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O quinto Homem

SETEMBRO 1976.


   Noite escura. Uma densa de neblina  cobre as ruas da cidade. Nenhuma estrela no  céu. Subitamente ouvem-se passos; em seguida um farfalhar de ramos, folhas; são ruídos que através da noite úmida e enevoada, trovoam aterradores.
 Na rua vazia e silenciosa, existe  um canteiro central de grama com algumas flores a dividir a pista em duas mãos de trânsito e uma camioneta C-10, com carroceria de madeira está parada em frente a uma casa grande de alvenaria; a casa tem estilo de colonização alemã com sobrado; dois pisos e janelas arre¬dondadas.
   Então aparece uma jovem caminhando com passos rápidos, trás em seus braços o material escolar. De repente pára. Como se estivesse escutando algum ruído anormal.
Por um instante ela fica estática, tentando ouvir algo, então retoma o seu caminho.
           Se houvesse  virado sua cabeça para a direita, onde havia um pequeno pasto de gado com uma casa de madeira ao fundo, teria visto de onde vinha o ruído.

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Adriana era jovem, 23 anos de idade, corpo esguio; se morasse em uma cidade grande, dirse-ia que praticava algum tipo de academia de ginástica, porém nesta pequena cidade a caminhada da sua casa até o centro desta, era a única ginástica que praticava. Eram seis quilômetros de distância, por isso que um de seus irmãos ia buscá-la na escola   de noite, às vezes de bicicleta, outras vezes era companhia de caminhada na sombria e enregelada Itá .
Apesar de ser uma bela morena clara, rosto oval com 'maçãs salientes' e vermelhas, cabelos pretos, curtos como era a moda; algumas sardas na face esquerda; seus olhos ainda não haviam visto ninguém por quem seu coração batesse descompassadamente.
Nesta noite, Adriana estranhou que ao sair da sala de aula nenhum dos seus irmãos a estivesse esperando, como de costume, sentado no banquinho de madeira.
Alguns colegas ofereceram-se para levá-la até‚ sua casa, mas ela achou melhor considerar a hipótese de que algo havia acontecido com a bicicleta.
----- Pode ser que a correia tenha quebrado, ou um pneu furou! - observou quando a diretora da escola se aproximou e com ares de bondade colocou a mão em seu ombro, perguntando se não queria ficar em sua casa por aquela noite.
Depois que a diretora saiu, Adriana sentiu-se melhor, pois a Sra. Kurtmann, tinha péssima fama. Com os alunos principalmente.  As más línguas da cidade diziam  que ela se separara do marido ainda na lua-de-mel, pois o seu marido descobriu suas preferências, nada normais de comportamento entre quatro paredes; gostava de 'certos brinquedos' e de garotas na sua cama.
----- Droga! perdão meu Senhor, por  esses pensamentos! - desculpou-se consigo mesma pela expressão. De família religiosa praticante fervorosa, o palavrão era considerado uma grande ofensa para com Deus. A verdade é que estava ficando nervosa com a demora do irmão. Esperou mais um pouco, e vestindo a  jaqueta jeans por sobre a camiseta, saiu a passos rápidos.
O medo a dominava. Tinha a impressão de que alguém, alguma coisa, a observava. Então caminhava rapidamente e rezava acompanhando os passos, com os braços agarrados ao material escolar.
Fez o sinal da cruz, e continuou.
A caminhada seria longa.
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O galo canta, anunciando a alvorada; a neblina ainda é grande, não se podendo ver a luz do dia.
Seu Chico, Francisco Ildegard, um Ítalo-Ingles, como ele mesmo se denominava por causa do pai Italiano de Gênova, e da mãe  inglesa de um condado que ele nem lembrava o nome; sai e caminha em direção a pequena estrebaria para tirar leite. Leva na mão esquerda um balde e uma caneca; usa um chapéu grande de palha, uma camisa de flanela, vermelha xadrez e um macacão jeans.
Antes de chegar na estrebaria, vê algo estranho no arame da cerca. Faltam uns trinta ou quarenta metros para a porteira, quando tropeça em algo... um pneu de bicicleta.
      ----- Ora! Ora! Essa gurizada! -- fala lembrando o som que ouviu na noite passada. Era como se alguém pisasse de fininho na grama tentando  evitar barulho e logo depois ouviu um som rouco, então o silêncio.
Ainda pensando nisso, caminha mais uns dez passos e então os vê ...





