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Brejo Santo - Dos Cariris aos Santos

Meu irmão Brejosantense
Eu quero lhe contar
De maneira muito clara
Pra você não duvidar
Quem foi o primeiro homem
Que aqui esteve a morar
II
O primeiro habitante
Aqui deste lugar
Foi o índio Cariri
Não se pode negar
Há o sítio arqueológico
Pra isto comprovar
III
O senhor Luis Bastos
Pode nos relatar
Sobre as peças de cerâmica
De uso domiciliar
Que no sítio baixio
Encontrou ao escavar
IV
A estas, uns porrões
Vieram se somar
Que foram usados
Para os índios sepultar
Flechas, arcos e colares,
E coisas de curumim brincar
V
Os operários braçais
No trabalho de escavar
Na busca da areia
Pra na construção usar
Descobrem peças raras
Não há como as catalogar
VI
Nada ainda foi feito
Para as preservar.
O achado cultural
Vai se desperdiçar
Nenhuma providência
Ninguém pensou em tomar
VII
Até quando aqui morou
Não podemos afirmar
Mas uma coisa é certa
Fugiu para se salvar
Da ganância do branco
Que o quis aniquilar
VIII
O branco aqui chegou
Para mata derrubar
Buscando mais terra
Para seu gado criar
Ameaçado, o índio
Teve que se retirar
IX
Seguindo o curso do rio
O sesmeiro quis se apossar
Das terras do brejal
Após solicitar
Do donatário da província
Um sesmo pra cultivar
X
O sesmeiro pediu terra
Mas aqui não quis ficar
Outros tiveram que vir
Para a terra povoar
Quem primeiro aqui chegou
A história não sabe contar
XI
Do sesmeiro Antonio Lobato
Não há algo a relatar
Dele a lenda e a tradição
Nada teve pra narrar
Da Barbosa e dos Martins
Sempre se ouviu falar
XII
Há uma bonita lenda
Que todos sabem contar
Sobre uma viúva baiana
Que aqui veio morar
Seguindo a pista dos porcos
Que encontrou este lugar
XIII
Morando em Porteiras
Estava a enfrentar
Um tempo duro de seca
Difícil de suportar
A fome e a sede de todos
Precisava saciar
XIV
Os porcos que haviam sumido
Chegaram ao retornar
Com os mocotós sujos
E ela ao observar
Descobriu que havia água
Bem perto daquele lugar
XV
A experiente mulher
Disse sem demorar
Observem os animais
Sem se descuidar
Logo que sintam sede
Pra lá eles vão voltar
XVI
Os escravos ficaram atentos
Ninguém quis se descuidar
Pois os animais
Podiam os despistar
Seguiram-nos com cuidado
Para a água encontrar
XVII
Após algumas léguas
Vieram se deparar
Com um terreno de brejo
Que era de encantar
E uma grande nascente
Com um serrote a ladear
XVIII
A viúva Maria Barbosa
Começou a trabalhar
Na construção da casa
Para pra cá se mudar
E de fazenda Nascença
Denominou o lugar
XIX
Tornou-se conhecida
Pela inteligência sem par
Comentava-se sobre ela
E a beleza do lugar
Do Brejo da Barbosa
Todos ouviam falar
XX
Dizem que tinha dois filhos
Um só aqui veio morar
O outro ficou na Bahia
Sem nunca aqui pisar
E que tinha um feitor
Pra terra administrar
XXI
Não sabemos se o sesmeiro
Aqui veio a encontrar
Ocupando estas terras
Sem as documentar
Da tradição o seu nome
Jamais ninguém vai apagar
XXII
Se foi posseira ilegal
Ou proprietária titular
Seu nome bem vivo
Na história há de ficar
Pois “Brejo da Barbosa”
Foi nome deste lugar
XXIII
Se veio de Porteiras
Para aqui morar
Ou se viveu na Bahia
Sem nunca aqui pisar
Não se sabe ao certo
É preciso pesquisar
XXIV
Foi viúva de procurador?
Podemos imaginar...
Seu esposo um curral
Aqui veio administrar?
