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Tutuca

Tutuca estava saindo do trabalho quando avistou seus dois companheiros de noitada (noitada até as 19:00hs porque os três são casados, he he he), Paulo e Vina num boteco feio na esquina da Miguel Couto no centro do RJ. Os dois bebiam animados uma cerveja e comiam uma repugnante sardinha frita...
- Faaaaala Tutuca, chega aê, junte-se aos bons pois já és um deles!
- Bando de pobre, diz Tutuca, comendo sardinha frita no centro da cidade.
-Pega leve aí Tuca, senta com os pobres e toma uma gelada vai. Quer que eu peça uma porção de tremosso?
- Tremosso?? Isso é comida de português!!
-I daií quã é cumidã dã portugais?? Lá na nossa térrra é muito aprciado ó pá!! Retrucou Manuel, o dono do bar
-Não quis ofender seu Manél! Aliás, quanto foi o jogo do Vasco??
-Dú basco eu não sai, mas o teu mengão está muito mala dãs pérrrnas
-Ok, já entendi, corta o papo!!
Sentando-se então Tutuca  tratou de beber um revigorante gole de cerveja naquele copinho safado de boteco, pois boteco que se preze, não tem tulipa, é administrado por um portuga de nome característico como Manuel ou Joaquim e possui um grande balcão de vidro, recheado de ovos azuis e amarelos e um bom e jurássico pernil de porco medianamente fatiado. Os ovos estão lá desde a inauguração, bem como o chinelo de dedo do Manuel. Já o pernil nos leva aa crer que o porco é um animal pré-histórico.
-E aí Tuca, como vai teu filho? Dando trabalho? Ta crescidão já!!
-Verdade, ta com 2 anos, um molecão saudável, bonitão, saiu ao pai
-Pega leve Tuca, tu é feio pacas!!!
-Tua irmã não acha!! Jacu
-Olha o nível, reclama Vina, estamos num boteco de família, certo seu Manel?
-Ora pois ó pá
-Estou é meio chateado com minha mulher que fica colocando um CD de musicas infantis p/ o moleque.
-Ué e daí? Pegunta Paulo. Quer que o moleque ouça o que? Funk?
-Nem tanto, mas eu não concordo com a maioria das músicas infantis, são todas disvirtuadoras do caráter, as letras são péssimas.
Vina e Paulo entreolham-se com expressões curiosas, um misto de espanto e incredulidade. -Como assim Tuca?, Pergunta Paulo.
-Veja bem (neste momento Tuca ajeita-se na cadeira de ferro, jogando as pernas p/ esquerda, o quadril p/ direita e o queixo na frente, um misto de O Pensador com Luciana Gimenez), analisemos Atirei o Pau no gato, por exemplo. Você gosta de gato Vina?
-Gosto
-E Você Paulo?
-Gosto
-Saco, vocês não servem de parâmetro. Mas vamos em frente, a maioria das pessoas odeia gato, e porque? Qual o racional por trás disso?
-Gato dá asma?
-Falando sério Paulo!! As pessoas odeiam gato porque desde cedo aprendem que devem atirar o pau no gato!! E ainda ficam frustradas que o gato não morreu com a paulada. É cruel! Porque não... atirei o pau no porco?
-Bom, tem uma perna de porco ali no balcão, será que ele morreu de paulada?
Risadas gerais....
-Ah Tuca fala sério, você ta encanado por causa de uma musica infantil? Desencana...
-Tem mais, aquela musiquinha, Escravos de Jó. Preste atenção, a musica exalta a escravidão chamando pobres coitados que trabalham à força, sem perspectiva nenhuma, uma verdadeira tragédia humana, de guerreiros!! Parece que estamos em Roma!! Escravo é escravo, guerreiro é guerreiro e ponto final. Mas continuando o raciocínio, tira bota, deixa um só guerreiro ficar. Que isso? Estão matando os escravos? É como no Highlander? Só pode restar um? E esse negócio de tira, bota, que pederastia!!
-Caramba Tuca tu é doente, essa sua mania de achar que é intelectual é triste. Tá se achando o próprio Arnaldo Jabour.
-Peraí Vina, tem mais, até os versinhos são subversivos!! Veja bem, Batatinha quando nasce se esparrama pelo chão, guardo papai no bolso e mamãe no coração. Que coisa, quer dizer que o pai só serve p/ pagar as contas da casa!! A mamãe é a provedora de carinho e pai que rala p/ cacete só figura como fornecedor de bens de consumo! Que capitalismo selvagem. Por isso que as crianças hoje estão tão consumistas!!
-Putz, tira a cerveja dele Paulo, o cara pirou!! Só você Tuca, relaxa cara, encara a vida de um modo mais zen. Olha só aquela mulher de saia azul que deusa!
-Gente, o papo tá bom, mas eu ainda tenho que passar numa loja de CD para levar um disco que meu filho fica louco quando ouve a música.
-Mesmo, de quem é o CD?
-Olha Vina, não sei não, só sei que o refrão é assim: Pocotó, Pocotó, Pocotó, minha egüinha Pocotó....
Arnaldo Ataulfo
Enviado por Arnaldo Ataulfo em 14/02/2006
Código do texto: T111796
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Sobre o autor
Arnaldo Ataulfo
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 45 anos
6 textos (397 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 11/12/16 00:24)