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´E feriadão

É feriadão
Céu azul, sem nuvem, sem mancha. Dia mais que perfeito para uma praia, penso, toda serelepe. Tento sedução ao marido que, mal acorda, já quer ginástica – mania que pegou de mim, confesso. Olha que levou anos sem se mexer!
- Será que hoje, início de feriadão, não dá prá gente ir  à praia?, pergunto, voz sexy, de  pré-cama, em hora de pós.
- Praia! Que praia?! Copacabana tá infestada de gringo. Ipanema vomita gente que não tem praia nunca. Leblon é esta porcaria de faixa de areia suja, mar forte e poluído. Barra da Tijuca, nem pensar!
Recuso-me a começar o feriadão com discussões idiotas, que não casam com o verão bonito, do Rio, neste janeiro de bons augúrios para 2006.
Vou para sala engolir uma massa gosmenta que ele, o marido, inventou para se emagrecer uns quilinhos. Sento-me, macambúzia, sorvendo a iguaria de  candidata a topmodel, como licor de frade: bem devagarinho, conforme bula. O homem me olha enviesado, ar de pena de meu raro silêncio. Talvez do sacrifício do café da manhã. Disfarça. Pensa alguns minutos. Tenta pegar um jornal e me olha de novo. Não tujo, nem mujo. Nem a boca se mexe na descida da dieta sem ruído.
-Tá certo! Muda a roupa. Vamos ao Arpoador! Lá é melhorzinho
Esqueço coluna doída e pulo, contente. Em dois minutos, no más, tralha e táxi. Carro particular não tem onde estacionar.
O Arpoador sempre tem uma certa magia. É o pôr do sol mais lindo da cidade. Extasia O sol vai indo, vermelhão da vergonha de nos deixar. Pequenos raios azuis o acompanham solícitos, até o escuro total.
Manhã deliciosa, os raios de  sol ainda suportáveis do horário de verão, a pista da praia sem veículos, fechada para pedestre, os coqueiros, as amendoeiras... tudo murmura aos ouvidos que o dia vai ser do cacete. Mãos dadas, enamorados de ontem, passo lento, chega-se ao ponto de escolha.
 Praia dá um trabalhão, admito. Tem-se que procurar o lugar mais simpático, de cara para o sol, perto da quebrada das ondas; alugar cadeira e barraca, de preferência de cores que combinam entre si ou com nossos biquinis e sungas; passar bloqueador – nada de bronzeador ou simples protetor: o câncer de pele à espreita; estender toalha apropriada, daquelas de coqueiros, pranchas de surfe e outros desenhos do gênero; colocar a bolsa de palha bem perto, para não tentar larápio; arriar ao máximo o encosto da cadeira - isto se a barraca foi bem fincada pelo alugador de apetrechos praianos - observar um tempo o vaivém das ondas, o marzão todo...
 Só então, olhos meio cerrados, protegidos por óculos escuros e aba de boné ou chapéu, respira-se a maresia gostosa, dá-se um profundo suspiro e inicia-se o deleite. É quando a gente começa a perceber os sons característicos da nossa praia urbana.
Ambulantes de toda sorte passam aos gritos: - Olha o mate gelado! Olha o biscoito! Vai?! Quem resiste! Claro que vamos. Entra a dieta de praia, sai a dieta de emagrecer. Praia completa tem que atender aos vendedores suados, cansados de correr para cima e para baixo, sem um queixume, sorriso eterno nos lábios, piadas prontas à boca.
Em seguida, as famosas empadinhas. Na areia, que sabor!. Empada que se preza só tem gosto em dois lugares: na praia e no botequim. Por mais caprichada que seja, a de festa de aniversário se esfarela toda: uma porcaria total. Empada faz-se pensar em cervejinha gelada: lá vai um loura, mais ao ponto que Gisele Bünchen.
Depois, sem cessar, são os mil sorveteiros anunciando seus produtos, industrializados ou não: - Sorvete de frutas! Olha o de pitanga! Vai de creme, chocolate?!. Quer um, madame? Quero, é claro.
 Lá longe, vem chegando o chiado áspero, o som dos pés na areia do vendedor de cangas. Tenho milhares. Cores discretas combinam com meus sankinis idem. Mas, lá na praia, acabo por escolher uma vermelho-cheguei, vergonha de senhora lançada ao vento. Na barraca vizinha, louras sulistas ainda branquelas, não de Torres ou Camboriú naturalmente, ávidas por comércio exótico a preço de banana, compram cada uma três cangas indianas, experimentam-nas ali mesmo, pedem espelho, como em cabine de butique.
- Que tal? Posso até fazer uma saia dessa aqui e ir a uma festa..
Entreabro os olhos mais uma vez e dou palpite, para meu próprio espanto:
      - Nada de preto, gente! Leva azul turquesa, amarelo gema de ovo, branca... È verão!
Agora, é um vendedor de biquinis esticados como pipas. Tão bonitos e multicolores que quase cedo à tentação de comprar.
- Não dá!, diz meu companheiro a tempo.- Pequeno demais. E como é que você vai
experimentar? Só ficando nua.
Graças a Deus, não é necessária a nudez para comprar as mil bijuterias oferecidas por uma mocinha saída dos anos 70. Argentina, inda por cima. Cada brinco! Cada colar! Esqueço meus milhares de cacarecos, compro logo uns quatro, para mim e para minha filha.
Depois, passam chapéus, passam bonés, passam bolsas. Meu coração fica apertado de vontade consumista. Quero tudo. O homem prudente se nega a pagar e eu, boa mulher bem mandada, nunca trago dinheiro quando estou acompanhada do sexo masculino. Aprendi com minha mãe que homem que é homem paga. Assim como mulher não chama garçon em restaurante, nem  vai abrindo logo o cardápio com os preços. Sigo à risca.
Fome e sede saciadas, repouso para ouvir os sons legítimos da praia. É o barulho das ondas a bater na areia molhada, chiado arrastado ao se recolherem. É bonito, é bonito, como  canta Caymmi. São as criancinhas a correrem na areia, felizes, mesmo quando nos borrifam de areia fina bem no olho. São os pais que chamam os filhos para a beira do mar: Vamos cair! Não tem medo, não. Eu te seguro. São as moçoilas adolescentes, em sumários fios-dental, que gargalham para chamar atenção dos rapazotes... O brua-á-á natural da praia de feriado.
Finalmente, somos nós, casal de muitos anos, de repente, recém-casados que dormitam sorrindo, de mãos dadas, não importa a areia entre os dedos.

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Maria Lindgren
Maria Lindgren
Enviado por Maria Lindgren em 31/01/2006
Código do texto: T106625
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Sobre a autora
Maria Lindgren
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil
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