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O Porteiro - Parte 2 de 4

--- No elevador?! Como assim?!
--- Bom, ele fez a massagem e desceu. No quarto andar alguém parou o elevador e entrou. O atacou com aquela parte da garra do extintor, sabe? Aquela parte que tem que apertar para sair o jato!
---- Uhum.. e daí?
---- O homem, coitado, ficou todo arrebentado. Machucaram muito ele. Ainda está cheio de sangue no corredor do quarto andar! Sobe lá depois e vê!
---- Mas... e vocês?! O que fizeram? Como ficaram sabendo?
---- Ele subiu de novo até lá em cima depois que foi atacado. Mas... - ela fez uma cara de resignada, como a pedir desculpas - nós estávamos sós, sem homem algum... e ele estava todo ensangüentado! A gente ficou com medo.
--- Não o ajudaram?! Pelo menos chamaram a policia?!
--- Não! Depois de bater na porta várias vezes, deixando as marcas das mãos cheias de sangue, o homem desceu e foi até o bar da esquina! Depois que ele saiu nós chamamos a policia. Mas eles demoraram bastante pra chegar! Enquanto isso, lá embaixo, no bar onde nosso cliente foi procurar ajuda, o levaram  pro pronto socorro. Quando a polícia chegou ele já não estava mais aqui.
---- E o que a policia fez?
---- Eles perguntaram o que aconteceu, depois foram até o quarto andar e dali até o bar. O pessoal de lá falou para onde o tinham levado e os policiais desapareceram.
---- Que droga hein?! Que azar o do cara, mas dos males o menor, provavelmente nem vai dar queixa. Bem, mas isso pode ser bom para vocês?
---- Por que diz isso? - ele perguntou intrigada.
---- Porque se ele der queixa vai melar o negócio de vocês. Sabe como é, os fiscais vão começar a bater na porta direto. Se não encrencarem até com o alvará de funcionamento. Mas o cara deve ser casado e provavelmente não dirá nada pois senão irá Ter encrenca em casa.
--- Mas ele não é casado! - disse ela.
--- Não?!- indaguei surpreso.
---- Não! É desquitado! O cara é mesmo azarado! Era agente penitenciário até pouco tempo atrás quando foi feito de refém durante uma rebelião. Sabemos que ele tinha apanhado bastante também naquela época.
---- Além de baterem nele o que mais fizeram? Levaram alguma coisa?
---- Levaram cento e cinquenta reais e o talão de cheques. Eu vi as notas na carteira quando pagou a massagem. Ele falou para o pessoal do bar que o ladrão levara o talão de cheque e todo dinheiro que tinha.
---- Humm... talvez o restante do salário do mês!
---- É! Pode ser!
Em seguida Maria me mostrou o que queria que eu fizesse, ou seja, as atribuições de um porteiro, ou melhor, quase nada. Deveria ficar de olho no elevador quando subisse alguém e observar se parava no décimo Andar. Uma parada em qualquer outro andar era algo fora do normal.
Ela me entregou seu celular para entrar em contato com elas lá em cima, na sala, caso surgisse alguma coisa.  O meu já fazia dois meses que fora cortado. Essas pragas são cara demais e só dão problema. É bem verdade que não paguei de propósito. Afinal quem não quer ser encontrado não deve andar de celular. Isso que dá ficar devendo em tudo que é lugar.
Em seguida eu subi com Maria até a sala de massagem, para não deixá-la subir sozinha. Ela dizia que não precisava, mas eu sabia que em seu íntimo tinha um pouco de medo.
Ao voltar de elevador um tremor percorreu meu corpo. Medo! Claro, pois só os idiotas o negam! Todos o têm, a diferença é que uns escondem melhor. Eu levei um susto quando vi que meu dedo instintivamente fora mais corajoso que o dono e apertara o botão do quarto andar.
Rezei pra tudo que era santo e esperei. A respiração aumentando. A adrenalina correndo solta. O suor no sovaco molhando a camisa. A expectativa me sufocando. É  verdade que uma cena de crime não era novidade para mim, mas é ainda verdade maior que o sangue me dava pavor. Tinha medo até de matar galinha, com medo do sangue. Claro que eu dissimulava muito bem, senão não teria passado em vários testes no passado.
O elevador parou. Fiz o sinal da cruz, e passei a mão na bunda. A calça não estava molhada e nem pesada. Fiquei em um canto do elevador. A porta abriu e eu esperei uns segundos antes de colocar a cabeça para fora. E se o atacante do cliente ainda estivesse por ali? Falaram que a policia fora até lá, mas e se ele se escondera?
Meus olhos abaixaram e vi a enorme mancha de sangue logo a partir da saída do elevador. Nossa mãe! Parecia que tinham carneado um porco. A quantidade de sangue era mesmo enorme. Ocupava praticamente todo o espaço no chão do elevador até a primeira porta. Notei que havia sinais de sangue até no local dos botões de chamada do elevador.
Vi tudo isso sem sair de dentro do mesmo. Criando coragem, mentindo para mim mesmo que era corajoso, sai de dentro do meu abrigo. Havia marcas de calçados sobre o sangue coagulado no chão. Apesar de quase vinte horas depois do ocorrido o sangue ainda era pastoso. Deixei junto com as pegadas dos policiais as marcas das minhas botas. Caminhei até a porta da sala logo em frente. Estava trancada. E assim fui fazendo de porta em porta. No final do corredor olhei para onde estava o elevador, do outro lado.  A mancha escura parecia algo sinistro demais. Meu estõmago começou a reagir e eu forcei para não engolir meu vômito.
