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TAIGUARA: O CANTO DO UIRAPURU

Tião Luz

Lembro-me muito bem. Era um jovem que despontava para o mundo naqueles anos dourados no final da década de 60 e inicio dos anos 70. O Brasil estava embriagado de novidades, aspirações e ilusões. Os Beatles, os Stones e os Elvis estouravam em todas as rádios e nós, jovens, repetíamos suas músicas como papagaios amestrados, sem muita noção do que dizíamos.
Roberto e seus erasmos extraíam o ego enrustido da juventude com sua Jovem Guarda, transbordante de egocentrismo e vaidades, emulando em todos um sentimento de que tudo era possível, bastando apenas ter uma vasta cabeleira, uma calça calhambeque e um anel brucutu, envolvendo-nos em um estado quase febril,  condicionando-nos a repetir o tempo todo para nós mesmos: “eu sou o bom, sou o bom, sou o bom...”
Caetano e os demais baianos nos convidavam a correr atrás dos trio-elétricos, sem nenhuma preocupação, ao mesmo tempo em que Chico com sua “roda viva”, aparentemente ingênua, nos dava toques sobre importantes questões que precisávamos perceber a cerca do momento em que vivíamos... Concomitantemente, Geraldo alertava que “esperar não é saber”, convocando-nos a uma luta sem armas por uma vida com sentido.
Simonal apresentava  um novo  jeito maneiro de ser, revelando com mais profundidade a real força negra da arte, enquanto Jair nos aconselhava que deixar tudo pra lá era a melhor opção... Quando em meio a esse surto de emoções e ideais surgia uma jóia raríssima, Elis, que mostrava ao Brasil o que era interpretação em seus limites alcançáveis, realçando como nunca o trabalho dos depreciados compositores brasileiros.
Tom, João, Deodato e outros nos promoviam lá fora,  enquanto surgia um baiano meio estranho e diferente que, dizendo-se extasiado do modelo social vigente, falava da “senta sonora de um disco voador”, de uma certa estação, e de pedras que choram sozinhas no mesmo lugar, abrindo um canal para reflexão a cerca de coisas transcendentais, além de nos mostrar que a sociedade se tornava cada vez mais materialista e sem sentido... Havia tréguas somente quando Vinicius e Caimi nos derramavam suas poesias, levando-nos a sonhar com as jangadas no mar e as praias de Itapuã...
E assim, em meio a pensamentos sentimentos antagônicos, nossa cabeça rodopiava entre um fogo cruzado de emoções, que fazia eclodir em nossos corações a necessidade de tomarmos uma postura qualquer perante a vida. Foi o tempo das múltiplas opções e escolhas. Era um esboço, um rascunho para “um novo tempo de viver”.
Não obstante a esse tumulto desordenado, surgia uma voz quase divina, que lentamente foi se infiltrando, fazendo ecoar com um som tonitroante de um trovão, seu timbre terno e incisivo... E tal qual o Uirapuru, que quando canta faz silenciar o passaredo na mata, Taiguara com seu olhar ternamente penetrante, invadia os rádios e as tevês, tentando nos acordar de um estado quase alienante em que nos encontrávamos, para a nua e crua realidade que, sorrateiramente, nos absorvia, advertindo-nos do perigo para onde cegamente caminhávamos, chamando nossa atenção para a juventude que se perdia, para as crianças que eram tolhidas do  direito à infância e do amor que se esfriava a cada dia, profetizando assim com sua ultra-sensibilidade, que o mundo estava se desviando da estrada da justiça e do amor.
Hoje, depois de  mais de trinta anos é que alguns de nós percebemos com maior nitidez, a dimensão de suas sábias palavras e a profundeza de seus gritos, apelos e avisos...
Como a cigarra, o grande guerreiro cantou... Cantou até que seus instrumentos silenciaram para o mundo exterior, para que surgisse em muitos de nós uma nova fonte de despertamento interior.
Hoje, Taiguara não é apenas uma saudade, mas um livro que carece de ser lido e refletido.
É preciso resgatar seus ensinamentos e beber cada uma de suas palavras, antes que a roda viva das ilusões nos venha tragar as últimas forças e esperanças, impulsionada por um vagalhão impiedoso de imbecilidades musicais e supostamente artísticas, que têm minado nossas mais sutis sensibilidades...
Quanto a mim,  só me resta  dizer: Obrigado Taiguara por você existir, porque você pra mim continua cada vez mais vivo. Que as suas sementes de esperança, fé e justiça mine nossos bloqueios e grilhões internos para que possamos, irmanados à sua voz, continuarmos a busca de "um novo tempo de viver"

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Tião Luz
Enviado por Tião Luz em 02/02/2006
Reeditado em 11/01/2013
Código do texto: T107415
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Tião Luz
Poços de Caldas - Minas Gerais - Brasil
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Tião Luz