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O homem – seu coração, seu espaço.



Assim como o tempo dos relógios fixado em algarismos não é o mesmo tempo da alma marcado pelas experiências, o espaço dos metros, circunferências, linhas contínuas ou pontilhadas, paquímetros e compassos, não é o que carregamos dentro do peito. As distâncias se alongam ou se encurtam conforme a nossa caminhada, de tal maneira que um minuto sói transformar-se, por vezes, em penoso sofrer.
Os físicos que me perdoem. Não sei falar nem entendo de espaços tridimensionais de Euclides ou de espaços imaginários da geometria de Lobatschewski. Nem ao menos com quem fica a verdade: se com Newton em suas idéias de espaços homogêneos e independentes da matéria ou com Leibinitz que o contesta. Pouco interessa, aqui, se retas se encontram, se o espaço é curvo, finito ou infinito. Sei um pouco, é verdade, dos versos de Guilherme de Almeida... “Longe de ti, tudo é deserto/E todas as distâncias são iguais". Ou como cita Nobre de Melo, aquela frase de Sartre: “Em Paris, em Londres, em uma ilha deserta, Pedro está presente a Teresa, que se encontra em Paris". São esses espaços subjetivos tão importantes para as relações humanas os que movimentam nossos tempos afetivos.
O homem do povo traduz Heidegger, Sartre, Merleau-Ponty ou Bergson, de forma bem simples em suas frases do cotidiano: “Estou sentindo um vazio no coração (...) Quando a vi meu coração se apertou (...) Para ele, abri meu coração”. Tais espaços vazios, apertados ou abertos são o dia-a-dia da alma humana. Nas nossas incertezas pela travessia da vida, quantas vezes não nos sentimos num barco à deriva diante do oceano das dúvidas? Em realidade, nas relações interpessoais, nossos espaços podem estar dilatados, estreitados, aproximados ou distantes dos eixos vertical e horizontal da existência. São espaços conjugados ao tempo, como na equação física da velocidade, movimentando-nos para frente ou para trás, para cima ou para baixo, esquerda ou direita no círculo vivencial.
Conforme volvamos o leme da embarcação, cairemos no passado, na introversão, no recuo, na volta ao útero materno, ao medo. Ou então, para o futuro, ao ataque, à extroversão, para a luta. Quando estamos em “down”, para baixo, vivemos as agruras da descrença, da desconfiança, do inferior e das trevas. Ao contrário, as linhas ascendentes da felicidade nos elevam até Deus, ao infinito, para o espírito, inteligência, fé, luz e sonhos.
Quem nos dera se pudéssemos, num passo de mágica, sermos sempre alegres. Aí sim, os espaços da alma não seriam fronteiros com os dos demais e nos comportaríamos como se o mundo fosse nosso. Os gestos seriam sempre largos, a vida cor-de-rosa, passada das lembranças ruins nem existiria. Escreveríamos, como os maníacos da Psicose Maníaco Depressiva, em letras graúdas e espaçadas. Mas como nem tudo são flores, carregamos angústias e depressões, onde, ao contrário da alegria - em que o coração saltita – o espaço fica apertado e as letras miúdas. Sim, pois o angustiado e o depressivo tendem a escrever cada vez mais miudinho, e as letras umas sobre as outras como as lágrimas de seus olhos tristes. O compositor Garoto, em 1918, fez a música e Chico Buarque junto com Vinícius de Morais versificaram assim: "Tem certos dias em que penso em minha gente/E sinto assim todo o meu peito se apertar" (Gente Humilde). É como se a sensação de saudade, do espaço-histórico da infância apertando o peito, sufocasse a respiração, prendendo, comprimindo o ar dos pulmões numa dispnéia emocional.
Ora, não em vão é que a palavra angústia vem do latim e quer dizer estrangulamento, coarctação. E o que sentimos no peito e no coração quando estamos angustiados? Um terrível nó na garganta e aperto no peito. Se os existencialistas estiverem com a razão, a angustia é algo positivo, sinal de vida, força propulsora para a criação e produção humanas. Como estamos falando de espaço, o Homem entra em angústia quando "CAI" na vida inautêntica, no Maria-vai-com-as-outras, perdendo a autenticidade. No medo, temos temor de algo: da altura, do escuro, de andar nas ruas, de dormir só. Na angústia, não, como diz Kierkgaard - o pai do existencialismo - a “angústia é o medo do nada".