Entrei no elevador e desci. Meu peito arfava e o suor empapava minha camisa.
Lá embaixo abri a mochila e tomei um pouco de água da garrafa que trouxera de casa, depois, mas calmo, peguei "A ceia dos acusados" de Dashiell Hammett para continuar a leitura que iniciara em casa.
O tempo passou e meia hora depois um cliente apontou no hall, eu  desviei o olhar. Essas pessoas não gostam de serem notadas quando vão dar suas "escapulidas". Após ele entrar no elevador e este começar a subir eu fui até lá e apertei o botão de retorno para o térreo.
Os clientes não gostam de perder tempo. O elevador tem sempre que estar à mão. Eles chegam, entram e sobem rapidamente. Evita-se com isso aborrecimentos, caso algum conhecido passe por ali e os veja no elevador. Instruções de Maria.
Fiquei observando e o elevador foi direto até o décimo. Bom sinal. Voltei até meu livro. Dashiell Hammett podia Ter sido um gênio e um revolucionário em seu tempo de escritor. Mas os tempos agora eram outros e "A ceia dos acusados", me parecia até inocente perto dos crimes atuais que a televisão e os jornais mostravam. Bom, mas isso é minha opinião, coisa que não deve valer muito.
Coloquei o livro sobre uma mesa velha que havia no hall e levantei-me. Havia muitas perguntas em minha mente.
Nisso ouvi um barulho na garagem que era logo abaixo de onde eu estava. Havia uma entrada lateral que dava acesso a ela. Pelo vidro do hall eu vi que algumas pessoas estavam na garagem do edifício.
Fui para fora do prédio dar uma olhada. Na verdade já não era mais uma garagem. Um mercado ao lado a usava como depósito.
Um rapaz moreno, 1,70, perto dos 20 anos estava do lado de fora.
Eu o chamei.
---- Escuta amigo, o elevador desce até aqui né?
O rapaz fez uma cara meio que de assustado. Provavelmente ele já sabia o que havia ocorrido no edifício.
---- Descer desce, mas não dá pra abrir a porta, porque as mercadorias tão na frente!
--- Será que eu poderia entrar e dar uma olhada? - perguntei com curiosidade.
---- Ah, não sei não moço....
---- O que está acontecendo aí Marcos? - gritou uma voz grossa de dentro da garagem.
---- Nada não Vinicius!
Nisso o tal de Vinicius apareceu na porta. Devia Ter perto de 1,90, quase dois metros. Era branco, quase careca e lhe dei uns 35 anos.
--- é que eu queria dar uma olhada aí dentro! Sabe, o elevador... - comecei a explicar.
---- Não tem nada a ver! A gente não usa o elevador! Não dá! - rugiu aquele urso branco.
--- Escuta amigo...
--- Escuta você, ô metido! Nós estamos trabalhando, se quiser fuçar aqui dentro é melhor falar com o patrão.
--- Bom! Se é assim - resolvi ser um pouco mais duro - Se não colaborar na boa, talvez quando o Antônio colocar a policia no meio você o faça.
Os dois homens se entreolharam e o gigante branco com bafo de cachaça me pareceu reticente e eu aproveitei.
---- Olha, sei que vocês não tem nada a ver com o que aconteceu, mas só o que precisam é me deixar entrar por um ou dois minutos. Senão vai sempre ficar a dúvida e caso a policia se meta vocês sabem que eles não tem muito jeito pra conversar.
Era perto do meio-dia. Não havia tanto movimento na rua, mas mesmo conversando com os dois eu não tirava os olhos do elevador que eu podia ver através da porta de vidro.
Os dois homens pareciam mesmo pensar sobre o que eu lhes dissera.
--- Olha moço... - o urso branco com bafo de gambá falou - Dá uma olhada ai da porta e seja rápido! Se o patrão nos pega com um estranho aqui dentro estamos na rua. O Cara é chato pra burro.
--- Qualquer coisa diz que eu vim trazer um recado!- disse avançando até a porta da garagem e observei seu interior. Vários pacotes de arroz estavam empilhados uns sobre os outros e também caixas de bebidas. Mais no canto percebi uma espécie de mesa e sobre esta vários pacotes de farinha de trigo e pacotes de macarrão. A mesa estava encostada onde deveria estar a porta do elevador. Havia no chão, embaixo da mesa várias caixas de lata de óleo de soja. Realmente eles haviam feito da garagem um depósito. Para alguém usar o elevador teria um trabalhão danado, o que poderia levar horas, e depois não havia marcas de remoção de caixas na poeira no chão. Quando se move algum objeto em locais com bastante poeira sempre fica um rastro e ali não havia nada.
---- Obrigado! Já olhei o que precisava1 - disse saindo do vão da porta e recuando para poder observar o elevador e a entrada do prédio.
--- Te falamos que não dava para usar o elevador!
--- Ok! Sinto muito!
Voltei até o salão de entrada do edifício e peguei o livro para acabar de ler. Na verdade era uma leitura muito chata, e ademais eu não conseguia prestar atenção em nada do que lia. Por minha cabeça vagueavam mil indagações.
