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INTERLÚDICO


INTERLÚDICO

(conceito está na moda.  O que não está é preconceito)

“Impaciente leitor, ouça a mais íntima nota do seu extinto.
Bem sabes que não encontrarás, nestas breves linhas,
a  suculência do seminal  dos sonhos.
Mas decerto,  saborearás  prazer, a servidão, a  luxuria.
Porque o mal da carne
se faz  necessário à carne.
O despertar, se  fulguroso, premiara-vos com o incerto do pós-vida.
Se recusa o convite
de certo  estarás
por falso escrúpulo
 negando-te  o banquete do paraíso
onde frutuosas  ninfas, em  multicolores bordados,
agasalham
no orvalho matutino
O pólen e a semente da vida.
Creia-me
o texto é sensato.
Faz  por merecer
 dos incautos,  profunda reflexão.
Mas não despreze a crítica:
a libertinagem da imaginação
não carece de comer a língua.”



(Casario San Metrepolous, Belfast, 11 de setembro...)

Ouço rumores pela casa como se fosse um vendaval matutino invadindo  sonhos.  O toc-toc no piso de carvalho carcomido,  o ranger das dobradiças enferrujadas do armário, o retinir de panelas velhas na pia de marmorite encardido;  insistem em me revelar que alguém esta preparando o café da manhã.
(estou certo que o Editor substituirá o termo, nosso café por nosso desjejum: ele se rotula intelectual).

A preguiçosa manhã que me desperta preguiça, leva-me crer que quem acaricia a mobilia da cozinha seja Judith.  Não me ocorre outro nome. Pois, bem sei, que nosso amor resistiu aos açoites do último temporal.
Um livro sem final, seria a melhor definição para o nosso tórrido caso. Um caso sem solução.  Entre inúmeras separações, das quais, carrego marcas do remorso, guardo, a contra gosto, a certeza de que ela ainda corresponde, afirmativamente, ao meu mais rígido e vibrante sentimento.  Não sei dizer se por amor, por paixão, por devassidão ou apenas  por compaixão.
Esse momento me é sublime. E, bem sei, que não devo, mas  anuncio aos quatro ventos que a Cinderela do asfalto ainda guarda no íntimo, no íntimo da suas estranhas, no íntimo da sua desrazão,  no íntimo da sua alma que se veste de traumas de outras encarnações, o signo da fé cega nas razões do coração.

       
Absorvido por essas fagueirosas divagações junkinianas, permito-me, relutante,  apreciar o aroma do café deflorar minhas narinas, correr pelo aridez do esôfago, e inundar o estomago me proporcionando reboliços indesejados e voracidade do apetite.
Logo estarei partindo.  A partida é inevitável.  Será uma viagem sem volta ou sem meia-volta.  Após o 11 de setembro  o calendário kregoriano ganhou novas tintas e mitos.  A tinta é descolores; e o mito: frágil.
Judith não sabe; mas logo saberá. Sua face angelical, rejuvenescida  pela mascara facial que faz sua carne ficar sedosa como bumbum de bebê; Seus verdes olhos matizados de azul profundo,  cristalizados pela gelatinosa lente de contato; sua pele clara, bronzeada pelo ultravioleta do sol artificial; e outros incontáveis milagres tecnológicos, com os quais e pelos quais, o Remoçador da criatura do Criador, modela e remodela o corpo e a mente da desta diva virtual, tornando-a, comercialmente, ainda mais virginalmente desfrutável.

Alheio a essas divagações, Claudia no seu eficiente e feminino hábito de preparar café para sua caça; não se dá conta de que eu...
Cláudia?  Claudia, não: Fernanda.

Fernanda no seu eficiente e feminino hábito de preparar...
Sinto os neurônios dar nó no pensamento.
Advirto-me de que deva me encontrar tão esgotado pela volúpia do amor, que já nem bem sei se aquela mariposa noturna seria Vilma, Carla, Maíza ou simplesmente você.
Escuto passos no corredor. Ouço uma voz radiofônica sussurrar no ouvido do mundo: Acorda: o café ta pronto!
Fico aflito. Aquela voz grave, com um leve sotaque sulista só poderia ser de Lolita. Ah!, Lolita…  como posso me esquecer da doce quentura do teu chimarrão.

Chimarrão?, gritou um censor interno.

Ora! Se não é chimarrão também não Lolita.  Se não é Lolita... só pode ser Gizelle.
Tive certeza que era Gizelle. Aquelas endiabradas passadas no corredor, que não ferem o piso de tábua corrida, mas machuca o coração da gente, só pode ser minha Gizelle que vindo vindo vindo; vem.
Chão, piso, pista, passarela...  Gizelle.

Permito-me embriagar-me em sua fulgurante e imponente beleza. Sinto o quarto transpirar seu perfume. A luz do dia é eclipsada pela lua. A formosura cega meus olhos, queima minha carne, pois a desejo e a vejo seminua me dizendo: bom dia.
Ah!, que felicidade a minha. Quantas noites mal dormidas esperando que ela voltasse, frente a frente, na esperança de dizer que tudo foi um grande mal entendido.  Nada mudou.

O dia faz um silencio profundo.
E, como se fosse uma pluma, a porta se move com o seu sussurrante ranger de fechadura enferrujada. Uma vertiginosa silhueta invade o ressinto da minha imaginação. Grita: - Oi!  Sua Tukinha veio trazer o café.  Qué bolo?
Antonio Virgilio Andrade
Enviado por Antonio Virgilio Andrade em 22/02/2006
Reeditado em 23/02/2006
Código do texto: T115074
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Sobre o autor
Antonio Virgilio Andrade
Riacho Fundo - Distrito Federal - Brasil
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