Se atentarmos para os versos de Dolores Duran. “Ah! a rua escura, o vento frio/Esta saudade, este VAZIO/Esta vontade de chorar”, vemos expor-se um espaço do coração muito mais difícil de se converter em lágrimas que o da angústia. O espaço vazio dentro de nós, converte-se ou é a conversão diante do nada, do niilismo do futuro, pois nem chorar se permite. O espaço vazio que sentimos diante do nada é característico de condição do ser humano, é o que determina a condição miserável do Homem, como diferente das coisas. O vazio do nada é, como queria Heidegger, o verdadeiramente absoluto. A angústia diante do nada é a síntese de um Homem lançado ao mundo, com certo grau de liberdade, que deve fazer-se a si em meio à desesperança, pois sabe que morrerá e recorre à religião como remota esperança.
O espaço interior, a forma como o sentimos na alma, influi nas nossas ações do dia-a-dia. Facilita ou bloqueia o desejo de nos expandirmos e nos lançarmos ao mundo. Diante dos amigos, dos entes queridos, dos colegas, poderemos mostrar uns espaços abertos, livres,  disponíveis à entrada do outro, ou, ao inverso, um espaço entrecortado de resistências e má vontade, impermeável ao aconchego. Até no caminhar pelas ruas o espaço da alma e do coração se manifesta: elas em certos dias parecem longas, largas, curtas, estreitas ou intermináveis. Quando estamos com vergonha de nós mesmos, expressamos espacialmente: “Quase enterrei minha cara no chão” (...) “Se houvesse um buraco me metia nele vivo”. Quando absortos, entregues à reflexão e esbarramos no transeunte, falamos: “Perdão, eu estava longe, distante”. A nossa vida é assim, amigos, sempre “caindo de susto”, “pulando de alegria”, “inflando de vaidade”, subindo ou descendo, aumentando ou diminuindo, elastecendo ou estreitando os espaços da intimidade. Quantas ocasiões, quando nos sentimos abandonados, temos a sensação de estarmos entregues a um espaço infinitamente amplo e ameaçador, e sentimos medo?
Diversas vezes, ao redor de nós, construímos fantasias de um espaço intocável e preste a ser ameaçado ou invadido. “Invadiram meu espaço” é a frase-lugar-comum. Tal como no automóvel que dirigimos, incorporamos nele o espaço de quem dirige. Qualquer arranhão, leve batida no veículo, será sentido no espaço do motorista. Às vezes, cercamos um pedaço de terra e colocamos a faixa “É proibida a entrada de estranhos”. Herman Hesse, por exemplo, o autor do “Jogo das Contas de Vidro” criou em seu romance uma cidade chamada “Castália”, estática e morta, em contrapartida a uma vida exterior agitada e móvel. Igual ao romance, Hesse isolou seu espaço psicológico do incômodo de outras presenças e viveu quinze anos, até a morte, cultivando rosas, bem menos perigosas que os homens.
O anátema, a maldição do espaço é tão forte sobre os mortais, que, às mais das vezes, nos tornamos prisioneiros dele no curso da existência. Tornamo-nos medrosos de lugares abertos ou fechados, agorafóbicos ou claustrofóbicos de nós mesmos. Quando a vida não. vai bem, algo está errado e não tomamos consciência disso: a gravata aperta, a falta de ar surge, o medo de elevadores ocorre como em quem tem medo de morrer. Ou então, ficamos com receio de locais amplos, cheios de gente, com vontade de voltar ao pequeno espaço do útero materno e ao aconchego protetor dos braços que nos ampararam. No espaço do túnel da vida tudo pode acontecer.









Maurilton Morais
Enviado por Maurilton Morais em 23/01/2006
Código do texto: T102911
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Sobre o autor
Maurilton Morais
Natal - Rio Grande do Norte - Brasil, 69 anos
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