A garota que fez a massagem com o homem poderia simplesmente ligar para alguém já a postos, e avisar que o cliente que descia tinha algum trocado. Sim, essa hipótese não podia ser descartada. No entanto, conversando com elas, se notava que não eram capazes de algo tão cruel. Mas nunca se sabe.
Outra coisa é que alguém que sabia não haver porteiro tomou coragem e decidiu que iria assaltar o primeiro que descesse. Safados existem em todos os lugares e de todas as espécies.
Com mil e uma idéias sobre o crime voltei a leitura. Lia um pouco e saia para fora. Voltava para dentro e tornava a ler. Volta e meia um ou outro homem adentrava no elevador. A mim cabia desviar o olhar, como para este ter a certeza de que não seria identificado e em seguida, assim que se fechasse a porta do elevador, certificar-me que o destino era o último andar.
Deu meio-dia e eu estava morrendo de fome enquanto as "dondocas' ficam na boa lá em cima. Se bem que a "boa" delas não era tão boa assim. Pelo menos para mim não era.
Cansado de esperar que alguém descesse eu liguei e avisei que sairia por uns minutos para comprar um lanche em um bar que não dava vinte metros do prédio mas que ficava na esquina e não me permitia a visão da entrada do edifício.
Comprei uma coca-cola, uma garrafa de água mineral, umas duas salsichas e voltei rapidamente para meu posto.
Peguei uma cadeira, dessas com almofada, que estava em um canto. A bem da verdade era a única que tinha ali e estava mais para o lixo que para o uso. A posicionei bem na entrada do prédio. A cadeira não tinha uma perna e tinha que escorá-la na parede para não cair. Que se danasse quem iria entrar ali. Tem coragem de dar as escapulidas, mas não tem a coragem de dizer que faz isso? Não tem a coragem de olhar nos olhos a quem sabe o que fazem?
O livro me ajudou a passar o tempo. Puxa, como a vida de Porteiro é dura. Dá um cansaço, um sono. O que tirava o sono eram as garotas que passavam usando minúsculas peças indo para a praça pular o carnaval. Eu ficava lendo, ou fingia ler e mirava-as através da janela de vidro.
A garrafa de água mineral ao lado da cadeira me ajudava contra o calor infernal que fazia.
Lá pelas duas da tarde o antigo porteiro apareceu. Eu estava do outro lado da rua, sem perder de vista a entrada do prédio.
Ele olhou de um lado, olhou de outro e entrou.
Rapidamente atravessei a rua e o peguei já no hall.
Ele me olhou como que assustado. Eu fui até ele.
--- Você que é o porteiro agora? - perguntou.
--- Sou! - eu já o conhecia de passagens anteriores, mas parecia que ele não me havia reconhecido. Falei seco, eu não gostava de porteiros que enchiam a cara e depois ao invés de ficarem acordados dormiam atrás da mesa de recepção.
--- Eu era o porteiro antigo! Tenho umas coisas minhas ainda por aqui!
Falou isso e foi até um banheiro que estava chaveado.
Eu esperei ele sair.
--- Fiquei aqui um bom tempo! Agora vou ver meus direitos! - disse ele quando já estava saindo. Eu me postei bem na entrada do prédio.
O desgraçado com cara de rato tinha a chave do banheiro enquanto eu tinha de ficar o dia todo ali sem ter aonde ir caso precisasse.
--- Sei! - respondi laconicamente.
--- Fiquei uns quatro anos cuidando daqui!
Eu sabia sua história de cor e salteado.
Antônio havia me contado que certa noite este homem e uma mulher chegaram e se instalaram ali dentro. Bem, ele aproveitou, afinal era alguém para cuidar do prédio, e sem custo algum para ele. O homem e a mulher passavam a noite ali, no vão das dependências de serviço do edifício.
--- O senhor tem as chaves da entrada? - perguntei olhando firme para ele.
--- Tenho sim! Mas não vou entregar não! - disse ele. Antes eu o chamei de cara de rato, esqueça. Me lembrava mais o fuinha, amigo do bafo de onça.
--- Porque não?! Afinal o senhor não trabalha mais aqui? - minha vontade era de tomar as chaves na força.
--- As minhas coisas ainda estão aqui! Enquanto não tirar elas de lá eu não entrego as chaves!- crispei meus dedos fechando meu punho.
--- Pois então devia tirar suas "coisas" o quanto antes, e é como um aluguel, se o senhor não está mais ocupando a casa, deve entregar a chave! - eu realmente estava com vontade de apertar aquele pescoço fino e enrugado de tanta cachaça.
Ele era magro, 1,68, e com um jeito de cachaceiro que não tinha como negar. Não era só jeito, várias vezes eu o encontrei na portaria alterado pelo consumo de álcool.
Seu rosto era fino, uma pequena e mal crescida barba lhe deixava ainda mais feio como se isso fosse possível.
Ele saiu e eu fiquei com a impressão que ali tinha pé de coelho. Acabei de ler o livro durante o resto da tarde, enquanto vários homens entravam e saiam tentando esconder o rosto de mim. Os santos e seus problemas.
Maria me avisou que Domingo era folga das meninas. Estavam esgotadas.. pudera..
Passei o fim de semana lendo George Simenon e Maigret em “O porto das Brumas”.
Na Segunda-feira eu levei "O parque dos Dinossauros" de Crichton, para tentar passar o tempo. A leitura se mostrou muito gostosa.