A sua existência
Não podemos descartar
XXV
Se construiu a casa grande
Pra na Nascença se instalar
Se deixou suas terras
Pra seus dois filhos herdar
Se é verdade ou lenda
Ninguém pode afirmar
XXVI
Que a Nascença foi vendida
Sem seu filho aqui pisar
Para o alferes Gonçalo
Que a estava a administrar
É o que diz a tradição
E não podemos negar
XXVII
Quanto ao sítio “Brejo”
Vem a história relatar
Que Francisco Pereira Lima
Nele esteve a morar
É este o primeiro dono
Que em livros se vê citar
XXVIII
O escritor Otacílio Anselmo
Tentando elucidar
A dúvida que existia
Sobre Francisco no ar:
Disse ser filho da Barbosa
Foi firme em afirmar
XXIX
No cartório, Padre Gomes
Em Pambu foi encontrar
A sua genealogia
E dá pra se notar
Que Otacílio pesquisou
Em fonte popular
XXX
Ambos falam da baiana
Como tradição popular
Dizem que de seu nome
Sempre se ouviu falar
Até no pedido do sesmeiro
Ele se fez notar
XXXI
Dizem que Brejo da Barbosa
Foi nome deste lugar
Que uma posseira existiu
E não se pode negar
Bem antes do Antonio Lobato
Este sesmo solicitar
XXXII
Esta suposição
Na história se faz notar
Pois os escritores citados
São unânimes em afirmar:
As tradições cometem falhas
E podem um nome deturpar
XXXIII
A chave do mistério
Nós vamos encontrar
Nos livros de registros
Onde se vê citar
Que Lourença BARBOSA de Melo
Foi dona desse lugar
XXXIV
Lourença quis esta gleba
A uma filha doar
De nome Theodora
Depois de se casar
Pra com o seu esposo
Aqui vir morar
XXXV
Francisco Pereira Lima
Tornou-se ao se casar
Genro de Lourença Barbosa
De quem tanto já se ouviu falar
Com o nome de Maria Barbosa
Que o povo conseguiu mudar
XXXVI
Esta é minha versão
Depois de pesquisar
Escritores e Freguesias
Tentando encontrar
A origem de Maria Barbosa
A pioneira do lugar
XXXVII
O alferes Gonçalo Sampaio
O vale veio povoar
E com a esposa Lourença
Uma descendência deixar
Que de Barbalha ao Pernambuco
Começou a se espalhar
XXXVIII
Francisco Pereira Lima
Nesta terra a trabalhar
Junto com Theodora
Viu aqui multiplicar
Os membros da família
A quem tanto soube amar

XXXIX
Os seus descendentes
Vieram-na retalhar
E venderam algumas partes
E temos como provar
Há algumas escrituras
Que podem comprovar
XL
Nelas “Brejo da Barbosa”
Passa a figurar
Como nome do sítio
Que se está a escriturar
Diante do documento
Como vamos duvidar?
XLI
São onze escrituras
Onde se faz notar
O nome “Brejo da Barbosa”
Nas terras deste lugar
Mesmo que seja lenda
Na história ela vai ficar
XLII
Há ainda uma versão
Da qual desejo falar
É sobre a Casa da Torre
Com os currais a espalhar
É uma suposição
Nada se pode provar
XLIII
O domínio do Garcia
Não se pode negar
Chegou a este vale
Há livros a relatar
Mas nunca no sítio Brejo
Dele se ouviu falar
XLIV
Aqui foi zona curraleira
Todos sabem contar
Que dede os primórdios
O gado esteve a vagar
Nos latifúndios enormes
Dos ricos a senhorear
XLV
Brejo, Nascença e Poço
Eram terras de criar
Gado em quantidade
Pra comer e exportar
Mas em procurador de curral
Nunca se ouviu falar
XLVI
O Poço era domínio
Pra se avaliar
Em muito dinheiro
De não se saber contar
Bartolomeu Martins de Morais
Cedo ali veio morar
XLVII
A Nascença, terra fértil
Bonita de admirar
Estava com o alferes Gonçalo
A lhe administrar
E este em segundas núpcias
Resolveu se consociar
XLVIII
O feitor Alferes Gonçalo
Decidiu se casar
Com Joana Martins
E na Nascença criar
A prole que viria
Pra seu nome perpetuar
XLIX
Gonçalinho e Pedro Martins
Nasceram naquele lugar
Mas Pedro Martins em Milagres
Terras veio a herdar
Do avô Bartolomeu
E pra lá quis se mudar
L
As terras do sítio Poço
Bartolomeu quis deixar
Pra seus descendentes
O patrimônio preservar
