EDIFÍCIO ANDORINHA,

AS CHAMAS NA ALMA, 

ANDORINHA AO CHÃO...

Aconteceu em 17 de fevereiro de 1986


Tantos anos já se foram, mas até hoje não gosto de por lá passar...

O Rio de Janeiro borbulhava entre movimentos políticos, mudanças e minha vida transcorria entre faculdade de jornalismo na UFF, trabalho em Projeto de Educação para o Trânsito em convênio entre FESP/DETRAN e meus momentos e envolvimentos ao lado da 'Juventude Prestista'.

Neste dia em especial e único, eu e Luiz Ragon estávamos atrasados para reunião. Ragon resolveu estacionar o carro que dirigia no Edifício Garagem Menezes Côrtes.

 

- Ragon! Mais devagar! Isto não é avião!Na madrugada tudo bem... Agora não!

- Temos hora a cumprir! Dê um palpite que preste e me ajude a encontrar uma vaga!!!

- Será que dá pra gente parar de brigar ao menos agora? Estou cansada e ainda tenho prova na faculdade mais tarde, 'Doutor Sabe-Tudo'!

- Estudou?

- E deu tempo? É História da Arte... Tiro de letra...

-Ahhh... E o Sabe-Tudo sou eu... Cadê a P... da vaga???

-Vá pro último andar, esperto - disse com ironia - se é onde se chega por último, é onde procuram por último, né? - e me calei sabendo que estava vazia naquele momento a vaga privativa de meu tio. Usaria para nós, falaria com o responsável que me conhecia, mas não daria a Ragon o "gostinho" de saber que eu tinha esta vaga a meu dispôr... Se comunista já não convencia "Burguesinha" seria suicídio entre meus amigos. Calada, sempre mantive em sigilo este lado de minha vida.

 

Ragon me olhou como quem iria me matar, mas foi.

Estacionamos e pulamos do carro ao mesmo tempo.

 

- Não deveria dirigir este carro assim! Sabe a quem pertence... Quer problemas?

- O carro foi deixado com “O Velho” para nos servir...

- Mas evitar exageros seria mais prudente, Ragon!

- E você sabe lá de quem é o carro? Não andou olhando os documentos, andou?

- Clarooo que nãooo! Você mesmo me mostrou em meio as suas bebedeiras... O carro é de Oscar Niemeyer, Ragon! Do Grande Niemeyer! Se não consegue me respeitar ou se respeitar, respeite ao menos o genial Oscar Niemeyer, esperto! NÃO FIQUE FAZENDO ASNEIRAS COM O CARRO DE NIEMEYER, DROGA!

- Eu te odeio!

- Idem! Agora vamos trabalhar? Ei! Pára! Que fumaceira é esta? O que está acontecendo, Luiz???

 

Corremos juntos para o parapeito do prédio-garagem e fiquei atônita. Em choque!

 

- Meu Deus! - minha voz não saía...

- Ateus não têm Deus!

- Não vou discutir isto agora... Ao menos tenha piedade, Ragon!

 

Pela primeira vez, vi aquele companheiro de “pedra” abaixar os olhos e esconder suas lágrimas colocando a força de seu corpo sobre a mureta em que se apoiava.

Chorei.

 

O edifício Andorinha ardia em chamas...

As cenas que presenciei tão de perto, jamais saíram de minhas lembranças...

O Corpo de Bombeiros não conseguia fazer quase nada... Ou nada...

A escada não chegava aos andares mais altos e as pessoas já sufocadas pela fumaça, morrendo queimadas pelas chamas que exalavam, sentavam-se nas janelas prontas ou preparando-se para se jogarem do prédio em chamas...

 

Eu não conseguia acreditar no que via...

 

Faltou água nas mangueiras que os bombeiros usavam! O desespero era total. As pessoas lá embaixo gritavam e de repente vi uma mulher na janela.

 

- Ela não pode se lançar!!!Não pode!!! Tem que conseguir chegar ao terraço!!!Veja, Ragon... Já há um helicóptero sobrevoando o terraço...