O dia transcorreu sem problema algum até que no cair da noite, um PM entrou no prédio.
--- Olá! Boa noite, você é o porteiro? - perguntou ele, ainda fardado.
--- Sim! Estou aqui por uns dias.
--- Estava aqui Sexta-feira? Perguntou ele
---- Olha amigo, estamos do mesmo lado. Sou amigo deles e me chamaram para cuidar aqui por uns dias, pois como o senhor deve saber aconteceu um problema recente.
Ele sorriu.
Era um negro, com um pequeno bigode e estava usando a farda dos militares com duas faixas laranjas de plástico sobre o peito. Estava fazendo a ronda do trânsito.
--- Vou subir para falar com a Maria. Também sou amigo dela. Assim que a civil saiu daqui na Sexta ela me chamou.
--- Ok!
Ele subiu e uns dez minutos depois desceu. Com certeza iria checar minha história.
Quando desceu ainda ficamos conversando e conjeturando  várias possibilidades sobre o ocorrido.
Como eu, ele também sugestionou a possibilidade de alguma das meninas estar envolvida, e acabaram por surgirem várias outras hipóteses antes dele partir.
Já era quase nove horas da noite quando ví um rapaz de camiseta e tênis sentar-se na marquise do prédio ao lado. A princípio tudo parecia normal, era dia de carnaval e passavam e sentavam ali várias pessoas, uns bêbados, outros tribêbados e ainda alguns idiotas não alcoolizados.
Estava curtindo a cena dos Velociraptors na cozinha contras as duas crianças quando reparei que faziam quase meia hora que o rapaz estava lá, sentado, sem mover-se. E o pior é que estava sozinho. Isso não é bom sinal. Marginais costumam agir em bando, daí sabe-se que são apenas bandidos, mas os criminosos agem sozinhos na maioria das vezes. Isso era o que explicava o manual de psiquiatria policial que me fizeram ler cinco vezes durante meus exames admissionais no passado. Existe diferença entre marginais e criminosos. Um ladrão é um marginal, um mão-leve é um marginal, mas é considerado criminoso quem pratica crime  contra a pessoa, seja agressão física ou mesmo tentativa de assassinato.
Fiquei  um pouco preocupado com a situação, afinal as meninas logo iriam descer e teríamos que fechar o prédio e era um mau sinal que alguém nos observasse baixar as portas, pois veriam que não havia chave. Então larguei o livro, arrumei minha mochila e fui me colocar no vão da entrada do prédio.
Tentei fazer uma careta que inspirasse medo ou mesmo que dissesse: “Caí fora daí camarada! Você não pode ficar aqui!” mas acho que não deu certo.
O rapaz estava sentado na marquise, levantou a cabeça, virou-a para um lado, para outro e depois olhou fixo em mim. Na verdade fui eu que fiquei com medo. Mas tinha que fazer o papel de machão, durão.
--- Que é mano? Algum probrema? – falou.
--- Não! – respondi seco – vai ficar aqui muito tempo ainda? – perguntei tomando coragem não sei da onde.
--- Se vou ou não vou qual o bode? – levantou-se e eu vi que não devia temê-lo, era apenas um rapaz.- A rua é pública não é?
--- Está certo! Olha, você vem aqui toda noite?
--- Hii mano, qual é a tua? Está querendo? – disse ele olhando firme e colocando as mãos na cintura.
Algo passou pela minha cabeça. O rapaz não estava ali á toa e mesmo assim parecia desafiador. Como se eu estivesse atrapalhando algo. Talvez estivesse ali para fazer ponto, programas. É claro, devia ser isso. Ele era um rapaz bonito, bem apessoado, corpo definido.
Voltei a minha posição de leitor-vigia e consegui ler até a parte em que o Tiranossauro envolvia Tim com a língua e o puxava para sua enorme bocarra enquanto Alexi assistia a tudo sem poder fazer nada.
Em seguida Maria desceu com as meninas. Estava findo o dia.
--- Olha, não precisa vir amanhã! É feriado!
--- E Quarta feira? O Antônio já vai estar aqui?
--- Pois é, não sei ainda! Eu te ligo se precisar, ok?!
--- Tudo bem!
As meninas se despediram e cada uma tomou seu rumo. Maria ficou por último e me pediu uma carona.
Meu fusca, “Red”, como o chamo, insistia em me fazer passar vergonha sempre que eu trazia um rabo de saia como carona. E dessa vez não foi diferente. Red demorou uns dez minutos, engasgava, fungava, chiava, até que depois de  Maria ameaçar desistir e pegar um ônibus ele arrancou.
Red é como Herbie, só falta falar, e também andar, correr, essas coisas todas que Herbie faz no cinema. Com o carro indo aos solavancos, trancos e cheio de barulho das peças batendo  cheguei ao apartamento de Maria.
Um sorriso nos lábios, ela puxou as belas pernas para fora do carro enquanto me convidava sensualmente.
--- Não quer comer alguma coisa? – disse sorrindo.
Santa barbárie batman, se eu não sou o mais respeitoso dos amigos teria ido até a batcaverna só para ver o que poderia comer, mas não estava com tanta fome assim. Mentira.. só tomara água durante a tarde toda. Mas.. amigos, enfim... eu ainda sou metido a amizades sinceras, essas coisas antigas e já mortas no tempo atual.
