelos da era moderna.
- Vou ter que levar alguma vantagem nessa história... – Proferiu antes de voltar para o Departamento de Polícia.

O pai do rapaz parecia tranqüilo demais em seu terno italiano azul-marinho. O rosto redondo esboçava um sorriso, como se naquele momento não se tivesse elucidando um as-sunto de tal importância.
O rapaz usava uma camisa de marca famosa colada no corpo escultural, mas “suava em bicas”.
- Não tenho muito tempo a perder. – Disse por fim Wanderley. – Embora para mim esteja claro.
- Não, nem tudo está claro. – Protestou o rapaz, pondo-se em pé num salto.
- Deixe o policial falar, meu filho. – Ordenou o pai, trocando por uns segundos o sorriso por um gesto de aborrecimento
Wanderley continuou:
- Vejam bem, não sei se lhes será fácil compreender que para mim, desde o princípio, logo que soube que o cenário do crime era esse campo de golfe... Para mim, repito, ficou claro que se tratava de um caso... Como direi... Célebre, um fato incomum, nada rotineiro, mas um crime elegante. Deveria ter um termo judiciário para definir a idéia que tenho enrustida na cabeça... Mas o fato é que os nossos códigos penais são frios e severos, de forma que só encontro um termo, e feio: assassinato. E é assim que julgarão os juizes, o grande público e os jornalistas. E tem mais: certamente todos eles manipularão com descuido a realidade e no final ninguém irá saber ao certo o que verdadeiramente se passou. Este é um caso singular, que presta muito à fantasia e aos cochichos. Procurem ver a coisa de fora, como eu: um homem rico no ocaso da vida, um jovem apaixonado, uma mulher ardente, prisioneira de um marido severo e bem mais velho. Então o que temos? Um triângulo amoroso que irá terminar num desenlace violento. Fora de qualquer consideração policial, não acredito que posa ter havido outra saída. Para mim, esse desenlace foi totalmente compreensível.
- O senhor fala de um rico, de um jovem, de uma mulher, mas esqueceu de uma peça do jogo, policial.
Olharam com raiva para o rapaz. Ele tinha uma fisionomia feroz e os punhos fechados. Wanderley lhe respondeu, com bom humor:
- Ah, é? E qual é a peça que esqueci de mencionar? Pode ter a bondade de me iluminar a memória, meu caro Watson?
- O negro... O senhor esquece que ele também estava ali, e que quase nunca se afastava do falecido. Nós estávamos distantes... O negro... O que me diz dele?
- Que rapaz brilhante! O negro... Então meu caro jovem pretende romper o triângulo, não é? Muito bem. Podemos acrescentar o negro, se assim o quer. Mas não sei, ele me parece bastante deslocado. E aí já não teríamos um crime tão elegante. E qual o motivo? Teríamos que encontrar um motivo convincente. Convincente para mim, para o juiz e para os demais. O que me sugere o senhor? O carregador de tacos, o caddy negro era como um objeto móvel, e a peça que matou o homem movia-se impulsionada por força própria. O golpe foi desfechado com grande vitalidade. Chegou inclusive a quebrar os ossos, além de causar uma ferida feíssima. Um golpe daqueles não pode ser atribuído a uma moça frágil, delicada, a quem só a presença do sangue dá náuseas: e muito menos a um negro anêmico, sem vontade própria, e ainda por cima com as mãos tortas. Além disso, ele não tinha motivos, e isso é muito significativo. Ninguém mata por esporte. Em princípio é minha obrigação duvidar de todos, mas pouco a pouco vai clareando em minha mente o perfil do verdadeiro criminoso. É uma coisa fácil, depois que o costume ajuda aplainar o caminho. Depois de tanto tempo nessa profissão, o senhor compreende? Se nos deixarmos levar pela aparente inocência de todos, aonde iremos parar? À conclusão de que foi um meteorito que matou o pobre homem? Se se tratasse de um tiro de revólver, então poderíamos pensar em suicídio. Mas para tratar disso a criminalística também tem seus recursos. O fato é que, tarde ou cedo, a luz sempre aparece.
