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O SÁBIO E A SERPENTE

Uma serpente vivia
uma vida bem regrada
e servia de vigia
numa floresta encantada.
Protegia seriamente,
tudo que havia ali dentro
e ninguém, impunemente,
chegava até aquele centro.

A serpente era famosa,
a todos causava medo.
Defendia a preciosa
fauna, a flora e arvoredo.
Muitos dos que ali chegavam,
à entrada da tal floresta,
eram tolos, nem sonhavam,
que nem sempre a vida resta

viável, se não cuidamos
dessa terra onde ela medra.
Aos visitantes, digamos,
a serpente, sobre a pedra
que guarnecia a entrada,
mostrava bem claramente,
que a floresta era sagrada,
por respeito consciente.

A beleza do lugar
ganhou fama, correu mundo.
Todos vinham espiar,
mas não viam, lá do fundo,
as belezas protegidas.
As aves cantavam hinos...
Das flores mui coloridas,
os brilhos eram divinos.

Se os troncos engrossavam,
os galhos subiam alto.
Lá em cima se mostravam,
contra o céu cor de cobalto
e a serpente, ali na entrada,
tinha sombra e umidade,
bem como vida abastada,
sem pensar em propriedade,

pois ela apenas cuidava,
da floresta por amor.
E quando com fome estava,
para energias repor,
é claro que algum bichinho,
a criatura comia:
às vezes um passarinho,
porque senão, não vivia.

E lá dentro, no rincão
mais secreto, mais guardado,
no centro do coração,
do lugar bem preservado,
havia um berço de vida.
Se alguma coisa morria,
integrada e consumida,
de outra forma renascia.

Porém quanto mais formava
uma fama de beleza,
mais a floresta acabava,
por despertar a avareza
de quem vivia por perto.
Ocorre, então, que começa
uma história que, decerto,
mostrou ao sábio, depressa,

necessidade de agir,
porque, por sua ganância,
quem intentava invadir
a floresta, sem clemência,
era atacado, sem dó,
em rastejante atitude,
escondida no orobó,
ou pelo imenso palude.

Chegou o mestre ao lugar
e entrou sem ser barrado.
E vale até bem lembrar,
que não foi ameaçado
pela serpente, na entrada.
Deixou livre a passagem
e foi visão deslumbrada,
que lhe ficou da viagem.

Os encantos do lugar
eram tantos e tão belos,
que lhe doía pensar,
que poucos podiam vê-los.
Aves, pássaros e flores,
animais de todo tipo,
árvores e esplendores...
Mas eis que me antecipo:


vivia o sábio citado,
na vila das redondezas
e tomou ao seu cuidado,
o povo, e sobre as belezas,
da mata bem protegida,
conversou com a serpente.
Disse então:- Minha querida
amiga, és inteligente.

Pensa bem, se Deus criou
tanta beleza no mundo,
com certeza ele a deixou
para que todos, no fundo,
pudessem apreciá-la.
Por que, então, vais atacar
quem pra este lado se abala?
Bem podias relaxar

um pouco essa vigilância,
permitir que essas pessoas,
que aqui chegam, nessa ânsia,
atraídas pelas loas,
que se tecem aos tesouros
de beleza que aqui vi,
deixem de achar mau-agouro,
a tua presença aqui!

Era um mestre que falava;
a serpente o atendeu.
O mestre, que apaziguava
a serpente, ao povo deu
a notícia. E satisfeito,
voltou pra casa tranqüilo.
Sabia que todo o povo
poderia ver aquilo

que lhe causara alegria.
Levava vida normal,
não pensou, nem mais um dia,
num assunto, que afinal,
parecia resolvido.
Mas depois de algum tempo,
tendo ele presumido
que estava tudo a contento,

resolveu, num dia lindo,
passear pelo lugar.
Saiu de casa e foi indo,
a floresta procurar.
Mas levou um grande susto,
quando foi se aproximando
e recuperou-se a custo,
da cena que vou narrando:

Aquilo que um dia vira
explodindo, exuberante,
aquilo tudo sumira...
O que encontrava adiante,
era um mundo devastado,
onde tudo parecia,
em seu ar inusitado,
ter perdido a alegria.

O mestre, muito surpreso,
foi procurar a serpente
e sentiu um grande peso!
Percebendo de repente,
debaixo daquela pedra
da entrada, que antes guardava,
ele pode ouvir, de quebra,
uma voz que lamentava

a sorte de estar ali,
tão ferida e machucada.
Disse o mestre:- Mas aí,
o que fazes? Não há nada
da vida que aqui existia,
que ainda esteja de pé!
- Cascavel, pancadaria,
tu sofreste, vejo até,

por teu corpo tão ferido!
Responde-lhe a cascavel,
num murmúrio já sofrido,
embora, num tom amável,
disfarçando, com cuidado,
o seu modo viperino:
-Ó meu mestre, tão amado,
no momento, eu não atino,

com a razão e o motivo
dessa sua reprimenda,
pois segui, de modo vivo,
o que o mestre recomenda.
A todos que aqui vieram,
eu franqueei a entrada;
acontece que fizeram
grande estrago, e não há nada

que não tenham destruído.
E se eu reclamava, então,
por todos era agredido.
Por isso, eu larguei mão,
não sabendo o que fazer,
a pedra é onde me ponho,
do dia ao anoitecer,
naquele escuro medonho!

-Cascavel, lamento, eu sinto
que me compreendeste mal.
E quando eu falo, não minto,
pois não pensaste, afinal
que deixando de atacar,
acabarias ferida...
Tens guizo pra chacoalhar!
Deves usá-lo: é a vida!



(Baseado em
história dos Vedas)
Nilza Azzi
Enviado por Nilza Azzi em 19/10/2007
Reeditado em 08/02/2009
Código do texto: T701038
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Nilza Azzi
Campinas - São Paulo - Brasil
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