 

Os motivos que a impediram de alcançar o terraço, assim como tantos outros só soube depois.

 

- Não há colchão! Não há nada para amortecer a queda dela!

- Feche os olhos ou olhe fixamente porque ela vai se jogar... - disse Ragon - com a voz sumida e o rosto baixo.

 

Olhei. Olhei fixamente para aquela mulher enquanto ela abria os braços para se lançar diretamente para a morte instantânea no asfalto lá embaixo.

 

Estendi o corpo e os braços para frente como se assim pudesse ampará-la e gritei com toda a força de minha voz em vã tentativa de ser ouvida por ela...

 

-Nãoooooooooooooooooooooooooooo!!!!!!!

 

E acompanhei a queda de um anjo, um anjo-andorinha até onde minha visão permitiu e minh’alma suportou.

 

Ragon me abraçou e me tirou dali como quem leva um zumbi direto para o escritório.

Caí no sofá da ante-sala enquanto todos ouviam os detalhes da tragédia pelo rádio e TV.

Sem dizer uma só palavra saí dali para afogar um pouco de minha tristeza no Amarelinho da Cinelândia.
A fumaça ainda cobria o céu...

Não queria fechar os olhos.

Não queria dormir.

Não queria ver a reprise do incêndio do Edifício Andorinha passando em meus sonhos.

Não queria ver a jovem mulher lançando-se como passarinho sem asas em total desespero para a morte no asfalto fugindo de ser queimada viva.

E me perguntava:
- Ela pensou? O que será que ela pensou?

 

Críticas merecidas foram feitas a todos, inclusive ao então governador Leonel Brizola - ele acusou a "multinacional" GE e até a "ditadura" como culpadas pelo ocorrido.

Depois da tragédia do 'Andorinha', muito se falou, muito se discutiu...
Algumas coisas foram melhoradas e muitas outras continuam exatamente como estavam - à espera de uma nova tragédia. 

A prevenção, isto é certo, não foi feita como deveria...

Muitas vidas se perderam em total desespero pelo descaso, desinteresse ou interesse próprio de cada um dos políticos e empresas envolvidas.

Lamentável e triste, até hoje não se teve no Rio de Janeiro nada que se iguale em descaso e proporção.

E que não ocorra é tudo o que espero...

 

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Painel em Mosaico que, criado por Belmiro de Almeida, decorava a entrada do Edifício Andorinha,
no Rio de Janeiro-RJ, imóvel que pegou fogo em 1986 matando e ferindo muitas pessoas.

O edifício, inaugurado em 1934, situava-se na esquina
Av. Graça Aranha com a Av. Almirante Barroso no centro da cidade. Recentemente, no local, surgiu um moderno edifício - A TORRE ALMIRANTE..

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ONTEM LENDO MEUS E-MAILS PARA MINHA SURPRESA E TOTAL EMOÇÃO ENCONTREI UM "CONTATO PARA O SITE DO ESCRITOR" E AO ABRIR DEPAREI-ME COM O RELATO DE JOVEM QUE DIZ SER A NETA DA MULHER QUE TÃO DE PERTO VI SE LANÇAR DA JANELA DO "ANDORINHA"...
NÃO COLOCAREI SEU NOME SEM A DEVIDA AUTORIZAÇÃO AQUI, MAS RESPONDI E ESPERO QUE MESMO SEM SABER BEM O QUE DIZER, A JOVEM TENHA ENTENDIDO QUE A AVÓ DELA PERMANECE EM MINHAS ORAÇÕES...

MUITAS ALEGRIAS E FELICIDADES É O QUE DESEJO A VOCÊ, SENSÍVEL
SEMENTE E NETA QUE "MINHA TÃO DISTANTE ANDORINHA" DEIXOU.






Music...Tema TITANic...
Desconheço os Músicos



Não foi no MAR ,
foi em FOGO!
Foi no AR ...

MarCela Torres
Enviado por MarCela Torres em 25/05/2008
Reeditado em 18/06/2009
Código do texto: T1004208
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