  -- Abram espaço! Com licença! Com licença! - alguém vestindo uma farda policial toda desarrumada, se aproxima da cena, empurrando as pessoas que estão   frente para o lado.
      ---- Com licença! É a lei quem pede! Sai da frente! - diz, empurrando com força.
        Aproxima-se do grupo de policiais e ao ver uma capa de lona estendida sobre um volume, no chão, comenta com um policial ao lado:
        ---- O que foi? Mais porcos degolados? - perguntou arrumando a camisa por dentro da calça.
        ----  Veja como fala, seu bolo fofo! Mais respeito com as pessoas, nem parece que é da polícia! -- esbravejou um policial alto, perto de 1,90, cor morena, corpo rijo, de músculos acostumados à  dura lida no serviço; um bigode fino por sobre os lábios, numa boca de dentes perfeitos.
        -----  Ora bolas! diga logo do que se trata e saia do caminho, Sr. Oss! - disse empurrando-o para trás. --- Não se esqueça que eu sou seu superior! - e assumindo ares de importância, estufou o peito e a barriga. -- O que houve aqui? Uma guerra de colonos idiotas não vale a pena, nem que seja por fazendas e cabeças de gado, quanto mais essa discussão absurda pelos porcos premidos em Concurso citadino.  --  falou lembrando da briga do 'seu Chico' com os 'Haskell'. Os dois que todo ano disputavam o prêmio de 'Melhor e Maior Suíno' da região. Tudo ia bem até  aparecerem três dos porcos dos Haskell mortos, degolados, na semana passada. Foi o maior bafafá  na cidade. 'Seu Chico' era olhado por todos como o autor do crime, porém nada se pôde provar contra ele. E o delegado jamais poderia crer que um homem como o velho Chico poderia conter sozinho três animais tão grandes. Tanto é verdade que para tratar  dos seus animais ele tinha peões específicos para a função.
        ----- Dessa vez a coisa é  séria, Sr. Delegado Plínio de Alencastro. - disse      cinicamente o policial. --  São os irmãos oliveira; a menina-moça e o irmão dela.
   
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25   DE      MAIO DE 1994.

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Marcelo rola na cama e tenta se esconder dos primeiros raios de sol que penetram pela janela do quarto. O sonho (pesadelo) já se estendia havia meses e ele não via jeito de se livrar deste maldito sonho, não importava o que fizesse, nunca acabava. O 'X' da questão é que não se lembrava de mais nada do que havia sonhado logo após tomar o café. Consultou os mais variados médicos e eles não sabiam o que dizer. Fez tratamento através de hipnose, o que só lhe arrumou uma tremenda dor de cabeça por uns dois dias.
Moreno claro, olhos escuros, alto, 1,87, 31 anos, 83 quilos bem distribuídos por um corpo de atleta, que cultivou ao longo de sete anos de musculação, seis de natação e outros tantos de tai-chi chu-an. Essa determinação física lhe foi útil inúmeras vezes, em muitas situações delicadas. Depois de abandonar a força especial da P.F. ( Policia Federal) montou um escritório de investigações, que logo prosperou. Hoje contava com um sócio advogado. A silva & Cia também tinha uma loira, de 1,73, olhos verdes, que pareciam esmeraldas, cabelos encaracolados, "uma tentação de secretária" segundo Xamã, seu sócio. Giovana fazia os serviços de rotina no escritório, o que deixava os dois sócios livres para correrem o dia todo na rua.
Marcelo logo pegou confiança naquele rapaz que apareceu certo dia em seu escritório vendendo seguros; trazia uma enorme pasta preta que com certeza, não se identificava com aquele par de óculos finos, sobre um nariz magro, comprido; olhos castanhos que vagueavam de um canto ao outro da sala; com 1,69, era o típico brasileiro, inicio de calvície, braços miúdos e finos, corpo com tendência à protuberância no  abdômen.
----- Xamã ligou e disse que às dez horas iria esperá-lo no endereço seguinte: --  a voz veio assim que ele apertou o botão da secretária eletrônica ao lado da cama. -- Está  anotando? --    ele odiava essa pausa que, já sabia, ela fazia toda vez que lhe passava uma mensagem. -  O endereço é ...


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Marcelo passou pelo Motel Dallas na BR-101 e entrou a esquerda, em uma rua de chão, onde o barro era senhor da estreita faixa de terra. O carro, um gol branco ano 91, começou a trepidar e ele desligou o rádio toca-fitas, maldizendo a estrada.
---- Aonde ‚ que esse louco do Xamã se meteu? E o que é pior, porque me chamou até‚ aqui? Poderia ter me falado no telefone do que se tratava. Espero que valha a pena. Ultimamente só pegamos casos de marido e mulher e de cachorro perdido.
Ia pensando e resmungando consigo, quando avistou a casa.
       

Era uma pequena casa de madeira, onde já se notava o efeito do tempo Confirmou o endereço. Era ali mesmo.
           Abriu o  pequeno portão de madeira, colocado na cerca de arame que ladeava o quintal. O mato cobria tudo mais, parecendo uma pequena floresta o terreno.
----- Ó de casa!! Cheguei ! --  gritou assim que passou pelo portão, com medo que algum cachorro avançasse.
Ninguém respondeu.
---- Ei, Xamã! Sou eu, Marcelo!
Nada. O Silêncio era absoluto na casa.
Foi entrando, devagar, olhando para os lados, esperando algum ruído ou ver alguém.
            Nada.
Ninguém.
Chegou até‚ os primeiros degraus da escada de madeira que dava acesso à porta da casa. As janelas e a porta estavam fechadas.
Foi rodeando a casa; no fundo, um quintal sujo com muitas  árvores de grande porte, que davam um ar mais fresco à casa. E as sombras se projetavam para frente, como a indicar algo. Sob as  árvores vários bancos toscos de madeira bruta e mesas oriundas de lascas de  árvores.
Andou até‚ o canto direito da casa e viu um poço, cavado na terra, onde se retirava  água através de um balde e uma corda fixa por uma roldana, viu também um pequeno pilão de madeira.
Deu mais alguns passos em direção a casa e sentiu o cheiro.
Ivair Antonio Gomes
Enviado por Ivair Antonio Gomes em 04/01/2006
Código do texto: T94196

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Sobre o autor
Ivair Antonio Gomes
Palhoça - Santa Catarina - Brasil, 47 anos
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