O rapaz, que olhava com ira e arrogância os gestos teatrais de Wanderley, reforçou seu comentário golpeando com o punho a palma da mão:
- Genial! E tudo isso que o senhor acaba de dizer prova que só pode haver um assassino: eu. Não é isso?
- Não se apresse tanto, meu amiguinho. O que eu disse foi uma introdução.
Com calma premeditada e enervante, Wanderley mostrou a peça de convicção: era pequena brilhante. Tratava-se da extremidade metálica de um taco de golfe. Em seguida, apanhou o restante da madeira e o ajustou harmoniosamente. A parte superior tinha iniciais douradas gravadas. Colocou tudo sobre a mesinha do centro e por alguns segundos não disse nada. Em seguida prosseguiu:
- O falecido morreu em conseqüência de um golpe... De uma tacada de golfe. Uma tacada de mestre, impecável, sóbria, elegante. Como só um bom golfista pode fazê-lo. O falecido era um desportista apaixonado, jogava quase todos os dias. Jogava e perdia. Porque era um novato? Não. Simplesmente porque seu adversário cotidiano era um jovem, um atleta, filiado a liga de golfe de São Paulo, e além do mais, dominado por profundo rancor.
Wanderley deteve-se para medir a reação dos dois homens, que trocaram olhares, contrariados. Agora o rapaz suava, apesar do ventilador, mas ainda não se considerava vencido:
- Mais uma vez o senhor não está levando em conta o negro. Potencialmente, um bom caddy é também um bom jogador de golfe.
- Com aquela mão? O senhor tem obsessão com o negro. Mas vamos aceitar suas ponderações, vamos levá-la em conta. Mas existe mais alguma coisa... Aproximem-se. Este taco tem aqui estas iniciais, que são de incalculável valor para que se possa identificar seu dono. Os senhores poderiam me ajudar?
Silêncio.
Wanderley voltou com mais força:
- Meu jovem, teria a bondade de checar o seu equipamento esportivo para ver se lhe falta isto?
- É... É meu.
- É seu. Eu sabia. E agora lhe explico. A parte dura tinha marcas de sangue. O sangue da vítima. Estava ali perto, a uma distância lógica, se consideram os fatos dentro de suas possibilidades. A outra parte estava jogada num lado do caminho que conduz a esta casa. Nestes casos, um velho policial pensa logo que o assassino estava atordoado e que não cuidou de jogá-la mais longe. Isso ocorre quando não há premeditação, o que vale como atenuante. Assim... Bem, creio que não pode haver dúvida a respeito da procedência deste objeto, não é verdade?
- Sem dúvida, mas isso absolutamente não prova nada.
- O senhor disse que tinha retornado a casa por outro caminho e não por este. Por que fez isso?
- Para não me encontrar com ele.
- Ou para despistar.
- Não minto!
- Cale-se! – Interveio o pai. – E vamos logo acabar com isso. Deixe o policial continuar.
- Deixe que ele desabafe. Acontece sempre assim. A coisa mais natural do mundo é a defesa em causa própria. Mas não há mais remédio... Que acha o senhor?
O pai ficou calado.
Wanderley observou o pai do rapaz e sorriu, triunfante. O velho, então, já perdera o seu aspecto sereno, e a ira do rapaz se escondera por trás do medo. Ambos estavam à mercê do policial, encurralados. Wanderley traçara um plano com objetivos muito pessoais. Naquele instante estava cumprindo uma etapa fundamental: assegurar que os fatos não admitisse outra variante que não a sua. Levados a um beco sem saída, para Wanderley só lhe restava uma solução decorosa, e ela tinha um preço, um preço em cifrão.