Pedro Martins de Morais
Quis delas com amor cuidar
LI
Gonçalinho na Nascença
Resolveu se fixar
Com Joana Maria Filgueira
Veio a se consorciar
E os irmãos Santos
Geraram naquele lugar
LII
De Inácio dos Santos Oliveira
Tornou-se, ao se casar
Parente, ou melhor “genro”
E começou a povoar
As terras da Nascença
Onde continuou a morar
LIII
Nasceram cinco irmãos
E para variar
Veio uma menina
Para a família alegrar
E pelo nome de Ana
Resolveram -na chamar
LIV
Manoel Santos ou “Neco”
Em Ipueiras foi morar
Depois de com Francisca
Ter resolvido se casar
Apesar de ignorante
Não gostava de matar
LV
João Inácio dos Santos
Depois de se casar
Com Antonia Pereira Lima
Resolveu se mudar
Para o sítio Olho D’Água
Aonde foram morar
LVI
Francisco Inácio dos Santos
Quis se desencaminhar
Pelos caminhos do banditismo
Preferiu cedo optar
E pela alcunha de “Tico”
Costumavam-no chamar
LVII
Cosmo Inácio dos Santos
Pelo povo se faz lembrar
Como homem violento
E desordeiro sem par
Matou o mestre Antonio
Pra morte de João vingar
LVIII
Pedro Inácio dos Santos
No Poço foi morar
Mas morreu na Nascença
Por ali se encontrar
No dia que a polícia
Veio ao “Santos” aniquilar
LIX
Na família “Santos”
Alguém soube se destacar
Pelo tirocínio comercial
A ponto de se chamar
De Dona Ana Sabida
Por saber negociar
LX
Qual o outro sobrenome
Que se deve dar
Oliveira, Brito ou Rocha
Pra seu nome completar?
Basta apenas “Santos”
Para os identificar
LXI
O capitão Gonçalo Junior
Gostava de brigar
E se tornou conhecido
Pelo hábito de “mandar”
Foi morto no Cantagalo
Com a polícia a lhe cercar
LXII
Os Santos sempre foram
Como pai, de brigar
Por qualquer coisa
Estavam a importunar
A ninguém desculpavam
Nem sabiam respeitar
LXIII
João dos Santos com Antonia
Chegou a se casar
E com Antonio e Senhorinha
A mesma família formar
De Francisco Pereira Lima
Neto afim se tornar
LXIV
João, um certo dia
Resolveu encomendar
Um carro de boi
Pra seus troços transportar
E com o mestre Antonio
Foi de repente falar
LXV
Ao receber o carro
Chegou a notar
No cabeçote do mesmo
Um nódulo a brotar
O mestre lhe garantiu:
É seguro, pode levar
LXVI
O carro não resistiu
Mercadoria transportar
O cabeçote quebrou-se
Sem o prazo consumar
E João ao concunhado
Foi logo desacatar
LXVII
Ao mestre Antonio
Ele foi logo procurar
Bateu-lhe de chibata
Para o desmoralizar
O artista muito ofendido
Planejou lhe matar
LXVIII
Mestre Antonio resolveu
Uma emboscada armar
Para de surpresa
O concunhado matar
O seu único desejo
Era sua honra lavar
LXIX
Voltou para casa
Após o plano consumar
Simulou uma doença
E na cama foi deitar
Recebeu a notícia
Fingindo se assustar
LXX
Aos irmãos Santos
Conseguiu enganar
Que suspeitavam de todos
Sem dele desconfiar
E mataram vinte pessoas
Para o irmão vingar
LXXI
Certo dia Seu Cosmo
Resolveu ameaçar
Ao Mestre Antonio
Prometendo lhe matar
Por uma questão de terra
Ofende-lhe gritar
LXXII
Em casa, mestre Antonio
Resolveu desabafar
E a esposa senhorinha
Disse sem se controlar:
“Eu já matei um
O outro não custa matar “
LXXIII
No oitão da casa
Estava a descansar
O escravo Joaquim Sabido
Que não deixou de escutar
E correu ao sítio Nascença
Para a história contar
LXXIV
E assim os irmãos Santos
Planejaram se vingar
E também uma emboscada
Resolveram armar
Para ao mestre Antonio
Finalmente eliminar
LXXV
De Santos não tinham nada
Isto posso afirmar
O historiador Padre Gomes
Foi muito claro ao falar
Que no terror da terra
Eles chegaram a se tornar
LXXVI
Aos tropeiros e viajantes
Costumavam matar
Quando na Nascença
Resolviam pernoitar
Para os seus pertences
Com frieza roubar
LXXVII
O Brejo da Barbosa
Passou a se chamar
Brejo dos Santos
Por todo e qualquer lugar