--- Não! Que é isso! Outra hora! Tenho ainda um compromisso! – sem perceber havia me tornado uma pessoa importante. Que compromisso nada. Eu queria era fugir da situação constrangedora.
--- Gostosão hein! Conheço a sortuda? – disse ela pegando suas coisas.
O barulho do carro ligado a impedia de ouvir direito o que eu falava e isso facilitava a coisa.
--- Bem, tchau! Se precisar é só ligar!
Ela voltou-se.
--- Eu estou precisando agora! Mas ...- depois mais séria – tudo bem, eu te ligo amanhã caso precisar de tua ajuda na Quarta-feira!
Parti dali rapidinho e tive que parar duas quadras depois perto de um terreno baldio e aliviar minhas tensões tirando água do joelho. Aquela mulher era fogo puro. Resolvi dar uma volta e tentar conseguir alguma coisa. Afinal ainda era Carnaval e apesar de eu não gostar dessa época, sei que é durante essa festa que a coisa rola fácil.
Uma hora depois eu estacionava em uma boate. Claro que deixei Red bem lá no fundo da fila de carros estacionados. E também é claro que já havia me trocado, afinal a roupa do dia estava um suor só.
Bem, na boate eu fiquei um pouco lá fora, tentando ver se encontrava algum conhecido e como não obtive êxito, entrei depois de uns vinte minutos. O lugar estava lotado e para mover-se era preciso um pé de cabra. O pior é que em lugares assim, sempre tem uns engraçadinhos que se esfregam em você. E se engrossar tem que dar tabefes em meio mundo. Assim é ignorar, fingir que não é nada. Estava nessa, andando em meio a multidão, procurando um lugar melhor quando senti um beliscão na bunda. Porra bicho, na bunda é foda. Uma passada rápida até vai, mas um beliscão?! Agora a coisa ia ferver. Porém antes de virar-me veio o segundo. Pronto, a paciência se esgotara.
--- Escuta aqui cara eu não ...- virei-me com o punho direito indo reto em direção de onde viera o beliscão.
--- Gostosinho! – detetive o murro no último instante a centímetros do rosto bonito.
--- Puta merda!! Quase!! Guria tú é doida mesmo hein? – disse abaixando a guarda.
--- Tua bundinha é bem durinha! Deves ser bem gostosinho né?- disse ela com cara de safada.
--- Bom, - convencido – elas não reclamam.
--- Não está tomando nada? – disse se aproximando e eu pude então sentir seu perfume adocicado. Seus cabelos também estavam perfumados. Nós quase nos tocávamos, tínhamos que falar bem próximos por causa do barulho da música e também das pessoas ao redor.
--- Acabei de chegar Inês! Faz tempo que estás aqui?
Inês era uma antiga namorada que volta e meia eu encontrava e que esquentava minha cama. Ela dizia ser modelo mas eu imaginava modelo do quê? As meninas que posam para as revista de mulher pelada também diz que são modelos. As próprias "amigas" de Maria dizem que o são.
Eram quase cinco da manhã quando a levei para minha casa.
Bom, eu chamo de casa, para alguns é apenas um barracão. Na verdade, sofri um bocado para construí-la. Se alguém viu o filme Flashdance, sabe como é meu barracão. É bem espaçoso, como se fosse um desses barracões de armazenamento de carga. Então eu o fiz comprido e sem divisórias, minha cama fica na parte de cima, nos fundos, como se fosse um bangalô, ainda assim sem paredes. Lá embaixo, somente o banheiro tem paredes. Gosto de espaço e também serve para exercitar-me á vontade. Sou um maníaco por atividades físicas. Esse gosto veio desde minha época de pré-militar.
Inês, é uma morena de 1.67 mais ou menos, magra, cabelos pretos, bem pretos mesmo, liso. Tem uma bunda linda, durinha, e suas pernas longilineas são perfeitas. Mas o que gosto mesmo é sua devassidão durante o ato sexual. Acho que é por isso que nos entendemos bem. Nada é proibido nessas horas. Ela é completa, mas infelizmente nem só de sexo vive o homem, e assim que o ato se acaba ela parte para a chaminé. Credo, como é que pode alguém fumar assim? Deus me livre, a mulher parece uma daquelas locomotivas de antigamente, maria-fumaça. Por isso que eu saio correndo para o chuveiro, não agüento aquele cheiro de cigarro. Bom, daí quando volto para a cama ela já quer ir embora. É sempre assim. Sexo, mais nada. Sem compromisso algum, sem cobrança alguma.
Fui dormir era quase oito e meia de Terça-feira, depois de levá-la até sua casa. Diz ela que seus pais não ligam de ela chegar tarde. Sei! Eu finjo que acredito, não tenho nada com isso. Problema dela.
Eram cinco da tarde quando acordei. O telefone parecia um tambor na selva de Tarzan, me deu vontade de gritar: “kri-há  bandolo”, acho que era esse o grito do homem macaco, a criatura que surgiu da mente de um dos cinco filhos de um veterano da guerra civil, o Major George Tyler Burroughs. Este filho recebeu o nome de Edgar Rice Burroughs.
Levantei-me, e ainda sonolento atendi o telefone:
---- uga uga.. ops.. digo alô!
---- Hei que é isso?! Está ficando caduco? – era  Antônio.
Balancei a cabeça. Acho que estava mesmo.
--- Nada não! Fala!? Quer dizer que já chegou então?
