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Lampi e o pitibu

O dia tava tão belo,
o sol beijava o chão,
jogando os raio amarelo
nos costado do meu cão,
me pus os pé no chinelo,
me pus na vadiação...

Minha fia numa mão,
na outra meu véio amigo,
um bichin de estimação,
farejadô de perigo,
lambedô de coração,
que veve junto comigo.

Saímo assim de mãos dada,
brindando o sol matinal,
as flô soltando risada,
perfumava o meu quintal,
num faltava quase nada
para harmonia total.

Pusemo os pé na estrada,
nóis atrás, Lampi na frente,
Minha fia, impertigada,
sorria, mostrando os dente,
seguimos pela calçada,
pois sou home previdente.

E lá ia nóis cantando...
Apreciando a paisage,
véio Lampi farejando
cada poste da cidade,
eu, comigo, chafurdando
saudades da mocidade.

Minha menina trelosa,
minha fia temporão,
cheirava mais que uma rosa,
grudada nas minha mão,
sua mão macia e mimosa,
me esquentava o coração.

Foi quando tão de repente,
feito corisco e trovão,
avistei dois par de dente
vindo em nossa direção,
ofegando um bafo quente,
que nem vento do sertão,

dois zóio, em brasa ardente,
enfeitava um cabeção
de assustá qualquer vivente,
inté mesmo Lampião,
fosse ateu, fosse crente,
ia moiá os calção:

As pata de um leão,
o couro de um tatu,
o ódio, sua munição,
uma turbina no cu,
voava feito avião
o canino pitibu;

A cabeça era um colosso,
trezentos quilos ou mais,
duzento era só de osso,
sem contá os temporais,
num dava pra vê pescoço,
pois era grosso demais;

Os peito do cão se inchava
que nem sapo cururu,
e quando o bicho rosnava
seu grunido de urubu,
os pelo se arrupiava
que nem o mandacaru.

Só o rabo era cotó,
o resto, descomunal,
metade do mocotó
servido na água e sal,
ia matá, ele só,
toda fome nacional.

E só pra falá de fome,
desta fome assassina,
que ao pitibu deu o nome
de fome zero canina,
pois vai servir de reclame
pro new -PT- vaselina…

De volta pro nosso assunto
do cão de fúria assassina,
já me sentia um presunto,
eu e a minha menina,
mas o Lampi tava junto
da providência divina.

Avançou o cão amigo,
antecipando a batalha,
antecipando o perigo
pois os dente de navalha,
ia cortá nosso imbigo
prá levá como medalha.

Lampi partiu para a luta
como um bravo nordestino,
pegou o filho da puta
pelo nó dos intestino,
sem nem me fazê consulta
sobre o perverso canino.

Mas um pitibu de rinha
acostumado na briga,
num tem a prega rainha,
num tem pelo na barriga,
come merda com farinha
e até sua própria lumbriga,

é uma parada indigesta
prá um cão domesticado,
acostumado com festa,
comidinha de mercado,
que traz escrito na testa
o tanto que ele é amado.

O assassino ensinado,
que o seu dono representa,
já mais que acostumado
nestas batalha sangrenta,
pro mode que foi criado,
do jeito que o dono pensa,

deu um golpe traiçoeiro
e abocanhou o meu cão:
Pegou o pescoço inteiro
e uma parte do pulmão,
vi Lampi soltá o cheiro
de um defunto no caixão.

Ca fia bem protegida,
parti para luta tabém,
se Lampi dava sua vida,
que é tudo o que ele tem,
num vai sê causa perdida
do mal por riba do bem.

Apanhei pedra graúda
bem no meio do caminho,
alenvantei a marruda
e mirei bem no focinho:
Que padin Ciço me acuda!
Nunca me deixe sozinho!

Feito essa reza ligeira,
desfechei golpe mortal,
mas ao errar a primeira,
acertei meu animal,
que me oiô de rabeira
e alenvantou meu moral:

_Vai Luiz! Era o recado
dos seus zoínho miúdo.
_Desce a pedra do outro lado,
se precisar eu te ajudo.
_Mata este bicho malvado!
Dizia um latido mudo.

Com toda raiva incontida
e um golpe mais certeiro,
que é a arma escondida
de qualqué um brasileiro,
acabei salvando a vida
de um amigo verdadeiro.
Herculano Alencar
Enviado por Herculano Alencar em 04/09/2005
Reeditado em 22/02/2014
Código do texto: T47486
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Herculano Alencar
São Paulo - São Paulo - Brasil, 62 anos
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