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O Quinto Homem - parte 02

Incrível como não o sentira antes.
            Colocou um lenço sobre o nariz. Caminhou até‚ a porta. Já  imaginava o que encontraria.
Ele estava com a cabeça sobre uma mesa e sentado sobre um banco de madeira, em um cômodo onde Marcelo imaginou fosse a cozinha, e sala, pensou ao avistar mais dois bancos maiores rodeando a mesa.
As moscas varejeiras infestavam o local.
Olhou ao redor antes de entrar. Viu na porta três cruzes de madeira pregadas e uma quarta invertida, mais abaixo. Todas as três primeiras eram maravilhosamente trabalhadas à mão e observou que eram de carvalho. A outra parecia ser de metal. Não a tocou.
Deu dois passos para dentro da casa e viu um pote de cerâmica, onde cinzas, ainda quentes, exalavam um cheiro agradável. Mesmo com o corpo em estado de putrefação, na sala ainda sentia-se o aroma de ervas. O efeito das ervas, ou folhas, fosse lá  o que fosse, diminuía o cheiro do cadáver. E agradeceu ao vento, caso contrário  não poderia ter sentido o cheiro. Provavelmente o cadáver seria encontrado  depois de dois dias ou mais, quando o efeito das folhas passasse.
Novamente olhou ao redor de si.
 Na pia uma chaleira, e dois pires.
Chegou mais perto do cadáver. Moscas saiam de dentro do nariz. O cheiro ficaria insuportável não fosse o efeito da ervas aromáticas.
Viu sob a mão direita, que estava sobre a pequena mesa, um livreto, levantou a mão e um pedaço da pele se desgrudou dos dedos, retirou o livro e saiu do cômodo.
O ar puro invadiu seus pulmões.
 Respirou com força.
 O cheiro ficou dentro da casa.
 Do lado de fora, o cheiro era de mato, flores e folhas.
Tudo parecia normal, não se sentia cheiro algum de podridão.
Difícil seria alguém que passasse pela rua, saber que na casa havia um cadáver.
Sentou-se em um dos banquinhos de madeira, sob as sombras das  árvores.
Olhou então para o pequeno livro que tinha nas mãos. A marca dos dedos do velho ainda estavam na página aberta, delineadas pela gordura da pele que saiu da mão do cadáver quando retirou o livro. Viu que não conseguia entender o que estava escrito. Era uma linguagem estranha. japonês, chinês, algo assim. Notou também que algumas folhas haviam sido arrancadas.
E o Xamã? Onde ele estava? Afinal foi ele que o chamara. Aquilo estava ficando muito estranho.. e perigoso também.
Sua atenção foi chamada para uma pequena mancha na mesa tosca na frente de onde estava. Levantou-se foi até lá . Olhou com esmero e com um toque dos dedos confirmou que era o que pensava.
Sangue. Estava seco.  Grudado na madeira.
Mas não havia dúvidas, era sangue.
Quem era o velho? Parecia viver isolado, tipo um ermitão.
Respirou fundo. Tomou uma boa quantidade de ar puro e voltou para dentro da casa.
Havia muito ainda que olhar, observar.
Passou pela cozinha e foi até onde imaginava ser o quarto, pois havia uma laje de pedra e uma coberta sobre uma cadeira de palha.
Puxou a coberta e veio junto uma calça jeans velha.
Revirou os bolsos da calça e nada achou.
Olhou para a parede do quarto e viu um quadro gigante do gênesis. Pelo menos pensou que  era, segundo lembrava pelas suas leituras da bíblia no tempo de garoto. Nele Deus criava, quadro a quadro, o mundo e no último quadro a expulsão de dois anjos. Imaginou ser Deus o ser alado com uma enorme barba e com cara de furioso que, esticava o braço como a indicar o caminho para os dois anjos. A face de um desses anjos tinha um sorriso cínico, enquanto o outro mantinha a cabeça abaixada.
Sobre a cama, pendurado na parede, viu um crucifixo de ouro e um terço feito de alho. Tudo parecia loucura. Uma cena surrealista e estranha para Marcelo. Lembrou dos filmes de horror que já vira. Um calafrio lhe percorreu a espinha.
       
Voltou ao corredor da casa, entrou no banheiro.
Era uma patente à moda antiga; uma tábua, um buraco, papel na parede; um balde no canto indicava o tipo de banho; e ainda leu umas rimas idiotas na parede.
"Se sobe desce, porque desce, cresce."
"Olhando para cima, passado lembrar, estrelas guardiãs, idéias vãs."  Leu mais algumas e saiu do banheiro.
Passou pelo corpo sem vida do velho e, pela primeira vez, reparou na fisionomia do cadáver. Aparentava uns setenta a oitenta anos, um pedaço de madeira, no chão, perto do banco, deveria servir como muleta; a barba branca , agora repleta de moscas, não devia ser bem cuidada, assim como a grande cabeleira; suas unhas enormes davam um ar assustador a sua pessoa; seus olhos, grandes, esbugalhados, pareciam querer saltar das órbitas.
            Saiu dali.


.......................