--- Ainda não amigo! Estou em Recife, olha estou ligando pedindo para você ir até lá amanhã de novo.
--- Porra bicho, ai é brabo né! Tú tá no bem bão e eu me ferrando! - reclamei
--- Que ferrando o quê! Aquilo lá é uma baba! Tem alguma coisa para fazer?
O desgraçado sabia que eu estava sem nada no momento.
--- Não! Tenho nada não!
--- Pois então! Devo chegar lá pelas sete da noite de amanhã! O avião que ia sair hoje não tinha mais vaga, consegui uma lá pelas três da tarde de manhã!
--- Como é que vai por aí? Comeu alguma coisa boa?
---- Putz nem te conto! Quando chegar aí a gente conversa!

A ligação caiu ou então ele estava falando de celular, mas deu para entender o recado.
Na verdade eu não estava fazendo nada mesmo, só esperando um pagamento do último serviço e o praga que havia me contratado, um advogado brilhante e com um belo par de cornos, estava me enrolando dizendo que eu não havia entregue todos os negativos fotográficos. Essa gente é assim mesmo, primeiro te contrata, depois fica morrendo de medo de chantagem. São uns cretinos. Mas se bem que eu conhecia uns camaradas do Rio que faziam isso.
A gente lê livros e vê filmes adoidado de detetive e policial e acha tudo uma maravilha, que vivem bem, tem tudo. Pura merda, eu mesmo já tive que andar de ônibus várias vezes porque não tinha o que dar de beber ao Red. Daí o coitado, ficava na oficina de um amigo vários dias, vendo desnudar-se os seus patrícios.
Deixava lá para alguns reparos e que eram pago na base da troca. O cara da oficina, Alexandre não sei do quê, usava o carro e fazia alguns serviços necessários. Acho que o Red até gostava mais dele que de mim, talvez porque o cara fosse o primeiro dono, até eu conseguir comprá-lo em uma jogada que fizemos. O salafrário do fusca funcionava uma beleza logo que saia da oficina, no entanto era só passarem umas duas semanas e ele logo arrumava alguma coisa para dar uma passadinha por lá. Talvez estivesse enamorado da bela perua que Alexandre tinha comprado.
Depois de tomar um banho liguei para um tele-pizza. Apesar de gostar e saber cozinhar eu não tenho saco pra isso não. O pior mesmo é lavar a louça depois. Me lembro que coisa de dois meses atrás eu tinha comprado um jogo de pratos lindos, meia dúzia. Agora só tenho dois. Inês é que fica chateada quando aparece aqui em casa. Tem que sair catando os talheres espalhados.
O rapaz da motocicleta deu umas buzinadas e eu larguei o nunchaku e o treino no makiwara ou seiken, se preferirem, e fui me resfastelar na pizza de camarão e portuguesa.
O espaço era enorme no barracão e eu sentia-me um rei. Lá tinha meu espaço para os treinos marciais e as tentativas de aprender a dançar samba e valsa. Isso era algo ridículo mas que somente eu sabia. Eu e a merda do cara que ficava passando lá volta e meia para me cobrar as prestações do financiamento da Caixa Econômica.
Sentei-me no amplo sofá e liguei a tv. A televisão ficava lá embaixo no salão amplo. Era uma dessas coisas enormes que ás vezes a gente nem sabe pra que tão grande. 57 polegadas, quase um cinema. Eu a ganhara como parte de um pagamento na loja onde uns moleques estavam roubando walkmans e cds. Na verdade não os peguei apenas indiquei quem era o receptador.
Em dias como os de hoje a gente raramente vê a cor do cacau, a maioria dos serviços são pagos com trocas de favores, serviços, aparelhos e aqueles que, graças a Deus, nos pagam em espécie acabam pedindo prazo ou mesmo prestações, como se fossémos uma loja.
A coca-cola da geladeira estava quase choca e como eu não tinha pedido uma, tive que me entalar com a pizza e uma choca-cola.
Então, depois de saciado, sentei-me em frente ao computador e tentei checar com a policia se havia algo contra o tal de João do Prado, o ex porteiro lá do edifício. A Maria me forneceu o nome dele.
Com a ajuda de um amigo infomaníaco (não gostava que o chamassem de racker) consegui uma senha de acesso aos dados do arquivo da policia estadual. Outra troca de favores. Este rapaz havia sido pego xeretando as contas de uma funcionária pública. Na verdade estava era querendo saber o endereço dela, disse estar apaixonado, e para isso entrou no banco de dados da Caixa Econômica. Sorte que eu conhecia o gerente da agência, o mesmo que avalizou minha carta de crédito, e assim pude resolver a situação e tirar proveito. Agora sempre que precisava tinha um aliado.
Lá estava, como eu suspeitava: Em março do ano passado, João do Prado foi reconhecido por um turista como o homem que lhe roubara o relógio durante um baile no carnaval. Um advogado da Universidade Federal, conseguiu um habeas corpus e o soltou depois de quinze dias de chilindró.
Coincidência. Mesma época que agora. Aí tinha sapo. Peguei o endereço dele na ficha policial e pus o Red para funcionar. Estava um tempo feio, chuva fina o dia todo. Já viram como é difícil feriado de Carnaval não chover?
