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Crônica de esquina 5

GRAMATICAL

Para muitas pessoas, tudo é uma questão de gosto. Em seu nome podemos nos aferrar às mais insustentáveis opiniões. Tendo como premissa o axiomático “gosto não se discute”, deslizamos por aí a exibir nossas incoerências sem remorso algum.
Refiro-me ao ato de escrever. Tenho reparado uma certa conspiração contra a língua. Vírgulas cruzam os braços ou mudam de lugar; acentos tergiversam ou deixam-se ficar onde melhor lhe aprouver; concordâncias negam-se, peremptoriamente, a qualquer acordo. É como se houvesse palavras-de-ordem: Abaixo a Norma Culta! A Regência é nossa! Pelas liberdades léxicas!
 Imagino um manifesto que começasse mais ou menos assim: “A gramática está morta e enterrada. Não deixou herdeiros. Viva a nova ordem lingüística! Basta de normas para a colocação pronominal! Queremos os barbarismos, os solecismos e as ambigüidades de todas as fontes! Viva a cacofonia e o pleonasmo vicioso! Abolimos o hífen e o trema. A partir de hoje, todos os verbos são abundantes e conjugáveis em todos os modos, tempos e pessoas. Lato eu, lata você, latão eles!”
Reconheço que a língua portuguesa é, sob muitos aspectos, árdua e espinhosa. Concordo que a norma culta tem um excesso de maquiagem. Seus trajes de gala e preciosismos a tornam antipática. No entanto, contrapor seu extremo rigor a um desbaratado carro sem freios é, sem dúvida, um outro extremo exagero. Nos dois casos, a empáfia não é boa conselheira. Arrogância não é prerrogativa de erudição. Em situações como essa, o bom senso na dose é sempre o melhor remédio.
O que nos fez o trema para merecer o cárcere nas masmorras da nossa inobservância? E a crase? Que mal poderá haver nessa contração de uma preposição com um artigo que se nega à solidão? Imaginem, no Costa, um cartaz assim: “É vetado aos garçons o direito de comerem durante o expediente, exceto o gerente.” Ainda que gramaticalmente correto, presumo que o Tuninho encontrasse muita resistência em contratar alguém que lhe gerenciasse o bar.
É preciso muito cuidado com o que se escreve ou se diz. O que diria o sujeito que, estando no bar com a esposa, encontrasse um amigo que, chegando-se, perguntasse:
Posso desfrutar da sua companhia e da sua mulher?
 Nem pensar, né?

                                                                                  Aldo Guerra
                                                                                 Vila Isabel, RJ
Aldo Guerra
Enviado por Aldo Guerra em 11/02/2006
Código do texto: T110598
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Sobre o autor
Aldo Guerra
Rio das Ostras - Rio de Janeiro - Brasil, 60 anos
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Aldo Guerra