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O Quinto Homem - parte 06

               20:20


Marcelo consulta o relógio. Vinte minutos e nada.
"Tratante." Começa a se impacientar.
Corre mais uma vez os olhos pelo local.
Um balcão em "U", separando o bar do restaurante; As luzes, amareladas com o frio da noite, davam um tom nostálgico ao lugar.
No rádio a música era sertaneja.
"Droga, me estrepei de novo".

.... e eu chameeeei...  e eu choreeei...-- reverberava a voz do cantor no rádio.
"Bom, agora pelo menos já tenho algo novo nesta história toda."
.... risquei na areia seu lindo rosto...
"Tenho que ligar para ..."
----- Contando os segundos? -- a voz dela o retirou dos pensamentos.
Estava encantadora.
Uma blusa vermelha de lã, junto ao corpo e uma deliciosa calça jeans, que, por milagre, conseguia esconder alguma coisa daquele corpo. Cabelos pretos, soltos, compridos.
            Estava pronto para lhe dar uma bronca, mas seu sorriso aberto lhe deixou sem jeito.
---- Hã, hã!! É, é!! -- tentou resmungar algo que ela entendesse.
---- Ora, que é isso!? Pra cima de mim com essa cara !! Em Floripa deve estar acostumado a esses jantares a dois. -- lhe disse assim que se sentou.
---- Nunca janto fora de casa. - já refeito - Levo a refeição para casa, é mais aconchegante! -- tentou sorrir.
O empregado do estabelecimento se aproxima.
---- Sr.! O cardápio! - inclina-se e o coloca na mesa.
---- Obrigado, mas eu estou sem fome. Os salgados já me encheram. - disse colocando as duas mãos na barriga.
---- Ha, mas eu estou. - disse ela puxando o cardápio de suas mãos quando este fazia menção de entregá-lo  ao garçom. - Deixe-me ver! - e  começou a escolher.
    Marcelo a olha fixamente. Seus olhos se cruzam por instantes. Os dela fogem dos seus.
O homem por detrás do balcão chama o garçom com um gesto. Este se afasta um pouco.
 ---- Senhor, Marcelo é o senhor? - Marcelo achou graça como o garçom magrela e desengonçado, com o avental na cintura, se portava.
Faz um sim  com a cabeça.
Olha para a beldade a sua frente.
A noite vai ser longa.
 ---- Desculpe Sr., um telefonema para o Sr. -- lhe disse o garçom assim que confirmou.
Esse negócio de Sr. já estava enchendo o saco.
Telefonema!?
Quem poderia ser? Ninguém sabia que estaria ali.
Marcelo levanta-se.
---- Desculpe-me princesa, mas o dever me chama. É só um minuto!  não se mexa daí! -- deu dois passos e virando-se repentinamente -  não vá  fugir. -- sorrindo.
Ela sorriu também, divertida.
 

Pega o telefone.
---- Alô!!
---- Sr. Marcelo?
---- Sim, é ele! Quem fala?
---- Digamos, que um amigo preocupado com sua estadia em Itá .
---- Eu conheço todos os meus amigos. Nenhum deles se esconde de mim, com medo de mostrar sua cara. O que deseja ?
---- Saia da cidade enquanto pode seu idiota. Quem mexe nas cinzas pode reacender o fogo sob ela escondido. -- a voz veio  áspera e forte.
---- Escute aqui cara, eu ...
--- trompt,...
Desligou.
Se a intenção era intimidá-lo só o estavam deixando ainda mais curioso.
Era um caso muito complicado, e ele se perguntava quantas  coisas estranhas ainda aconteceriam.
Parecia coisa de filme. Só que com uma desvantagem! Era real! Prova disso era o galo que ainda levava na cabeça e os amassados no carro.
          Primeiro o sócio sumira; deixara um recado onde estava um velho morto; outro recado para ir até Itá; uma perseguição mortal na Br.; sofrera um ataque no hotel, onde só queriam um livro velho que continha algumas informações que  não queriam que ele  desvendasse e agora esse telefonema.
Era um tremendo quebra-cabeças.