Eram perto das Sete da noite quando cheguei no Morro da Caixa. Barra pesadíssima. Ainda mais em época de Carnaval. Ajudantes, moleques do saco como eles chamam, estavam espalhados por todas as vielas da favela. A policia nunca encontra ninguém quando sobe o morro, por merecimento do ato desses moleques. Ficam como vigias e ao mesmo tempo como guias para possíveis compradores.
Conhecia alguns ali. No nosso ramo temos que ter contatos. E aqui contato era essencial.
--- Fala aí Dr.! – gritou Janjão se aproximando. Ele era um menino magrela e ossudo, com um nariz longo e orelha com brincos. Usava  uma bermuda dessas de surfistas e uma camiseta regata. Já éramos amigos a muito tempo, será que preciso dizer como o conheci? Acertou, troca de favores de novo.
--- Fala Janjão! – estiquei o punho e nosso braços se cruzaram em seguida abri a mão e as apertamos.- Tá tudo tranquilo aí? – indaguei. Eu continuei dentro do carro falando com ele pela abertura do vidro da porta.
--- Beleza, barra limpa! Mas que que manda? Tá atrás de algum maluco? Ou será que hoje vai experimentar?
Sorri.
--- Não! Escuta, coisa nossa.
--- Pode mandar patrão! Aqui falou aqui morreu.
--- Conhece um cara chamado João do Prado?
--- Hii mano, pelo nome é brabo hein? Que o cara faz?
--- Deve ser zelador. Pelo menos era até pouco tempo atrás.
--- Sei! Mas isso é pouco! Que mais? Casado? Filhos?- disse ele resfolegando o nariz.
--- É magro, deve Ter 1,60 de altura, gosta da cana e talvez de um canudo. Veio do oeste.
--- Pô magro, tá difícil! – ele se curvou mais colocando a cabeça para dentro do carro.
--- Entra ai! – disse.
--- Qual é mano, vai me queimar! Entrar nesse carro velho?
--- Hei, ai está ofendendo o Red. Ele não é velho, é vivido.
--- Sei!
--- Olha o cara trabalhava no prédio onde tinha umas minas que fazem...
--- Cara, tú não tá entendendo.. disse ele raspando o indicador no polegar.
Safado.
--- Olha Janjão tô maus de grana cara.
--- Pois é, então fica difícil sabe.. eu lhe disse que não sei de ninguém assim..
--- Talvez eu consiga com outra pessoa.
--- Pode tentar mano. – disse ele rindo – mas quando eu disser a eles que tu é cana, aí vai ser ruim sair daqui hein?
Final da estória. Cinquenta mangos a menos na carteira. Eu e a minha maldita idéia de investigar algo que ninguém pediu. Me sobravam deizão para a gasolina.
--- O cara mora lá na pedreira. Ele e a esposa. Mas não tá ai não! Viajou ainda ontem á tarde. Parecia com pressa.
--- Viajou pra onde?
--- Sei não! Talvez a irmã da mulher dele saiba!
--- Sabe onde ela mora?
O miserável caçador de níqueis me olhou com aquele olhar de cobra pedindo mais grana.
--- Não! Chega, não tenho mais nada comigo.
O negro sorriu mostrando os dentes brancos.
--- Tá limpo chefia! Ela mora logo ali depois ....- mal acabou de me passar o endereço, uma viatura da policia passou por ali.
Ele afastou-se e eu liguei o carro.


Fui embora. Voltaria depois com mais tempo e quando o carnaval tivesse passado. Já pensou se tivesse que pagar mais cinqüenta paus por outra informação?
Voltei para casa e fui acabar de ler o livro que havia iniciado no dia anterior. Já havia assistido o filme, mas o livro sempre é melhor. Me lembrei dos filmes do Stephen King e os livros. Quanta diferença. Ainda não sei de nenhum filme que ficou melhor que sua versão escrita. Os livros sempre contém mais detalhes e são mais ricos em informações que os filmes.
Em vinte minutos acabei a leitura. Fiquei com saudade dos tempos em que pagava a assinatura da TV a cabo. Não estava com saco de sair debaixo de chuva e na TV não tinha nada de bom. Fui para a internet.
Fiquei acordado até umas duas horas fuçando os sites de sexo, e também os da Nasa. Muito controverso né? Mas é isso mesmo, adoro uma pelada mas também adoro os avanços da ciência. Se pudesse voltar no tempo e fazer faculdade, ou tivesse saco para isso,  gostaria de fazer biologia, me parece que agora há um ramo novo, biologia espacial.
Acordei Quarta-feira ás sete da manhã e fui praticar um pouco de ginástica. As argolas no meio da sala que assustaram Inês quando veio em casa pela primeira vez são minhas prediletas desde que assisti uma evolução de um americano nas olimpíadas de 92, acho que foi em Los Angeles, não estou certo. Fiz alguns exercícios no sando baco, ou saco de bater, dá na mesma, durante uma hora e vinte e depois de tomar um bom banho fui estudar um pouco de línguas. Russo e Japonês. Havia comprado um coletânea de Cd Rom de línguas. O inglês eu conseguia me safar, o espanhol também, mas japonês e Russo era difícil.
Atendi o telefone e sem perceber estava dizendo:
--- Eiga o mi ni ikimasen ka? –
--- Hei que é isso? Será que o telefone está errado? – disse Maria na voz macia e sensual de sempre.
--- Desculpe-me, eu estava estudando e me empolguei!
--- Xstranho, o Antônio falou com você ontem?