- Amar uma mulher alheia nunca foi coisa simples. Sempre existe uma terceira pessoa, e nunca sabemos como ela irá raciocinar. É então que se forma o famoso triângulo. Começam a entrar no jogo diversos fatores, interesses pessoais, sentimentos. Alguns aceitam a situação e passam a viver anos num mundo ambíguo. Outros não se conformam e acabam com o triângulo, enquanto outros defendem a linha a todo o custo, chegando mesmo a matar.
O rapaz voltou a falar, desta vez bem devagar, mas tentando imprimir às palavras um tom irônico:
- No princípio o senhor policial, disse que se tratava de um crime elegante. Para defender esta idéia, negou-se a considerar o negro suspeito. No entanto, não faz mais do que insistir numa simples e vulgar história de infidelidade. Seria melhor que sacudisse um pouco o criado, que lhe quebrasse alguns ossos e o fizesse confessar.
O pai ia recriminá-lo, mas deteve-se ante um gesto de Wanderley:
- Deixe que ele fale. É bom. Com isso está ajudando em meu trabalho. Cada elemento que surge é mais um dado contra ele, mas ele não sente isso. Está cego, quer se livrar de qualquer jeito. Quer que levemos o negro em consideração? Acha necessário que eu suas declarações antes de formado o júri?
- O negro mente para salvar-se... Mas se o apertarem...
- Sim, pode ser que esteja simplesmente se defendendo, mas faz isso com mais inteligência do que o senhor. E quanto a apertá-lo... No momento ele está atrás das grades e já o sacudimos bastante. Não dá mais. Tudo isso enquanto temos que vir procurar o senhor em sua casa, ao lado do papaizinho... E ainda se queixa!
- Aquele escravo!
- Está bem, está bem! – Interrompeu o pai. – Nada adianta prosseguirmos com esta polêmica... Escute, policial, podemos falar a sós, eu e o senhor?
O rapaz não teve outro remédio senão ir embora. Mas da porta lançou um último olhar furioso; em seguida bateu a porta com força.
- Está muito alterado, o senhor deve desculpar a sua maneira rude...
- É natural.
- Compreendo perfeitamente que o meu filho está entalado até a garganta nesse assassinato. E a única coisa que quero evitar é um escândalo judicial. Quero salvar meu filho... O falecido era meu amigo, mas por ele nada mais posso fazer. Quero, no entanto salvar meu filho.
Apoiou a mão sobre a mesa.
Wanderley disse:
- Já sei que ontem o senhor falou com o ministro. E não duvido que ele vá exercer influência em favor do seu filho.
- O ministro é meu amigo. Algumas vezes já tive oportunidade de ajudá-lo...
- Não o recrimino. É o que tinha que fazer... Em defesa de um filho nada é o bastante. Mas acontece que... Vejamos. O senhor falou ao ministro e este deve ter recorrido a uma autoridade mais alta, e dela pediu ajuda para solucionar um “casinho”, e talvez tenha conseguido o que queria. Entre ministros as coisas acabam sempre se resolvendo. Mas pergunto: como chegará até mim a decisão que for tomada? Não sei, não imagino. E se apesar de suas amizades não se toma qualquer decisão?  Estas coisas costumam se ajeitar cá mais embaixo. Se o caso não chega ao tribunal, nada tem a temer. E se, além disso, o senhor está amparado pelos ministros, ainda melhor. Mas cá embaixo...
- Eu pensava que...
- Não é fácil torcer o rumo da justiça... Embora ela seja cega. Existe no caso uma parte importante, que depende de mim, e se sinto em lhe facilitar as coisas vejo-me obrigado a fazer alguns pequenos sacrifícios, ferir o meu pudor, trair a minha profissão... Tenho, inclusive, de fazer alguns gastos... Conheço muito bem o alcance da sua influência. Mas eu lhe explicava que eu também tenho um papel a desempenhar. Por uma questão de ética, compreende? Por respeito a minha pessoa. Não estou dizendo que tenha alguma saída. Aqui entre nós: conheço muito bem o meu ofício, tenho minhas manhas. E posso tornar culpado, tão culpado quanto o seu filho, qualquer um dos demais, à moça, ao infeliz negro e até mesmo ao senhor. Basta que mexa meus pauzinhos...
