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MORRENDO  DE  AMOR ( vou pra Roça)

Evaldo da Veiga



O bom para as pessoas que morrem de amor e que elas 
ressuscitam . Conheci alguns casos assim. Antigamente,
 era comum ouvir: -" fulano está morrendo de amor por beltrana". 
E às vezes, era a Beltrana que estava batendo as botas
 por um tal de Sicrano. Mas o bom disso é que, 
embora fosse dito com extrema gravidade, 
seriedade absoluta, a gente nos dias seguintes, semanas, via aquela Sicrana, aquele Beltrano andando alegre e até dando sonoras gargalhadas.

Na época, eu era pequeno e ficava intrigado e pensava:
- se ele morreu o que está fazendo aqui?
 É a alma dele vagando...? Falava-se muito em alma penada, naquele tempo, era gente que morria e voltava pra puxar o pé dos outros...
Mas, uma Senhora, mantinha uma peculiaridade
 rara naquele tempo e ambiente, chamava-se Dona Filhinha. 
Quando o marido morreu ela emocionou a todos,
 porque disse que já tinha morrido também, não resistiu à saudade... O seu corpo ainda ia ficar algum tempo, mas sua alma já havia partido, junto ao falecido.

Quando a gente passava por ela perguntava: "como vai Dona Filhinha?" e ela respondia: - " ainda estou bulindo, meus filhos". Todos adoravam cumprimentar Dona Filhinha pra saber se 
ela ainda estava " bulindo", se estava viva, 
embora seus movimentos não deixassem dúvidas.

Tinha uns bailes no Clube do Crol e Dona Filhinha não perdia um; e, antes que perguntassem, ela explicava: 
" não tenho mais alegria, já morri por dentro, mas não quero preocupar o falecido; vou ao baile pra fingir que estou alegre. 
E fingia bem: dançava bem animada, bebia cerveja escondida, abaixadinha atrás do balcão do bar, que era de uma grande amiga. Diziam as más línguas, até, que Dona Filhinha na casa desta amiga, recebia uns amigos, " costurava pra fora", como muita discrição...

Mas estou dizendo tudo isso, porque Dona Filhinha morava
 perto de onde foi a " venda" do meu avô, a roça da minha vó e depois a "venda" do meu Tio João, para onde íamos passar uns poucos dias das férias do colégio, na maior alegria. 

Um dia perguntei à minha mãe porque não ficávamos
 as férias toda, e ela disse que tinha que voltar pra cuidar do 
meu pai, se não ele sumia... 

Bois, cavalo, porcos, galinhas e aves domésticas em geral,
 fogão de lenha, panela preta, o cheirinho forte da comida
 e do café, tudo me fascinava.

Explicando melhor: estou dizendo isto porque li um e-mail de uma amiga onde ela diz que está morrendo de amor e eu aconselhei-a a mudar de ares, ir para a roça. Ela falava em morrer de amor, dramaticamente,e me faz lembrar da Dona Filhinha, porque na narrativa tem imagens que refletem a vida rural que tanto gostei e tão pouco vivi.

Mas ainda tenho esperança que vencendo alguns obstáculos possa morar na roça e viver com mais tempo aquelas cenas que somente vivi quando menino, momentos fugazes...
quem topa ir pra roça? Levando o computador você vai? rss

Evaldo da Veiga

evaldodaveiga@yahoo.com.br

Evaldo da Veiga
Enviado por Evaldo da Veiga em 15/02/2006
Reeditado em 23/10/2011
Código do texto: T112028

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Sobre o autor
Evaldo da Veiga
Niterói - Rio de Janeiro - Brasil, 73 anos
952 textos (313617 leituras)
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Evaldo da Veiga