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Crônica de esquina 6 ( Proverbiais )

  PROVERBIAIS

Há pessoas que vivem de provérbios, incluindo aí aquelas que o fazem com fins pecuniários. Assim, torrentes de sabedoria cabem em conta-gotas que esvaziam-se nas prateleiras por obra e graça da crendice popular. Às vezes vêm em fórmulas de tempo e séculos da sapiência milenar de uns tantos gurus que a  ministram  em minutos, pois afinal, nessa vida atribulada, não dispomos de ócio o bastante. De minha parte, acho que tais ensinamentos oscilam entre o senso comum e a sua falta.
 No entanto, os provérbios também fazem parte do cotidiano e povoam conversas despretensiosas que ajudam a empurrar o dia com a língua. Prestam-se a vaticínios e veladas pragas. A importância que têm não pode ser subestimada. Estão em toda parte: adesivos de carros, pára-choques de caminhões e nos portais de residências. Incluem-se, aqui, pequenas frases sob a forma de pensamentos. Sempre um apelo, uma exortação, uma certeza infalível. Do catequizante “tudo é força, mas só deus é poder” ao bisonho “a inveja é a arma dos incompetentes”.
 Na porta da sala de um amigo, colhi essa pérola: “A riqueza de um homem pobre são os carinhos de uma mulher sincera”. Contive a gargalhada para não gerar um mal-estar desnecessário. Afinal, nem a posição social do amigo, nem o conhecido jeito xumbregoso de sua consorte estavam em sintonia com aquele chiste talhado em madeira. E como em boca fechada não entra mosquito, botei a viola no saco, pois casamento e mortalha no céu se talham. Ademais, de mau ninho pode sair bom passarinho. Disse a mim mesmo: dizendo-se a verdade perde-se a amizade. Mesmo sabendo que a mentira tem pernas curtas e que pimenta nos olhos dos outros é refresco, agarrei-me à agradável companhia do anfitrião. Quando um não quer, dois não brigam e, no caso de ser eu o visitante, certifiquei-me de que quem anda na garupa não pega na rédea.
 O cônjuge era simpátia e sabia que o hábito faz o monge. Mas como macaco velho não bota a mão em cumbuca, botei as barbas de molho. As aparências enganam, Claro! Até o inferno está cheio de bem-intencionados. Relaxei. Rei morto, rei posto, o que é de gosto arregala a vista. Ninguém dá o que não tem, e convencido de que o pior cego é aquele que não quer ver, digo a mim mesmo que não se procura chifre em cabeça de cavalo. Sei que quem avisa amigo é, mas não se fala de corda em casa de enforcado. Afinal, o coração tem razões que a própria razão desconhece. De resto, o que é do homem o bicho não come. Enfim, despeço-me do casal. Pobre amigo, não sabe que pato novo não mergulha fundo.

                                                                               Aldo Guerra
                                                                              Vila Isabel, RJ.
Aldo Guerra
Enviado por Aldo Guerra em 18/02/2006
Código do texto: T113526
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Sobre o autor
Aldo Guerra
Rio das Ostras - Rio de Janeiro - Brasil, 60 anos
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Aldo Guerra