A fama dos irmãos
Começou a se espalhar
LXXVIII
Para a serra de Bonome
Mestre Antonio foi viajar
Com a escrava Eufrásia
Aonde ia farinhar
Foi morto por Cosmo
Que o irmão quis vingar
LXXIX
Caiu varado de balas
Do cavalo sem falar
Foi socorrido pela escrava
Mas morreu no lugar
Este triste episódio
Fez a polícia acordar
LXXX
Seu embornal perfurado
A família quis guardar
E mais tarde aos descendentes
Conceição iria mostrar
Entre os que o viram
Minha mãe posso citar
LXXXI
Do governo que estava
A lhes observar
Fez crescer a ira
E o desejo provocar
De atacar a Nascença
E aos “Santos” eliminar
LXXXII
Este foi um fato
Que a outros veio se somar
E a fama de banditismo
Cada vez mais aumentar
Contra os irmãos “Santos”
Os sanguinários do lugar
LXXXIII
A fama de desordeiros
Só veio acrescentar
A ira governamental
E o desejo de acabar
Com a grande violência
Reinante neste lugar
LXXXIV
Manoel Jesus da Conceição
Resolveu atacar
Era chefe político de Milagres
E veio comandar
A volante que aos Santos
No Brejo veio destroçar
LXXXV
Nem todos os irmãos
Ele Pode aniquilar
Manoel Inácio dos Santos
Conseguiu se salvar
E através da filha Donina
Sua história iria mudar
LXXXVI
Algum tempo depois
Donina viria a casar
Com Francisco Pereira de Lucena
Que conheceu ao passar
Pelo sitio onde morava
Quando parou pra descansar
LXXXVII
O tropeiro paraibano
Para o Brejo quis mudar
Deixou a cidade de Sousa
Pra com Donina casar
E a família Inácio de Lucena
Geraram no lugar
LXXXVIII
Em mil oitocentos e cinqüenta
A Nascença vai passar
Pra Simplício Pereira da Silva
Que ali veio morar
Ficando até cinqüenta e oito
Residindo no lugar
LXXXIX
João Alves Biró
Depois passa a figurar
Como proprietário
Desta terra singular
Com Manoel Inácio Medeiros
Ele a vai negociar
XC
De Manoel Inácio Medeiros
Temos aqui a morar
Os seus descendentes
Que podem nos relatar
Algo sobre a compra
Desta terra singular
XCI
Antonio Leite Rabelo
Consegue dele comprar
Aqui constrói residência
Para nela habitar
Ainda hoje ela existe
Como história do lugar
XCII
Casou algumas filhas
Com gente do lugar
Dando origem a famílias
Pro contingente aumentar
Muitos descendentes
Podemos hoje encontrar
XCIII
Passado algum tempo
Resolve negociar
A Raimundo Tavares de Sousa
Vende o bonito lugar
Que o passa adiante
Sem nele se fixar
XCIV
Muitos são os condônimos
Que vamos encontrar
Nos livros de registro
Das terras aqui a morar
A respeito de alguns
Nada se sabe narrar
XCV
O próximo proprietário
Que nela viria morar
Com amor e carinho
Dela iria cuidar
Seu cenário e sua história
Ele iria transformar
XCVI
Sua história gloriosa
Não dá para narrar
Nestas ultimas estrofes
Mas vou lhe adiantar
No meu próximo cordel
Garanto-lhe, eu vou contar
XCVII
“Advento de uma Nova Era”
Ele vai se chamar
E do Coronel Basílio
Eu prometo lhe falar
Pois sua história se confunde
Com a deste lugar.
XCVIII
Até hoje sua presença
É bem viva e deve ficar
Perpetuada na história
Pois todos sabem falar
Da sua contribuição
Com a terra que soube amar
XCIX
Da construção da capela
Com que ousou sonhar
A emancipação da Vila
Pela qual teve que lutar
Sempre esteve com o povo
Sobretudo para pacificar.
C
Gostaria que as crianças
Quisessem estudar
A história da nossa terra
Para mais tarde contar
Às futuras gerações
Que a irão povoar.


Marineusa Santana
Brejo Santo-Ceará;29/06/2006.
marineusa
Enviado por marineusa em 29/06/2006
Reeditado em 15/10/2006
Código do texto: T184436

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Sobre a autora
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Brejo Santo - Ceará - Brasil, 71 anos
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