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CONVERSA COM SÃO FRANCISCO

   Ôntem à noite tive uma conversa séria com São Francisco.
Sua imagem de madeira, antiquérrima, herança do baú de minha avó, fica numa cantoneira de meu quarto.
   Falo sempre com êle e nos entendemos muito bem.  Somos já bastante íntimos e não temos cerimônia um com o outro, mas  ele me dá cada lição!...

   - Puxa vida, São Francisco, agora não tá dando mesmo para seguir tudo que você nos deixou em sua "Oração":

               ... amar que ser amado
                   perdoar que ser perdoado
                   compreender que ser compreendido
                   que eu leve alegria onde houver tristeza
                   dúvida, que eu leve a fé...

   No seu tempo era bem mais fácil, São Francisco, você não
tinha os nossos problemas.  O ar era puro, sem poluição, podia caminhar pelas estradas sem congestionamentos e assaltos,cantar e sorrir na convivência pacífica com o "irmão leão"(que hoje come criancinhas no circo) a "irmã víbora", o"irmão sol", a "irmã lua",e sem ter que se preocupar com a fila nas escolas em busca de uma vaga,ver o mundo prestes a explodir, os homens se degladiando e se odiando cada vez mais, mesmo em vésperas de Natal?

   -Ô São Francisco, você por acaso teve alguma vez, bursite no ombro direito e esporão no calcanhar esquerdo,já?
Já enfrentou fila do INSS às quatro da matina, conseguir uma
consulta de cinco minutos e a dor continuar doendo, doendo cada vez mais? Você sabe por acaso o que é ser aposentado no Brasil?

  Ele me olhava com aquele jeito todo seu, com aquele sorriso que começa nos olhos e se espalha por todo o rosto,
a coroinha brilhando, todo ele resplandecente(eis o milagre
da fé) e deixou que eu derramasse todas minhas lamúrias,
para depois falar com sua voz grave que encantava a bicharada
que se quedava a ouví-lo:

     - Você já visitou os asilos? Conheceu o trabalho das
     APAES?  Já ouviu falar da Irmã Dulce da Bahia?
     Acompanhou os últimos tempos de João Paulo II , nosso
     Papa Peregrino?
     Vá, filha, vá inteirar-se bem, depois voltaremos a
     conversar...

  Aí fez-se silêncio, ele ficou quietinho na cantoneira e nem é preciso dizer que minha cara caiu de vergonha...
Linandre
Enviado por Linandre em 31/01/2006
Código do texto: T106316
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Sobre a autora
Linandre
Itabira - Minas Gerais - Brasil
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