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Causos do Coletivo - Panis, circenses et shopping centers

Foi dentro de um ônibus lotado, indo trabalhar, que presenciei o mais surreal diálogo que dois homo suburbanus poderiam travar dentro de um coletivo àquela hora da manhã. Aliás, era praticamente um monólogo, visto que enquanto um falava, o outro tentava (aparentemente sem sucesso) entender o que diabos queria dizer seu colega falador.

O papo seguia mais ou menos assim:

- Às vezes sinto vontade de te pegar pelo colarinho e dar-lhe uma chacoalhada. Mas uma daquelas chacoalhadas de tirar seus pés do chão, sabe? Pra ver se você acorda!
- Você se acha o dono da verdade, né!?
- Não, não sou o dono da verdade. Acorda, você ganha menos de mil reais por mês, pra que comprar um carro que custa quase vinte mil!? Eu sei, a grana é sua, eu não tenho nada a ver com isso. Mas você é meu amigo, pô. Você não tem todo esse dinheiro, vai ter que financiar em não sei quantas vezes. Vai pagar mais não sei quanto de juros. Só nessas prestações aí já vai quase metade do seu salário. Você não vai poder fazer metade das coisas que gosta de fazer. Tudo por causa desse carro.
- Você não acha que está se metendo demais na minha vida?
- Tudo bem, não acho justo eu me meter na vida de outra pessoa. Eu não sou dono da razão e, afinal de contas, um carro novo valoriza a imagem da pessoa, além do conforto de poder ir pra onde quiser e etc. Ainda assim, minha consciência fica me pentelhando e eu tenho que falar.
- Eu já sou meio grandinho pra saber o que fazer...
- E não esqueça que o seguro dessa merda custa por volta de dois mil reais, sem contar o custo do combustível! Você sabe quanto tá custando um litro de gasolina? Sua renda mensal está quase totalmente comprometida por causa desse carro. Você não tem uma casa ainda. Não fez faculdade.
- Eu não preciso de uma casa agora e não tenho a mínima vontade de fazer uma faculdade. Pára de esquentar a cabeça com isso!
- Eu sei que não devo esquentar minha cabeça com isso. Sei que vão dizer que é inveja minha, que na verdade, eu é quem queria comprar um carro igual e não tenho condições e etc. Que um carro novo é investimento. Que, se a pessoa trabalha tanto, tem que ter uma recompensa.
- É isso mesmo, oras.
- Recompensa? Investimento? Inveja? Talvez você tenha razão. Olhe ao redor, todo mundo está ocupado em consumir. Olha quanto carro novo na rua. Olha quanta gente no shopping, nas lojas de roupas, de eletrodomésticos, de celulares. Viva o crediário! Viva o carnê!
- É, viva!
- É, eu sou o idiota, o louco, o frustrado, o chato, o derrotado...
- Pois é...
- Tanta tecnologia, tanto lazer, tanta facilidade, tanta comodidade e eu criticando as pessoas. Celular que tira foto? Claro que preciso de um. Aparelho de DVD mais Home Theather? Isso é vital! Um monte de comida enlatada mais microondas? Imagina se eu perderia tempo preparando comida, que absurdo! Ir a pé ou de bicicleta até a padaria ou até à casa dos amigos? Tá de brincadeira, né!?
- Tá vendo, você poderia ser um cara normal. Cada dia você inventa um problema novo...

A indignação finalmente extravasou:

- Pra que tudo isso, se você está cada dia mais gordo devido a sua vida sedentária e sua péssima educação alimentar, com seus refrigerantes e fast foods?
- Mas que mal pode haver em comprar um carro legal, equipado com som e tal...
- Pra que tanto equipamento de som se você acha que música é só pra dançar? Pra que esse carro novo se o trânsito nessa cidade já não anda mais?
- Daqui a pouco você vai vir com aquele papo das obras de arte e não sei mais o que...

Mesmo sendo ridicularizado pela ignorância das pessoas ao redor, ele ainda tentaria mais uma pouco:

- Você sabia que existem filmes que não são mero entretenimento? Que não são apenas tiros e bombas e mais um monte de efeitos especiais? Alguns filmes são mais que isso. São obras de arte! Assim como aqueles quadros cheios de cores e desenhos deformados que não são apenas rabiscos, como você crê.
- Ora essa, até parece que vou perder meu tempo com essas bobagens de gente “cult”.
- Eu gostaria que você entendesse que as melhores coisas da vida não são “fast”. Às vezes, precisamos de tempo, de um olhar a mais. Ouvir uma música mais vezes pra perceber suas sutilezas, os sentimentos que as compõe ou o conteúdo de suas letras. Sua vida não tem que ser uma eterna maratona. Não, você não precisa ter tanta pressa!
- Que diferença faz?
- Você sabia que seu consumismo está destruindo a natureza?
- Nossa! Tudo é culpa minha agora!? Pirou de vez...
- Talvez você não se importe com isso, afinal não tem tempo de desfrutar da natureza mesmo...

E enfim, aquele papo iria longe ainda, mas meu caminho não, já era hora de descer... Quando desci, percebi que eu cantarolava uma canção. – “Mas as pessoas na sala de jantar...” – Uma antiga canção. – “São ocupadas em nascer e morrer”...


...
Leonardo André
Enviado por Leonardo André em 30/01/2006
Reeditado em 03/04/2007
Código do texto: T106117
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Sobre o autor
Leonardo André
São Paulo - São Paulo - Brasil
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