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Os monstros sagrados da Bossa Nova

Entre tantas oportunidades que tive na vida, uma que me marcou muito foi a de ter algumas aulas de música com Antônio Carlos Jobim (Tom Jobim). Nessa época eu estudava e ministrava aulas de música numa escola muito famosa no Rio de Janeiro, na minha opinião a melhor escola de música do Rio. (Centro Musical Ian Guest). Não sei se ainda é do mesmo dono (um húngaro mau humorado, mas, o melhor professor de música que eu conheci.) O fato é que fazíamos mensalmente um “workshop” com artistas conhecidos como Jobim, Chico Buarque, Milton Nascimento, Ivan Lins e outros. Uma vez sentei-me ao lado de Jobim no piano e comentei com ele entre vários assuntos, sobre a poesia que tinha em sua música. Ele me disse uma frase que nunca mais esqueci. “ O escritor escreve a poesia, o poeta expressa em palavras o sentimento da alma”  Para ele, música era sua religião e a única forma de se comunicar com DEUS. Jobim me ensinou a tocar piano com a emoção e não com a técnica que estudei desde os meus 7 anos de idade. Foi aí que comecei sentir o que realmente era deixar o coração falar o que tinha na alma. Nunca fui ligado em poesias. Sempre escrevi textos de estudos, apostilas, sempre gostei de ensinar, porque aprendi que ensinando é que se aprende. Porém, um dia conheci uma escritora (Angélica T. Almstadter) que me incentivou a estudar poesia. Mas, não me considero poeta e nem tenho a pretensão de ser. Gosto de escrever sobre tudo. Todavia, em tudo o que faço ou escrevo, coloco sentimento, emoção, amor, carinho e determinação. Outra coisa curiosa que pouca gente sabe, é sobre a música mais famosa de Jobim e Vinicius de Moraes, Garota de Ipanema.
A primeira versão se chamava “Menina que passa” e dizia assim:

Vinha cansado de tudo
 De tantos caminhos
 Tão sem poesia
 Tão sem passarinhos
Com medo da vida
 Com medo de amar
 Quando na tarde vazia
 Tão linda no espaço
 Eu vi a menina
 Que vinha num passo
 Cheio de balanço
 Caminho do mar.

Porém  Tom e Vinícius não gostaram da letra. Tempos depois, Vinícius fez a versão definitiva, inspirado numa moça que sempre passava em frente ao Bar Veloso (hoje bar "Garota de Ipanema").

"Seu nome é Heloísa Eneida Menezes Paes Pinto, mas todos a chamam de Helô. Há três anos atrás ela passava, ali no cruzamento de Montenegro e Prudente de Morais, em demanda da praia, e nós a achávamos demais. Do nosso posto de observação, no Veloso, enxugando a nossa cervejinha,
Tom e eu emudecíamos à sua vinda maravilhosa.
O ar ficava mais volátil como para facilitar-lhe o divino
balanço do andar. E lá ia ela toda linda, a garota de Ipanema, desenvolvendo no percurso a geometria espacial do seu balanceio quase samba, e cuja fórmula teria escapado ao próprio Einstein; seria preciso um Antônio Carlos Jobim para pedir ao piano, em grande e religiosa intimidade, a revelação do seu segredo.
Para ela fizemos, com todo o respeito e mudo encantamento, o samba que a colocou nas manchetes do mundo inteiro e fez de nossa querida Ipanema uma palavra mágica para os ouvintes estrangeiros. Ela foi e é para nós o paradigma do bruto carioca; a moça dourada, misto de flor e sereia, cheia de luz e de graça mas cuja a visão é também triste,
pois carrega consigo, a caminho do mar, o sentimento da
que passa, da beleza que não é só nossa - é um dom da vida em seu lindo e melancólico fluir e refluir constante." (Vinícius de Moraes)

E a versão definitiva ficou assim:

Olha que coisa mais linda
Mais cheia de graça
É ela menina
Que vem e que passa
Num doce balanço, a caminho do mar
Moça do corpo dourado
Do sol de Ipanema
O seu balançado é mais que um poema
É a coisa mais linda que eu já vi passar

Ah, porque estou tão sozinho
Ah, porque tudo é tão triste
Ah, a beleza que existe
A beleza que não é só minha
Que também passa sozinha

Ah, se ela soubesse
Que quando ela passa
O mundo sorrindo se enche de graça
E fica mais lindo
Por causa do amor

A garota morava na Rua Montenegro 22, entre a Prudente de Morais e a praia,  somente depois de três anos é que soube que suas caminhadas pela Montenegro haviam feito dela a musa desta canção.  O Bar Veloso, atual Bar Garota de Ipanema, é na esquina das ruas Prudente de Moraes e Vinícius de Moraes, onde Tom e Vinícius moravam mais do que em suas casas.
“Em 1945, o comerciante Raul Veloso abriu uma mercearia na esquina das ruas Montenegro(atual Vinícius de Moraes) e Prudente de Morais. O nome era O Botineiro.
Na mercearia também continha um balcão onde se vendiam bebidas, onde a cerveja vendia mais que os outros produtos. Por isso, mesas, então, foram colocadas e a mercearia virou um bar. Os freqüentadores nunca o chamaram de Botineiro, mas de Veloso.
Dois fatos fizeram a fama do bar.
Primeiro - mais conhecido - foi dali que em 1962 Tom e Vinicius contemplaram a moça que os inspiraria a compor "Garota de Ipanema".
A revelação atraiu uma nova clientela.
O segundo fato é que certa vez, Tom estava tomando um chope no Veloso quando o garçom Arlindo veio dizer-lhe que um gringo o chamava ao telefone.
O gringo era Frank Sinatra”.

Hoje 04/02/2006 fui tomar alguns chopes no Bar Garota de Ipanema, relembrei algumas histórias do passado e homenageando esses monstros sagrados da Bossa Nova, escrevi este texto.


Vincent Benedicto
Enviado por Vincent Benedicto em 05/02/2006
Reeditado em 05/02/2006
Código do texto: T108126
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Sobre o autor
Vincent Benedicto
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil
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