          19:30    da NOITE  -  



----- Por favor, o professor Hausmann está ?  - era  a terceira vez que ligava.
Do outro lado, ele percebeu, que, demoravam para dizer alôô.
----  Olha eu sou Marcelo Silva... isso, o detetive,...sim... ‚ urgente ...  sim... Como? de cama? ... Será  que eu não poderia visitá-lo? Eu tenho um pequeno serviço que ele pode me ajudar a resolver... O.k., então daqui uma hora eu estou aí... o endereço por favor.... Obrigado, até já !
Desligou o telefone. Colocou o paletó, pegou o chapéu e ia bater a porta quando lembrou de ouvir a secretária eletrônica. Deu um passo para dentro e desistiu, ouviria depois. A conversa com o professor poderia ser bem mais interessante.
Já na rua lembrou de deixar um recado para o Xamã, com Giovana, a secretaria.
Precisava saber por que ele não o esperara na casa do velho, por que desaparecera? Tinha lhe deixado numa situação complicada para explicar ao delegado Alécio, que recebera um telefonema para se encontrar com o velho ali, onde houve o crime. Quer dizer, a policia achou tudo normal. Para eles não houve nenhum assassinato.
Quem havia ligado pedindo para se encontrar na casa do velho? - Aonde estava essa pessoa? - Porque se encontrar logo ali, e não em outro lugar qualquer? - Teve um trabalhão para responder a essas e muitas outras perguntas que lhe foram feitas.
Até dar todas as informações já era 16:30 e ainda tinha que entregar um material referente ao último caso. Umas fotografias de um velhote e um ninfeta saindo de um motel.
Um caso comum, onde se especializara.
Dinheiro rápido e fácil. Bom dizer que já conhecia quase todos os porteiros de motel da grande Florianópolis. Dos luxuosos aos de terceira categoria.
Ligara assim que saíra da casa do velho para Giovana e lhe pedira para encontrar um especialista em escrituras e línguas antigas, egípcias, gregas, japonês, chinês, algo assim.
            Ao chegar no escritório ela já havia saído, deixara uma extensa lista de nomes.
Com um lápis circundou os que achou que poderiam lhe ajudar.
Prof. Sahuro Mayakho  -  especialista - japonês - para ligar.
Prof. Carlos Hausmann -  expert línguas antigas - ligar novamente. Liguei três vezes.
Prof. Cristina Molieri - Grego, Egípcio, Hebraico, -  para ligar.
Assim Giovana lhe deixou a lista.
Ele escolheu ainda mais três nomes.
Lembrou do Prof.. Hausmann. O vira uma vez na televisão. Ligou para a casa do Prof. .......... Disseram que não podia atender. Tentou os outros nomes. Um tinha ido viajar, outro não podia porque tinha aula, assim todos foram caindo fora. Novamente ligou para a casa do prof.. .


.......................


O gol branco, cruzou o sinal vermelho e um cantar  de pneus se fez ouvir, logo seguido de buzinas, no semáforo da Pres. Kennedy com a Artista Bittencourt.
Estacionou diante do n.º 394. A casa era grande: de alvenaria; cor rosa, com duas grandes janelas, cercadas de grades frontais. Um pátio enorme, todo gramado, e uma garagem para três carros. Tocou a campainha no Portão.


..................

---- Professor, isso tudo é muito complicado! Quer dizer então que não é uma linguagem. É um código?
Sentado na cama, com um travesseiro às costas, apoiado na guarda da cama, um senhor de uns sessenta, setenta anos, com os cabelos grisalhos bem penteados e gestos firmes.
  ----- Linguagem significa que muitos usam um vocabulário, um meio de se comunicarem, seja por sinais, desenhos, ou a língua em si, já o código é uma linguagem usada por um seleto grupo, um número reduzido de pessoas, mas que não chega a ser um dialeto. De acordo com o que pude entender, me parece um antigo código Druida, e tudo leva a crer que somente uma outra pessoa que conheça o código, o possa  decodificar para você. Eu não conheço muito bem o assunto e não ficaria bem eu insistir sobre algo que não posso ajudar a entender. Sinto muito meu rapaz! ---  remexeu-se na cama. - além de tudo é estranho pois não há registro algum de manuscritos Druídicos, pois segundo se sabe eles temiam a escrita.
---- Me desculpe professor, mas é muito importante para mim. Meu sócio sumiu e uma pessoa morreu! Eu não tenho nada a não ser esse velho livro, e umas anotações que ninguém consegue decifrar! -- levantou-se da cadeira que Norma lhe dera.
            --- Hei! Hei! - fez o velho como a lembrar-se de algo, acenando as duas
mãos no ar. -- Talvez haja alguém que possa lhe ajudar, rapaz! Ha muito que não
 conversamos, e talvez ele nem se lembre de mim. É um antigo padre. Um ex.,
 para ser mais exato! É! talvez ele possa lhe ajudar. Norma deve ter o endereço
dele anotado por aí. --  a governanta assentiu com a cabeça. -- Foi expulso da
Santa Ordem por que diziam que mexia com coisas esquisitas, livros negros,
línguas esquecidas, essas coisas que hoje chamam de esoterismo, espiritismo, sei lá. Só sei que se há  alguém que de repente pode te ajudar, esse alguém pode ser
esse velho Padre. toss... toss... toss...  -- um acesso de tosse -- Desculpe-me, sim!
 Norma interrompe a conversa e com gestos pede para que Marcelo se retire  do quarto.
--- Por favor, saia! Ele já falou demais. --  ela ordena mais do que pede.

 
                     ..................


               23:30

 Uma sombra se move na escuridão Procura a maçaneta da porta.
Ivair Antonio Gomes
Enviado por Ivair Antonio Gomes em 04/01/2006
Código do texto: T94197

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Sobre o autor
Ivair Antonio Gomes
Palhoça - Santa Catarina - Brasil, 47 anos
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Ivair Antonio Gomes