- Nesse caso... Tanto faz para o senhor que apareça o verdadeiro culpado?
- Não. Minha profissão tem suas exigências. O senhor precisa de um inocente e eu necessito de um culpado. Eu já tenho o culpado, estou convencido. E não será nenhum ministro a me convencer do contrário. Tenho certeza de que realizei uma impecável investigação policial. Bem, mas ainda existe um outro aspecto da história. O senhor quer saber quanto já gastou até agora procurando salvar seu filho? Que coisa estranha é a liberdade!
- Ah, compreendo... O senhor também tem seu preço...
- Não, meu caro senhor. Apenas me incluo entre aqueles que querem esclarecer essa situação e o faço com a certeza de que o senhor não discutirá o saldo da conta que me deve, e não é pouco. Gastos profissionais apenas, posso lhe assegurar. Não lhe cobro a agressão que cometeu contra minha ética profissional. Tampouco existe preço para o risco que estou correndo. É minha pele e meu estômago que estão em jogo. Talvez esta noite mesmo me ocorra a maneira de culpar o tal negro pela morte do velho. Enfim, cabe ao senhor a última palavra.
O homem pensou durante alguns segundos e respondeu, acompanhando as palavras com um gesto impotente:
- Sim.

Os repórteres aglomeravam-se. Um deles conseguiu desvencilhar-se da faixa preta e amarela.
- "Lá vem esse mala"! - Disse para si mesmo. Na mesma hora armou um sorriso. A mídia tinha que ser a sua aliada. A vida era feita de negócios.
- O senhor confirma que a vítima tinha um concorrente para o coração da sua esposa...
- Nada a declarar. - Cortou a tempo de o repórter dizer o nome do amante. - As investigações são sigilosas.
Não adiantava. Os jornais e revistas e a televisão tinham informações de que a vítima, nos últimos meses, descobrira do caso entre sua mulher e seu companheiro de jogo e filho de um dos seus melhores amigos. E embora ninguém tivesse conseguido provar nada, o jovem citado, era tido como um dos suspeitos.
- Vamos aguardar. - Disse Wanderley tentando despachar o repórter. - Esse caso pode ter surpresas.
Cinco dias depois, no jargão policial "A apresentação do suspeito", fora posto em cena. O caddy que havia sido detido pelo parceiro de Wanderley. O carregador de tacos estava com os dentes quebrados, um hematoma no rosto, além de tremer sem parar, estava mancando. O Negro havia confessado o crime, diante de muitos repórteres que estavam em frente ao departamento, e confessaria esse e muitos outros crimes, se para tal fosse solicitado.
- Mais um caso esclarecido. Vamos acabar com a corja do crime! - Bradou o policial orgulhoso de si mesmo.
Algumas horas depois, já ia partir para uma outra expedição, quando um plantonista o chamou. Apontou para um sujeito barrigudo, todo bem vestido e cheio de jóias de ouro, sentado na ante-sala do gabinete. O homem tamborilava os dedos sobre uma grande mala, a seu lado, enquanto os seguranças o aguardavam do lado de fora.
- É um enviado do pai do rapaz. - Lembrou seu parceiro.
- Vá pegar o que nos é de direito. - Ordenou Wanderley ao brutamontes.
- Eu pego a mala?
O policial olhou enviesado para seu parceiro. Tinha a mania de fazer perguntas idiotas.
- É claro meu jovem. É à parte do nosso acordo.
Ronaldo Schmidt
Enviado por Ronaldo Schmidt em 06/12/2007
Reeditado em 07/12/2007
Código do texto: T766963

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Sobre o autor
Ronaldo Schmidt
São José dos Campos - São Paulo - Brasil, 45 anos
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Ronaldo Schmidt