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A Bolsa de Valores e o amor

A finalidade deste artigo, aparentemente esquizofrênico, é demonstrar que o amor moderno tem o mesmo valor especulativo das bolsas de valores. Ora, se para os mais entendidos no assunto o amor da escravatura não é igual ao amor romântico inventado pela cavalaria do século XII, e muito menos semelhante ao amor romântico da burguesia, compreenderão com facilidade didática: o amor neoliberal, o amor do ‘’ficar’’, é tão rápido e fugaz quanto o capital especulativo das bolsas de valores que se comporta como uma “nuvem de gafanhotos’’, oscilando entre a Tailândia e Nova York, Alemanha e Cingapura, Taiwan, Hong Kong, e até no Brasil. A tese é muito simples: o amor é tão amorfo, tão “sincero’’ quanto a ligação sexual entre Dow Jones (índice da bolsa de Nova York) e Sang Seng (índice de Hong Kong). Ou seja, no amor moderno não há segurança alguma.
Para vocês, amigas  e amigos , que andam chorando o amor perdido, não se precisa recorrer ao velho Marx para entender a questão. Mas, vale a pena dizer que mesmo após a queda do Muro de Berlim, a consciência individual ainda é reflexa da consciência social. E a consciência social está dependente das relações de produção e trabalho. Ora, meu caro, se não há estabilidade mais em nada; se os empregos desaparecem e se transformam; se a notícia é verídica pela manhã e inverídica pela tarde; se tudo é volátil, como você pretende que o seu amor seja eterno? Não chore mais por amor, ele agora é neoliberal, dura pouco, não resiste a duas ou três crises, como na bolsa .
Basta andar pela noite e entenderá a correlação do neoliberalismo e o amor. Os sedentos de amor percorrem dois, três e até mais bares, uns à procura de aventuras de lucro (os mais modernos), e outros em busca de uns  relacionamentos estáveis, igual ao tempo dos nossos pais e avós, como se num passe de mágica voltassem a existir. Uns querem “ficar”, outros “estar”. São verso e anverso de uma medalha: a luta contra a solidão. Uns bares nascem, transformam-se em “points”, declinam e morrem, como na Bolsa de Hong Kong e dos Tigres Asiáticos. Os bares mais simples permanecem, sem interesse em grandes vôos, resistindo às mudanças dos tempos, sem maiores aspirações, mas sem declínios. Os amores, nesses bares mais modestos, nem tão simplórios permanecem abertos aos encontros e desencontros estáveis na rota da existência.
Nos bares da moda, os jovens se agitam, como na busca frenética do capital especulativo, o qual mais cedo ou mais tarde estará sujeito à exaustão. Como as bolsas, os bares especulativos da lucratividade afetiva também se exaurirão.
Por isso, mesmo – “Perdidos na Noite Suja” – não se desiludam.  Acostumem-se. O mundo mudou. Filhos não amam os pais como antigamente; a solidariedade é antagônica à competência; os jovens brigam com os pais por dinheiro do “shopping” e nem entendem o que é Bolsa de Valores. Muito menos lêem jornais ou assistem a noticiários. O perfil do amor e da família será diferente no século XXI. Desenganem-se de amores eternos, embora possam surgir por escape da lei das probabilidades.
Homens e mulheres estão como  os especuladores das bolsas. Esperam a fragilidade da moeda e a desvalorização cambial dos afetos. Poucos ganham e muitos perdem. E tamanha competição entre homens e mulheres na luta pela felicidade termina em alta de juros: juros da dor.
Maurilton Morais
Enviado por Maurilton Morais em 02/02/2006
Código do texto: T107364
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Sobre o autor
Maurilton Morais
Natal - Rio Grande do Norte - Brasil, 69 anos
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Maurilton Morais