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O visitante

   
   Batem à minha porta. E eu já sei quem é. Ele veio novamente; com seu sobretudo roto, seus cabelos compridos desgrenhados e seu sorriso irônico; com aquela ironia de quem sabe um segredo importante e ri da minha ignorância e ingenuidade. Nas primeiras vezes em que veio, nem sequer o recebia; figura estranha, assustadora, na verdade; falava-me coisas, através da porta, que me deixavam confusa, começando a duvidar das verdades que acreditava. Com o tempo e com as decepções, as visitas tornam-se mais frequentes e nossa proximidade também. Já lhe abro a porta e o deixo entrar; já se senta no meu sofá e me encara com aquela lucidez entranhada a me perguntar: Por quê? Por quê ainda resiste? Por que ainda acredita? Já não teve provas suficientes? Já não teve dores suficientes?

   E, novamente, lança-me seus argumentos. Convence-me que CRER é a droga que inventaram para continuarmos vivendo todos os dias, continuarmos acreditanto que somos melhores do que todas as demais espécies que habitam o planeta, acreditarmos que somos responsáveis por 'civilizar' um mundo selvagem, bruto e, teoricamente, ignorante. E, incontestavelmente, meu visitante demonstra, sem esforço, que todas as grandes tragédias deste mundo deve-se única e exclusivamente a nós; à nossa ambição desmedida, à nossa crueldade capaz de esfolar animais vivos indefesos apenas por um pedaço de pele (como se já não tivéssemos a nossa própria), destruir florestas seculares por um punhado de pedras, 'ouro negro' e carvão.Somos capazes de destruir o meio que nos sustenta, destruir nossa própria cria, abandoná-la à miséria, ao desespero, à prostituição e à violência. Somos a única espécie que sobrepujou seu instinto de sobrevivência, de continuidade, com sua ânsia de poder e lucros imediatos. Somos a única espécie que come sem ter fome, fala sem ter nada a dizer, finge alegria, transa sem tesão, e é capaz de torturar apenas pelo prazer de provocar a dor. E a Loucura (sim, ele é o meu visitante)expõe seus argumentos e ri; ri zombeteiramente e me pergunta o que sinto em pertencer a esta 'grande espécie': Nojo. Ele sabe disso. Nojo de ser parte de um projeto divino que deveria ser destruído porque deu errado e, Deus, em sua distração, não avaliou corretamente os resultados do que criou.

   Pergunta-me por que não me entrego de vez em seus braços, por que não aceito logo sua companhia de forma definitiva, por que não reconheço que sonhar é inútil e que sábios são aqueles que desistiram desta insensatez e criaram seus próprios mundos: perfeitos, plenos, dóceis. Convida-me a segui-lo e, apesar de não ter argumentos para contestá-lo, apesar de sentir a certeza de tudo o que disse, resisto. Não porque tenho a força dos que ignoram, ou a coragem dos ousados, mas porque meu pessimismo ainda é frágil e, por medo, pelo puro medo de admitir a verdade, ainda sobrou esperança. Sobrou como um resto de vinho que se esquece no fundo do cálice depois de um grande jantar. Sobrou, não porque era o sentimento mais importante a ser preservado, mas porque é tão insignificante que não vale a pena gastar tempo e atenção com ele. Resisto porque ainda tenho este resto dentro de mim. Porque para desistir é preciso determinação e coragem.

   Não foi a última visita. Voltará. Mais rápido do que imagino. Mais sedutor do que eu gostaria. E não sei se o mandarei embora novamente.
Mirra
Enviado por Mirra em 04/02/2006
Código do texto: T108065
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Sobre a autora
Mirra
Fernandópolis - São Paulo - Brasil
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