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CONTAGEM REGRESSIVA

Num cenário de verão surgia mais um dia disciplinado, sinalizando oito horas da manhã. Saio vazio dos sonhos e cheios de pensamentos urbanos e ao entrar no elevador encontro estranhos vizinhos. Ensaiado pelo silêncio, aviso:
- Bom dia!
Deslumbro um  palco repleto de bocas cansadas e olhos guardados, não esperava e nem veio um  eco plausível, apenas sons educados. Resta-me, então o abraço apertado de nove andares....oitavo, sétimo, sexto, quinto, quarto, terceiro, segundo, primeiro e finalmente ... sempre fui péssimo em matemática, porém não imaginava que haveria um momento em que os números seriam mais íntimos que o cerco de olhares e respirações. Abre-se a cortina de um mundo extrovertido com seus olhos de semáforos e palavras buzinadas. Diversos pés movimentam-se, mas nunca dançam a minha música  e as mãos gesticulam aflitas, descompassadas do coração. Enfrento a cidade de vários personagens, vários universos concentrados e misturados em uma sopa produzida pelas mãos do capital na panela de pressão das horas.
Os números falam alto comigo, sem ver o ponteiro do dia passar, conto as horas. O dia vai chegando ao fim como começou, foi mais um dia de verão, mas sinto tanto frio...protegido pelos números , só a minha cabeça aqueceu.
Mas a recompensa veio! Como prêmio ao carregar a cruz urbana, ganhei o bar, ganhei amigos nos companheiros de trabalho através do remédio social alcoólico. Filosofamos, brincamos, paqueramos, cantamos, dançamos, amamos em horas perdidas, horas sentidas... parque de diversões da lógica urbana.
Olho nos meus olhos refletidos no copo e lembro-me que a vida é maravilhosa , lembro-me também que não sou bom em matemática e assim esqueço que vêm nas mãos amigas e sorridentes do garsom, a conta... a conta urbana.
Chego na portaria do meu prédio e entro no elevador vazio, um corpo vazio dentro do outro , começo em bocejos a contagem ... primeiro, segundo, terceiro...  regresso ao meu lar e sorrio porque os números não sonham.

Naldo Coutinho
Enviado por Naldo Coutinho em 28/01/2006
Reeditado em 11/03/2006
Código do texto: T105046
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Sobre o autor
Naldo Coutinho
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil
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Naldo Coutinho