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Um heróico gatinho!

Já perdi o números de gatos que criei. Não consigo lembrar um momento sequer em minha vida, que não tivesse em minha casa um belo e gordo gato dormindo no sofá da sala, para o desespero de minha mãe que nunca suportou felinos. No entanto, sob complacência paterna, sempre tive a presença de um gatinho  ronronando em meus pés.

Não acreditem no que dizem. Os gatos são animais amáveis e dóceis. Apesar de ser chamado de interesseiro, não há animal mais amigo e gentil, desde que você nunca esqueça que " ele" é o dono.

Dar nomes a gato é uma ciência. Não adiante você tentar chama-lo de flufy, floquinho ou algo similar. O gato, creiam ou não, somente atenderá pelo nome que coincidir com sua personalidade. Para terem uma idéia, tive um gato que por mais que meu irmão o chamasse de fofinho, ele só atendia pela alcunha " feio ou feinho" com variações para " esganadinho".

Imaginem o por que de tais nomes!

Dizer que você tem um gato é forçar a barra.

Como eu disse, o gato é o dono. Ao contrário do cão que é servil e aceita que o escolham, o gato irá escolher quem será a pessoa que " ele cuidará".

Descobrindo a personalidade do gato que cria você, e descobrindo o nome que acerta com personalidade do bichano, você estará a meio caminho de se tornar um gatófilo.

Assim foi com todos os meus gatos. Mas nenhum teve um nome tão marcante,  e que se enquadrou tão pefeitamente, como aquele que considero até hoje  o felino mais inteligente que eu criei.

Cada gato tem  personalidade própria. Histórias de gato eu tenho dúzias para contar. Mas de todos,  nenhum foi mais impactante do que o nobre ALEX!

Alex era um belo espécime siamês, de longas patas negras e focinho esfumaçado. Assim que recebemos o filhote, descobrimos que havia algo há mais naquele gatinho. Existia uma áurea de fidalguia que o envolvia;

Não me recordo bem o ano que ele chegou em minha casa. Lembro que ainda era criança, e passava na T.V. um seriado chamado " Raízes"... quem for de minha faixa etária deve se recordar de "KUNTA KINTE", personagem central da história;

O autor do livro que deu origem ao seriado ( e, é óbvio que como todos em casa eram viciados em leitura, tinhámos que ler a obra original), chamava-se ALEXANDER PALMER RAYLE. E, como até aquela data era o nome mais nobre que já tinhamos ouvido,imediatamente ALEX foi batizado!

Alex não se contentava em ter uma casa. Ele praticamente invadiu todas as casas da vizinhança. Sua presença e imponência adentrou aos lares vizinhos, transformado nossa rua em uma extensão do seu reino.

Além de adotar todas as casas da rua como sendo sua, Alex passou a reinar soberanamente. Não existia gato ou cachorro  que não o respeitasse. Era o grande chefe. Isso significava uma série de ferimentos e machucados, e, na época, graças a uma colega veterinário amigo de um dos meus irmãos, a assistencia médica era, digamos semi-gratuita.

Mas Alex tinha súditos. Alguns poucos cães, entre eles o nosso, que na verdade era dele, e demais felinos que aceitaram sujeitar-se ao novo rei, fora lógicamente, nós humanos, que estávamos ali para servi-lo, mimá-lo e adulá-lo;

Passou a ser um gato comunitário. Todos as noites fazia sua ronda normal. Sabíamos pelos vizinhos onde Alex estava e o que tinha feito. Era como guardasse seu reino e velasse pelos seus súditos;

Atendia prontamente pelo nome. Bastava que o chamássemos, e ele surgia alguns minutos depois, às vezes com o focinho amarrotado, demonstrando que estava dormindo em algum dos seus inúmeros leitos;

Seu nome chegou até a gerar confusão com o nome de uma criança vizinha. A mãe do menino o chamava, mas era o gato que aparecia em resposta, e , segundo ela, Alex ficava esperando para saber o que ela queria;

Até que um dia, mudaram-se vizinhos novos, que trouxeram na bagagem um belo par de pastores alemães. Belos e ferozes!

Não sei bem como tudo aconteceu. Mas em menos de dois dias, o casal de cães estraçalharam dois gatos de nossa vizinha, e nos dias seguintes mais ataques ocorreram;

Segundo os donos, o cães tinham sido adestrados para perseguir e caçar. Alcançavam qualquer coisa que se movesse e fosse  de pequeno porte.

Como alguém pode criar um animal para essa finalidade eu não sei. Não entendia quando era criança e não entendo ainda hoje. Era cães treinados para matar!

