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Crônica de esquina 3

 POR QUE A VILA?

De certa forma, Vila Isabel devolveu-me à vida. Não àquela de descompassadas sístoles geradas num tal nódulo sino-atrial, lotado à base da veia cava que deságua no átrio direito de um coração cada vez mais venoso pelo tabagismo inveterado. Não. Não me refiro ao relógio que me marca o passo, trocadilhos à parte. Essa vida restrita ao metabolismo celular, talvez se sentisse melhor em climas menos etílicos. Um alopata convicto poderia sugerir-me Petrópolis, Miguel Pereira ou Campos do Jordão, além dos antibióticos, é claro. Porém, outro médico menos ortodoxo, como nosso querido Didi, poderia prescrever-me Cartola, Noel, Nelson Cavaquinho, além de sistemáticas triagens no bar do Costa.
A vida a mim devolvida foi aquela que exilara-se por quase vinte anos nas gavetas da mesinha de cabeceira da casa materna: um livro de poesias. Foi assim que, junto com o poeta e amigo Sérgio Fonseca, ele viu a luz do sol.
Vila Isabel me devassou e propiciou a mim uma nova sensação de liberdade. No apoio recebido, percebi que ninguém deve escrever para apodrecer nas gavetas. Por isso, não lhe sou apenas grato, mas um fiel servidor.
Não perdi minhas raízes. Ainda lá, em Marechal Hermes, elas se aferram fecundas. Aqui, sou apenas um dos ramos dessa árvore que me azeita a sombra para o gozo da vida. Ocorre que Vila Isabel não é apenas um bairro, mas um estado de espírito. Por aqui, quando acordamos mais satisfeitos, de bem com a vida e com uma vontade monstro de ver um amigo, costumamos dizer: hoje eu estou bem mais Vila Isabel. É uma mística que nos envolve como uma segunda pele. Ponto de convergência, Vila Isabel nos embala nas sonoridades que brotam das calçadas do Boulevard. Ao seu pé, à maneira dos portais de cidades medievais, o anfitrião recebe a todos que chegam. Ali sentado, em conversa de botequim, nosso poeta atesta a boêmia que nos encanta e que tem pulsação própria. Suas elásticas artérias acomodam-se à hipertensão de ritmos. Alma antropofágica, renova-se ao som de agogôs, pandeiros, cuícas e tamborins. Mais que centenária, conserva o brilho e o frescor das antigas musas de eternos carnavais. Vila Isabel pulsa samba. Samba que vem nos pés de anjos de rostos suados, calos nas mãos e nos dedos. Bairro de princesa e escravos libertos.
Vila que me acolhe; Vila de menestréis e de Noéis enfeitiçados; Vila flor de acetato, toda em tons azul e branco. Vila flor dos meus encantos. Vila que te quero Vila, muito mais Vila Isabel.

                                                                                              Aldo Guerra
                                                                                             Vila Isabel, RJ.
Aldo Guerra
Enviado por Aldo Guerra em 05/02/2006
Reeditado em 15/11/2010
Código do texto: T108206
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Sobre o autor
Aldo Guerra
Rio das Ostras - Rio de Janeiro - Brasil, 60 anos
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Aldo Guerra