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Crônicas de esquina 4

 Marcelinho

Como sempre acontece, chegou em casa são e salvo. Digamos que salvo, posto que são é uma hipótese pouco provável numa Quarta-feira de Cinzas, mas cujas chamas teimam em arder e esticar o carnaval. Essa prática, cada vez mais presente, já não é pecado e, por conta disso mesmo, não mais mobiliza a força policial como nos áureos tempos do Chave de Ouro no Engenho de Dentro.
O fato é que chegou. Por certo cansado, mas feliz. Vinha de alma lavada e trazia nos olhos o colorido de confetes e serpentinas do seu tempo de menino. Carro estacionado, dirige-se ao portão que dá para a escadaria que o conduzirá à porta da sala. Enquanto caminha, é possível que elabore projetos oníricos que incluam a mulher e o filho que, estando ambos fora, não assistiram o extinguir da última chama que resultou nas irremediáveis cinzas que terão que esperar um ano inteiro para, tal qual a fênix, renascerem nos braços de um Momo cada vez mais grego. Um Momo atlético a arrancar suspiros de colombinas e odaliscas no cio. A essa imagem, nosso folião sorri enquanto pega o chaveiro do bolso da bermuda. Então, a surpresa. Cadê a chave do portão? Aquela ausência fora de hora o tira de um transe para atirá-lo em outro: o pesadelo. Uma hora da manhã! E agora? O folião exige-se calma. Não é de bom tom trocar o sorriso satisfeito pela carranca do desespero. Imaginando-se tranqüilo, toca a campainha da vizinha. Afinal, ele terá uma boa desculpa pelo transtorno provocado – a bem da verdade – a sua revelia, pois afinal ninguém perde uma chave para invadir o sono de ninguém. Aguarda. Olha em volta. Viva alma sequer. Nenhuma resposta. Ameaça tocar uma segunda vez mas desiste. A primeira solução que se lhe apresenta é a de recolher-se a um hotel qualquer da Lapa, mas verifica, agora visivelmente contrariado, que o dinheiro com que saíra fizera questão absoluta de não voltar com ele. Dormir no carro, nem pensar. Era uma temeridade expor-se assim ao desatino de meliantes e saltimbancos que têm a argúcia de cães farejadores. A casa materna é descartada. A essa hora, cortar a Avenida Brasil seria o mesmo que ser um patinho de uma barraca de tiro ao alvo de um parque de diversões qualquer.
A chave da sala estava salva, mas como chegar até ela? Pensou na falta de solidariedade da vizinha. Claro que ouvira! O toque de uma campainha no silêncio sepulcral da madrugada são como os fogos que anunciam a entrada das escolas de samba na Sapucaí. Sentiu uma velada raiva de tudo. A última gota de álcool volatizara. Estava agora são, porém não mais a salvo. No entanto, uma súbita idéia devolveu-lhe o ânimo. A única saída era escalar o portentoso muro. Como um alpinista, era preciso encontrar os vãos exatos para mãos e pés que, infelizmente, guardavam uma infinita distância daqueles de quando menino, escalando as árvores tantas de Padre Miguel. Mas como perseverança é tudo, viu-se na pele de um gato subitamente rejuvenescido e pronto: pôs-se diante da porta da sala. Adentra para novo susto. Cada qual em seu quarto, dormiam mulher e filho. Certamente voltaram antes para fazer surpresa, mas não resistiram aos encantos de Morfeu. Nosso herói sorriu amarelo porque não tocara, só por desencargo de consciência ou desespero excessivo, a campainha da própria casa.

                                                                                     Aldo Guerra
                                                                                  Vila Isabel / 2004
Aldo Guerra
Enviado por Aldo Guerra em 08/02/2006
Código do texto: T109213
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Sobre o autor
Aldo Guerra
Rio das Ostras - Rio de Janeiro - Brasil, 60 anos
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Aldo Guerra