A noticia de que existiam animais tão ferozes e próximos, alarmou a todos. Afinal, vivíamos em uma rua pacata, onde crianças brincavam livres nas calçadas, cuidava-se uns dos filhos dos outros, e a noite, as cadeiras estavam sempre nas entradas das portas, quando os adultos, em uma época que graças a Deus ainda não existiam os reality shows, podiam estar fora de casa a noite, sem mêdo da violência que dominou minha cidade;

O verdadeiro pavor das mães era justamente em relação as crianças. Nunca havíamos ouvido falar de cães desse tipo, com ataques similares aos atuais pit bulls. E, a chegada de tais animais, trouxe mêdo e pânico a toda a rua.

Lembro que recebemos ordem de nosso pai para colocarmos o Alex na coleira. Era um homem de paz e não queria confusão. Você talvez não saiba, mas  gatos siameses usam coleira. é  a única espécie de felinos que a aceita, desde que quando pequenos sejam acostumados.

Mas não foi suficiente!

Como se soubesse que toda a paz do seu reino estivesse ameaçada,  e ainda não sabemos como ele fêz isso, Alex soltou-se e foi resolver o problema que afligiam seus súditos.

Alex foi até a casa dos cães, e enfrentou-os, chegando a cegar a cachorra. Somente meu irmão conseguiu tirá-lo de lá. Na época, os donos dos cães ficaram assustados, e disseram que nunca tinham visto um gato brigar daquela maneira. E mais grave, o gato tinha ido desafiar o cães.

Na ocasião, devido ao grande apego dos vizinhos a Alex, e diante da revolta que seus cães provocavam, os seus donos nada fizeram contra nós ou o gato. Não fizeram na hora.

Dias depois ao ocorrido, Alex adoeceu, e após quinze dias no soro, não resistiu.

Enquanto doente, os vizinhos vinham visitá-lo. Perguntavam em sussurros sobre a possibilidade de sobrevivência, e balançavam a cabeça desconsolados, quando escutavam prognósticos desanimadores;

Alex em seus últimos momentos, ficou no colo da minha irmã, que chorava compulsivamente pela morte do rei. Morreu sabendo que era amado!

Houve luto na rua. Houve tristeza e lágrimas. Todos os vizinhos lamentavam. Como herói épico, falava-se de Alex como uma pessoa. Contavam suas farras e traquinagens. Lembram do dia que subiu na palmeira? Lembram de seus lindos olhos azuis? E quando andava de telhado em telhado? E quando resolvia presentear alguém, deixando uma bela e gorda ratazana morta,debaixo da cama do felizardo escolhido?

Se alguém de fora chegasse no bar da esquina e escutasse as conversas, juraria que tratava-se de um jovem rapaz, colhido na flor da idade, por uma tragédia!
 
Sempre suspeitávamos que ocorrera  um assassinato.

Alex fora envenenado, e os únicos suspeitos eram os donos dos cães, que por sinal, mudaram-se em seguida;

Pode ser um pouco poético, ou imaginação de criança, mas creio que todos os animais da rua sabiam que o rei estava morto!

Você não ouvia um cão latir. Não havia um gato a chorar nos muros,mas um simples silêncio em respeito ao rei, que morrera para defender os seus.

Sei que é uma história triste, mas tinha que contá-la. Passaram-se os anos, e quando lembro de Alex, me vem a memória também da solidariedade de nossos vizinhos. Alex se tornou um símbolo do que um animal pode fazer em uma comunidade. Lembro que vizinhos intrigados ou inimigos, choraram juntos ombro a ombro;

Hoje, vivo em uma cidade fechada e encurralada pelo mêdo. Cães treinados foram soltos pelas ruas dos Rio de Janeiro, e se dizem humanos, mas estão prontos para dilacerar qualquer um que lhe seja aparentemente inferior, sob as asas da proteção daqueles que os criaram.

Mas ainda nos resta àquela solidariedade que conheci muito bem. Choramos ombro a ombro, enquanto lembramos de como era, e o que está acontecendo com o meu Rio de Janeiro.

Para nossa esperança, ainda existem heróis que lutam para proteger nossa cidade e mostrar que não devemos temer os homens maus, pois como disse uma vez, o nobre William Shakespeare, no livro Macbeth: Se  os bons estão em maioria, por que não podemos bater nos maus, que estão em minoria?

Eu tenho certeza que Alex sabia disto!









marta cruz de lima
Enviado por marta cruz de lima em 29/01/2006
Reeditado em 29/01/2006
Código do texto: T105770
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Sobre a autora
marta cruz de lima
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 55 anos
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marta cruz de lima