--- Falou, eu logo estarei aí! Não se preocupe!
--- Tudo bem! Eu vou chegar mais tarde mas a Márcia tem a chave, só que elas estavam com medo que você não estivesse lá.
--- Estarei lá daqui a – consultei o relógio, nove e meia - .. daqui a  meia hora!
--- Ok! Obrigado e hã... o que você disse? Era que língua?
--- Japonês, quer dizer “Vamos assistir a um filme”?
--- Está me convidando de verdade? – riu ela do outro lado – Olha que eu aceito!
--- Maria, Anton moi druk, maia brat!
--- Pára com isso!
--- Tchau!
--- Até mais!

Adoro isso de falar outra língua e ninguém entender merda nenhuma. É uma espécie de poder, não só para aparecer mas sim para testar minha pronúncia. O ruim é que não tem ninguém para testar a conversação.
Cheguei a gravar uma fita cassete para ouvir no Red durante minhas andanças e volta e meia me pegava falando sozinho: “Kac vaz zabut?” “Gengina Klasivaia” e outras coisas mais que volta e meia me vinham a memória. É, por essas e outras coisas muitos me achavam maluco, mas sério mesmo, ás vezes até eu me achava assim. Talvez aí a explicação do apelido, Xstranho. O meu nome é feio mas é sugestivo. Ives T. Gadwour. Eu mudei o nome antigo é claro. Antes era Jomar da Silva. Nomezinho filha da puta. Ives é mais sério, mas depois pegou Xstranho e ficou nisso mesmo.
Cheguei no prédio cinco para as dez e dessa vez sem ouvir fita alguma, pois fazia dois meses que tinham roubado meu toca-fitas e desde então adeus fitas de linguas. Até hoje não entendi o bilhete no porta-luvas e os cinco reais. “ isso é para lavar teu carro, hombre!”! Pode isso, ladrões com senso de humor e ainda por cima ladrões que sabiam espanhol.
Alexandre me prometera colocar um aparelho de Cd no Red mas isso ele sempre esquece. Esquece ou está esperando eu comprar um, afinal ele só prometeu colocar e não comprar.
Márcia chegou toda chique e pintada como sempre. Assim que ela apontou na esquina eu me postei na frente do edifício. Nos cumprimentamos e levantamos a grade de ferro. Ela tirou a chave de dentro da bolsa depois de remexer meia hora lá dentro e abriu a porta de vidro de acesso ao hall do prédio. Eu fui para a mesinha suja no canto e coloquei minha mochila em cima da mesma.
A garota olhou para mim e disse:
--- Você não gosta de fazer massagem? – disse com aquela voz rouca e sexy que toda mulher sabe fazer quando quer provocar alguém.
--- Gostar eu gosto, o que não gosto é de pagar por isso.- disse tirando um exemplar fino de capa vermelha de uma coletânea. Esse era uma coletânea de contos de Edgar Allan Poe. Falara sem dar importância ao que dizia. Eu me tornara amigo dessas garotas e não me sentia inclinado a ter uma sessão de massagens com elas. Primeiro porque não aguentaria e iria querer transar, e sei que isso elas não iriam fazer ali, pois Antônio dissera que se quissessem marcar programa poderiam marcar mas ali era somente massagem. Se bem que eu desconfiava disso, pois como ele iria saber o que ocorria dentro dos quartos?
--- Grosseirão! – exclamou ela bufando.
--- Desculpe, não quis ser grosso, apenas disse o que é verdade.
Ela imitou um pato, fez um bico gigante com aqueles lábios vermelhos e foi até o elevador.
---- Poderia ao menos subir comigo? Não se preocupe que    não vou estuprá-lo! – disse zombeteira.
--- Que pena! Estava torcendo por isso! – disse comigo mesmo.
--- Que foi que disse! – essas meninas não tem papas na língua, o que tem que falar elas falam. Era melhor eu ficar quieto.
Subi com ela até a sala e desci novamente. Ao chegar lá embaixo outras duas garotas estavam esperando o elevador.
--- Ai! Ainda bem que estás aqui! Puxa, pensei que não ia vir hoje! A Maria disse que não tinha certeza se você vinha! – disse a assustada Patricia.
Nada como uma boa massagem no ego. Estavam as duas entrando no elevador quando Maria chegou exalando sensualidade. Sobre sandálias de salto alto seu andar cadenciado era puro sexo em um vestido curto, vermelho, que realçava seu corpo. Seus poros respiravam sexo.
--- Seu safado! Que negócio é aquele de brut, brat que disse no telefone? Estava me cantando? – disse passando os dedos no meu rosto. Mãos perfumadas.
--- Disse que Antonio é meu amigo, meu irmão.
--- Ah sei, em japonês?
--- Nâo, em russo! Afirmei.
--- Sei! Então é bom de língua né? Uma hora eu ainda vou aprender um pouco com você!
Eu olhei sério para ela. Puta saco, a mulher era uma tentação e vivia me provocando e ao mesmo tempo era a garota de meu melhor amigo. Merda, por que não tinha um pouco menos de escrúpulos, como ela.


..... continua....
Ivair Antonio Gomes
Enviado por Ivair Antonio Gomes em 06/01/2006
Código do texto: T95077

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Sobre o autor
Ivair Antonio Gomes
Palhoça - Santa Catarina - Brasil, 47 anos
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