Insaciáveis!

Acordei com a música “We are the champions”, na voz do falecido Freddie Mercury, numa rádio que àquela hora estaria dando o noticiário. Sonolenta, meus poucos neurônios despertos tentaram entender o motivo daquela música, mas eles não precisaram se esforçar: o âncora comentou que a estavam tocando em homenagem a mais um recorde brasileiro. É que, exatamente naquele dia, 2 de julho de 2008, nós brasileiros estávamos atingindo a espantosa marca de 500 bilhões de reais em impostos pagos, de acordo com o “Impostômetro” criado pela Associação Comercial de São Paulo, que mede diariamente os impostos arrecadados pela Nação. A mesma quantia havia sido atingida, no ano passado, apenas no dia 22 de julho. E olha que nem temos mais a tal da CPMF!

Aquilo acabou de me despertar para mais um dia de trabalho. E fiquei pensando na quantidade de impostos que pago em meu minúsculo escritório, na qualidade de nano-empresária: mais de 20% do que arrecado. E absolutamente tudo que arrecado é documentado por notas fiscais, já que nunca soneguei um centavo. Do que sobra, para poder continuar trabalhando, pago uma profissional, um contador, água, luz, telefone, internet, celular, combustível... todos eles com seus respectivos impostos, obviamente.

Fiquei também pensando que, nos dias de rodízio, não tenho condução para levar minha filha à escola e nem para ir atender aos meus clientes, em sua maioria muito longe de onde estou. Ou seja, os impostos não voltam para mim na forma de um transporte público decente. Sim, temos o metrô e alguns trens novos, mas as estações são longe de onde estou e estão limitadas a áreas que na maioria das vezes não fazem parte de meu trajeto. Além do que, o tempo que eu levaria nesse deslocamento inviabilizaria meu trabalho.

Lembrei-me também que pagamos plano de saúde, pois também não temos um atendimento médico eficiente – na verdade, nem minimamente bom. Sim, temos o Hospital das Clínicas, gratuito e excelente, mas apenas um para atender a todos os habitantes da capital e das cidades vizinhas. As consultas são marcadas com um ano de antecedência.

Recordei-me, ainda, de que pagamos escola para os dois filhos, pois o ensino público deixa a desejar; e entendo por quê, já que os professores ganham tão mal e são tão pouco valorizados.

Assim, percebo que pago impostos e mais impostos. Não só os de minha fonte de renda e os embutidos nos serviços relativos à sua manutenção, mas também – e principalmente - os dos serviços extras que tenho que pagar justamente porque os impostos que eu pago não são suficientes para me oferecer serviços bons como os serviços extras que eu tenho que pagar e... é, é um círculo vicioso, a Ouroboros comendo o próprio rabo.

Mas eu tenho certeza de uma coisa, e é esta certeza o que me revolta acima de tudo: é que destes 500 bilhões de reais, apenas uma parcela muito pequena voltará para os cidadãos em forma de serviços, por causa da corrupção. Parece mais fácil aos governantes, antes de acabar com esse câncer que consome o organismo dos serviços públicos aos pouquinhos, criar mais impostos. Ressuscitar a CPMF, por exemplo. Mais ou menos como se nós, não conseguindo encher o balde por causa de um visível e escancarado vazamento na nossa tubulação de água, em vez de consertar o vazamento engatássemos uma mangueira na torneira do vizinho, para buscar água de outra fonte. Simples, não?

Hoje acabei fazendo uma crônica politizada e indignada como as do José Miguel Delgado – um pouco mais leve, é verdade - mas ainda assim sigo acreditando. Fé é minha maior virtude. Ainda acho que a corrupção um dia vai acabar, a decência vai vingar na política e a educação será a prioridade no braziu do Pedro Galuchi. Acredito que vão se extinguir os corruptos insaciáveis. Para ajudar, vou pegar o Saci esta noite na garrafa, e mostrar para o Papai Noel quando ele vier me trazer o carro zero, movido a pensamento, que pedi de presente de Natal.