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ANÔNIMOS DA HISTÓRIA

                 ANÔNIMOS DA HISTÓRIA

     Numa terra devastada pela miséria e ignorância, numa época em que os desejos têm efeitos de vingança, vivem seres tomados pela ignorância.
     O Deus, que antes salvava, tornou-se história em quadrinhos. O amor que antes unia, despediu-se com ódio. As ruas tornaram-se sujas, o ar poluído, a natureza cinza; tudo, mas tudo, mesmo, que era belo acabou.
     Nessa terra infame, em meio à civilização, vivia a esperança do andarilho, pedindo pão. Com a mão estendia, e um olhar de angústia diz as palavras quase todas avulsas:
     _ Por favor, uma esmola. A fome me abateu, não sou totalmente a escória, Deus assim escreveu.
     Os que passavam ouviam o andarilho, contudo, nada diziam e, assim, sucessivamente, as palavras do que anseia se repetiam:
     _ Socorro, me ajudem! Choro na escuridão, meus sentidos passam fome, mas sempre sofro em vão.
     Logo à frente do andarilho, que pede para sobreviver, estão as mulheres, que se dão para não sofrer.
     _ Venha me querer, me tome como sua, satisfaço o seu prazer totalmente nua.
     Os que passavam ouviam, alguns nada diziam, outros instantaneamente entendiam e, por dentro da noite, se divertiam.
     Na rua paralela, ao que pedia e àquelas que se davam, estavam as crianças que roubavam e os jovens que se drogavam.
     Os que passavam viam, alguns corriam, outros, desesperadamente, queriam o que os jovens vendiam:
     _ Venham, a alucinação mora aqui! Se você quiser esquecer os problemas, com o pó vai dividir...
     E nesse ciclo de fome, prostituição e drogas, a esperança ainda vivia. No mendigo que pedia, o pão de cada dia; na prostituta, oferecendo o corpo para cada cliente; na criança que rouba, o dia todo; no jovem que se droga, por não ser paciente. Nos que passavam, dentre eles, aqueles que não entendiam que viver é muito mais que possuir bens, mas sim! amar tudo que o mundo coloca à nossa frente.
     Caso hoje tivéssemos mais amor ao próximo, além de mais consciência, não encontraríamos aos milhares os que interpretam a história que se acabou de narrar.

ELAINE BORGHI
verão de 2006
   
ELAINE BORGHI
Enviado por ELAINE BORGHI em 17/01/2006
Código do texto: T100131

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Sobre a autora
ELAINE BORGHI
Campinas - São Paulo - Brasil, 42 anos
56 textos (1486 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 06/12/16 06:24)