Voltou ao restaurante.
Mesmo antes de sentar, notou a diferença. Havia acontecido algo enquanto fora até o telefone.
O rosto da moça estava sério e quase assustou Marcelo, que esperava um sorriso.
---- O que foi?? -- pergunta sentando ao lado dela.--- O que aconteceu? Porquê está assim? --  coloca suas mãos sobre as dela. Estavam geladas. Isso dura um segundo. Em seguida ela as retira como se seu toque fosse algo grotesco.
---- Olha, desculpa se o simples fato de te deixar sozinha um instante, te fez tão mal, mas  não demorei nem cinco minutos, enquanto a senhora me fez esperar quase meia hora e eu  não disse nada.  --  tentou se desculpar.
---- Tenho de ir!  -   a voz saiu sem força.
---- Como assim!? Que quer dizer!! -   não a entendia. Alguma coisa havia acontecido enquanto ele atendia ao telefone.  --  Você me convida para jantar , demora quase meia hora para chegar e dez minutos depois que chega quer ir!? Sinto muito, mas  não vai se livrar de mim assim tão fácil, princesa!!
Ela levanta-se.
Ele a agarra forte pelo pulso.
Olha nos olhos dela.
É um olhar já conhecido. Um olhar de medo. Lágrimas rolam pelo rosto da moça.
---- Você disse que tinha algo para me dizer, e ainda  não me disse nada.
---- Por favor, largue-me.  --   ela implora num sussurro.- Por favor! - Ela suplica.
--- Tudo bem, mas eu a acompanho. Você  não me parece em condições de ir a lugar nenhum sozinha. --  tirou a pressão do braço dela.
Levanta-se  também e ao arrumar o chapéu por sobre os cabelos, nota que todos no bar os observam. O silêncio mostra que ouviram tudo que aconteceu por ali.
Caras feias; barbas para fazer; cigarros de palha ou cigarros  na boca sem dentes de alguns, olhos e ouvidos atentos ao que se passa entre aquele estranho e a moça.
---  Não preciso! Posso ir sozinha.  não preciso de sua ajuda!
            Estava nervosa. Fosse lá  o que fosse que aconteceu , mexeu muito com ela.
            Saiu em disparada pela porta.
           Marcelo a encontra logo, assim que deixa o dinheiro no balcão.
--- Entre no carro! Está  frio aí fora!
           O carro vai ao lado dela lentamente pela rua principal.
           ---- Vai embora cara, será  que você  não entende?! Vê se me esquece!
           Ele vai falar algo, quando, de repente, na esquina, surge um caminhão,  não se sabe de onde, que, acelerando, avança sobre eles com tudo.
           As luzes do farol ofuscam por um instante Marcelo.
           Só por um instante, no segundo seguinte, ele gira o carro e bate os faróis de frente para o outro veículo.
           Abre a porta e salta para fora do carro.
           Rola sobre si várias vezes até conseguir parar. Ainda deitado vê o caminhão se afastar longe já do gol, agora atirado sobre um canteiro na rua principal. Está  todo amassado. A parte frontal totalmente destruída.
           Se estivesse lá  dentro estaria falando com Deus, ou com o Diabo, pensa Marcelo.
           Só então lembrou-se de  Carla .
           Uma multidão de curiosos já o cercava, quando levantou-se.
           ---- Tudo bem contigo ?
           ---- E aí! Quer que chame um médico?!
           ---- Por pouco hein meu?!!
           Tenta se livrar deles. Empurrando consegue se desvencilhar um pouco dos braços que o agarram.
           ---- Acho que a tua amiga  não teve a mesma sorte que você. -- alguém lhe diz com sotaque  italiano.
Ivair Antonio Gomes
Enviado por Ivair Antonio Gomes em 08/01/2006
Código do texto: T96162

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Sobre o autor
Ivair Antonio Gomes
Palhoça - Santa Catarina - Brasil, 47 anos
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Ivair Antonio Gomes